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Votarei Não, com muito sofrimento.
Votarei Não, porque sei, como médico, que no útero da mulher, depois da conjugação e implantação, está um corpo humano vivo na sua forma mais simples e mais indefesa, com uma identidade genética própria, única, irrepetível.
Votarei Não, porque a nenhuma mulher pode ser dado o direito de livremente destruir ou mandar destruir esse corpo humano vivo, sem outro motivo além da decisão de o não tolerar, de não desejar alimentá-lo para que ele cresça até poder viver pelos seus próprios meios.
Votarei Não porque a destruição de um filho não resolve as dificuldades financeiras ou sociais da mulher grávida, que são anteriores à gravidez, dita indesejada, e vão persistir depois do abortamento.
Votarei Não porque substituir um aborto “sujo” por um aborto “limpo”, não dignifica um acto ao qual todos se declaram contrários.
Votarei Não porque um bébé humano não é menos digno de protecção que um bébé de foca ou de panda e tantos seres humanos, no mundo, lutam por todos os meios para os protegerem.
Votarei Não porque os médicos não podem ser instrumentalizados para resolver problemas económicos e sociais.
Mas votarei  Não, com muito sofrimento.

Sofro, porque a nossa sociedade não apoia nem acolhe a mulher grávida, mesmo sabendo que a redução da natalidade ameaça, a prazo, a sobrevivência da nação portuguesa.
Sofro, porque as formas seguras de evitar as gravidezes erradas, em especial nas adolescentes, não estão generalizadas e facilmente disponíveis – e deviam estar.
Sofro, porque as famílias portuguesas ainda não reconheceram que a sexualização progressiva de todos os meios de comunicação social, impõe que a educação da genitalidade seja mais precoce, mais aberta, mais directa, sem tabus absurdos e hoje inúteis; para que nenhuma adolescente fique grávida por ignorância (Mãe, se eu transar antes de casar tenho de abortar? Perguntou a menina de 7 anos, perita em telenovelas brasileiras).
Sofro, porque as situações em que a mulher é usada e fecundada, como objecto disponível, por homens irresponsáveis, são ainda frequentes em Portugal – e não deviam existir.

Mas, ao votar Não, estou a exigir que Sociedade civil e Governo actuem, em conjunto, para proteger e apoiar a mulher grávida de modo tal que a maravilha da gravidez não seja nunca, para nenhuma mulher, motivo de dor e sofrimento, agravados por um abortamento, mas tempo de paz, de esperança e de felicidade.
Votar Não é, para mim, uma exigência ética.


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