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Cabe-me apresentar, sucintamente, o estado de arte no que se refere ao uso de células estaminais ou células matrizes ou células matriciais colhidas em seres humanos logo após o nascimento, a partir do sangue do cordão umbilical, ou em qualquer fase do desenvolvimento pós-natal. A estas células chama-se, abreviadamente, células estaminais adultas o que é uma contradição linguística pois se trata de células não diferenciadas, pluripotentes que se podem encontrar num individuo já adulto, ao lado das células diferenciadas dos diversos tecidos orgânicos. Melhor será designá-las por células estaminais ou células matrizes do ser humano nascido, embora possam obter-se do feto in situ ou após abortamento. Ao universo destas células opõe-se o das células ou blastómeros que constituem o embrião na fase de mórula e o das da placa embrionária ou massa celular interna do blastocisto, designadas por células matrizes de origem embrionária.

Sem ironia quero assinalar que as células estaminais ou matrizes do adulto, as que podem ser extraídas do corpo embrioide resultante de transferência nuclear ou as do embrião constituído por fecundação ovocitária são hoje uma promessa. E como desde Abraão e Moisés os homens da Tradição judaico -cristã são mais apaixonados pela Promessa do que pelas realidades, aí as temos na primeira linha do interesse público e mobilizando cientistas, políticos e juristas.
Qual é a promessa? Curar as doenças incuráveis como as doenças cerebrais e medulares – Parkinson, Alzheimer, Huntington, isquemias com necrose cerebral focal, tetraplegia – ou como a insuficiência cardíaca pós-enfarto do miocárdio, a diabetes insulino-dependente, a necrose hepática aguda e crónica e outras, muitas outras. Os mais realistas dos investigadores neste campo, prometem uma terapêutica por substituição celular, os mais optimistas prometem substituir tecidos e os utópicos não hesitam em prometer a substituição de órgãos completos como um rim ou um coração humanos tornando as transplantações obsoletas e retrógradas.
Prometer é fácil e há sempre quem acredite.
O difícil é cumprir o que se promete.

2- As células matrizes obtidas em adultos são pluripotentes. Um relatório da European Science Foundation, publicado em 2001 e elaborado por sete peritos de cinco países europeus que constituíram o Grupo de Referência em Stem Cells, diz textualmente: “As stem cells do adulto são responsáveis pela renovação celular e pelo crescimento e reparação dos tecidos, desde o início da vida pós-natal até à vida adulta. Algumas destas células são pluripotentes o que significa que podem dar origem a vários tipos celulares”. Quer isto dizer, comento eu, que é um processo normal, embora se saiba ainda pouco sobre a sua actuação in vivo. No sangue do cordão umbilical as células matrizes são mais numerosas que as obtidas do sangue de um adulto, mas a sua plasticidade, em cultura, é idêntica.

Este Relatório apresentado pelo “High Level Expert Group”, refere depois células do adulto e do cordão um pouco mais diferenciados, chamadas células progenitoras, identificadas já em pelo menos 20 tecidos humanos diferentes; estas células originam, cada uma, um só tipo celular em cada tecido, como se fossem células de reserva; as mais bem conhecidas são as que garantem a renovação da pele e a renovação das células mucosas do epitélio colo – rectal. E também do fígado.
Entre as células matrizes pluripotentes e as células progenitoras unipotentes situa-se o caso particular do tecido hematopoiético acolhido na medula dos ossos, o qual tem uma célula matriz única para todos os tipos de células do sangue que origina, depois, células progenitoras para glóbulos rubros, polinucleares, linfócitos e monócitos. Nalgumas espécies animais podem diferenciar-se em células progenitoras do sistema nervoso central e do sistema muscular esquelético.

A recolha destas célulasmatrizes e progenitoras do sangue do cordão umbilical, do sangue de adultos, de embriões e fetos abortados espontaneamente ou de acordo com a lei não levanta problemas éticos e é hoje praticada em muitos países europeus, com relevo para a Suécia onde há grupos fortes a trabalhar com células progenitoras do sistema nervoso central e da medula óssea. A reprogramação de células progenitoras para células matrizes com ulterior diferenciação dirigida para outros tipos celulares tem sido conseguida em modelos animais, diz o texto.

O relatório de peritos a que me venho referido, que incluía dois investigadores do Karolinska Institutet de Stockolm, termina recomendando que, para já, se devem fazer investigações em paralelo com células matrizes de adultos, de tecidos fetais e de embriões, estas últimas com participação pró-activa da comunidade cientifica no estabelecimento da sua estrita regulamentação e na ponderação das dificuldades éticas existentes na sociedade civil e nos governos de vários países europeus, ainda sem legislação sobre embriões humanos, como Portugal, ou com leis que proíbem o uso de embriões em investigação como a Alemanha, a Áustria e, mais recentemente, a Itália.
O relatório é de Junho de 2001 mas as referências bibliográficas vão apenas até 2000. Como estamos Março de 2004?

3- No momento actual e em especial nos últimos doze meses estamos numa prometedora Primavera no que respeita às células matrizes do adulto e às células progenitoras ou de reserva dos diferentes órgãos.
Assim, sem pretender ser exaustivo porque a Internet é generosa com todos nós, enuncio apenas os resultados mais significativos.
No congresso da British Society of Fertility, de 2001, investigadores da empresa PPL Therapeutics e do Instituto Roslin comunicaram ter conseguido reprogramar células progenitoras da pele de vaca para células matrizes pluripotentes e a partir destas obtiveram células musculares cardíacas; anunciam ensaios clínicos para 2005.

No mesmo ano, na reunião da Sociedade Americana de Investigação Ortopédica, Guilack e Erikson da Duke University, mostraram como conseguiram transformar células adiposas humanas em células cartilagíneas, passando apenas pela célula mesenquimatosa indiferenciada, o fibroblasto.
No Congresso de Setembro de 2001 da Sociedade Americana de Ciências Neurológicas foram apresentados resultados experimentais com células progenitoras muito prometedores: estas células injectadas junto de lesões desmielinizadas faziam reaparecer a bainha de mielina; outros provam que elas migram ao longo da espinal-medula para as zonas lesadas e que injectadas no lobo direito de ratos, com Alzheimer experimental do lobo esquerdo, migravam para o lado da lesão e depositavam-se sobre as placas.
Um trabalho do NEJM (344;1750-7, 2001) provou que em doentes com enfarto, há células progenitoras que adequadamente estimuladas, crescem e procuram reparar o miocárdio lesionado.

Mas o mais extraordinário resultado, que deve ter uma explicação arqueo-biológico, é a plasticidade das células matrizes mesenquimatosas encontradas no território da medula óssea. Reyes e colaboradores (Blood 98: 2415, 2001) conseguiram obter, a partir destas células, em seres humanos, células musculares cardíacas, células ósseas, células cartilagíneas, células adiposas e células uroteliais, mantidas em cultura. Estes resultados vieram confirmar dados experimentais, no Rato, e abrem grandes perspectivas terapêuticas na área dos tecidos mesurquimatosos. Recordo que, no embrião, estas células estão presentes em vários órgãos, como fígado, rim, encéfalo, pele, e só com o crescimento do embrião se vão acantonar na medula óssea beneficiando da protecção do osso face às radiações ionizantes; mas já se sabia que, em casos de lesão do tecido medular a hematopoiese reaparece no fígado e nos plexos coroideus cerebrais.

Os estudos clínicos no enfarto do miocárdio sucedem-se a um ritmo impressionante. Philipe Menache do Hospital Bichat de Paris apresentou nos Estados Unidos, na 73ª Reunião Anual da Associação América de Cardiologia, a primeira experiência clínica de transplantação autóloga de mioblastos (Lancet 357; 279-80, 2001). Experiências semelhantes com células progenitoras unicelulares da própria pessoa, logo, sem problemas de rejeição, estão a ser efectuadas por vários grupos de investigadores na Holanda, Alemanha, Itália, Argentina e, claro está, na América do Norte.
Em 2002 consegue-se pela primeira vez, in vivo transformar células matrizes humanas do sangue periférico em células de fígado, de pele e de intestino (NEJM 346; 738, 2002).

Catherine Verfaillie, Directora do Instituto de investigação com células matrizes da Universidade de Minnesota e talvez a maior especialista mundial em células matrizes obtidas no adulto, provou que as células matrizes mesenquimatosas da medula óssea comportavam-se de forma semelhante às de origem embrionária, proliferando indefinidamente, em meio de cultura, sem se alterarem e podiam depois ser diferenciadas em células dos três folhetos embrionários, ectoderme, mesoderme, endoderme.
Já no final de 2002 o Prof. Vescovi provou que as células progenitoras do sistema nervoso central são precursoras multipotenciais que crescem e se renovam a si próprias em cultura, em resposta a vários estímulos epigenéticos e dão origem a células nervosas e de outros tecidos, funcionalmente activas e com a característica muito positiva de não darem nunca linhas celulares tumorais como acontece, por vezes, com as células matrizes de origem embrionária.
O argumento de que estas células matrizes do adulto adquiriam plasticidade por fusão com células do próprio tecido foi destruído por Scott e seu grupo, da Universidade da Florida (Lancet, 359; 1, 2002) com um elegante desenho experimental que permitiu excluir a hibridação de forma segura.

Também no NEJM (346; 5, 2002) em oito homens que receberam por transplante corações de mulheres, pôde comprovar-se ao fim de algum tempo a presença de células no endotélio das arteríolas coronárias com cromossoma y, portanto do receptor; e também células matrizes e células indiferenciados do receptor no coração feminino.
Investigadores da Universidade de Kansas lembraram-se de usar células mesuquimatosas da geleia de Warton do cordão umbilical e conseguiram que se transformassem em células nervosas que poderão ser utilizadas no tratamento de doenças neurológicas degenerativas como Parkinson e também nas lesões medulares resultantes de traumatismos vértebro – medulares.
A possibilidade de células matrizes da medula óssea migrarem para o tecido cerebral ficou provada com os trabalhos de Eva Mezey do National Institute of Health dos Estados Unidos. Autopsiando doentes leucémicos, do sexo feminino, que tinham sido transplantados com medula óssea de um dador masculino, encontraram 7 em cada 10.000 células cerebrais com origem no dador masculino de medula óssea, com o cromossoma y.
Não conheço trabalhos portugueses, em clínica, com o uso de células matrizes obtidas no adulto.

Mas aqui ao lado, na vizinha Espanha, por exemplo na clínica Universitária de Navarra, decorre um projecto de investigação, em cooperação com mais cinco hospitais espanhóis, no qual são transplantadas células matriciais musculares do próprio doente nas áreas de enfarto do músculo cardíaco. E um outro grupo, agora da Universidade de Valladolid tem realizado ensaios clínicos injectando no sistema coronário, logo após o enfarto, células matriciais da medula óssea porque se verificou que após o enfarte agudo o próprio tecido cardíaco lesado estimula a produção de substâncias que estimulam o crescimento celular que facilitam o desenvolvimento das células matriciais transplantadas.
Artigos publicados na Circulation em 2002 e no Lancet em 2003 referem não a perfusão das células matrizes da medula óssea no sistema coronário mas a injecção directa destas células nas margens da zona necrosada.
O número de doentes tratados com estas novas técnicas é ainda pequeno e o tempo decorrido curto para tirar conclusões seguras. Mas as metodologias estão bem estabelecidas e são razoavelmente seguras para que o seu uso possa ser generalizado.

Em conclusão.
4 -
O relatório da Europeau Science Foundation dizia, na última das suas recomendações, que os avanços científicos são tão rápidos que regulamentações e leis devem estar em contínua revisão. E prometiam actualizar regularmente o relatório para que reflectisse as mudanças cientificas e regulamentares no futuro, avaliadas pelos Peritos.
Fui ontem a
www.esf.org e não encontrei nada de novo. Datado de Agosto de 2002, o texto publicado é exactamente igual ao de Junho de 2001.
Mas não tenho dúvidas que os sete peritos, quando acabarem de ler as centenas de trabalhos publicados em 2001, 2002, 2003, sobre as extraordinárias capacidades das células matrizes e das células progenitoras humanas, obtidas do sangue e da geleia do cordão umbilical, e do sangue e da medula óssea de adultos, irão aceitar e propor esta conclusão:
Deve financiar-se prioritariamente a investigação com células estaminais (ou matrizes) humanas, de adultos, porque são tão boas, ou melhores, que as do embrião humano ou do corpo embrióide resultante de transferência nuclear não levantam problemas éticos e, o que é importante, a sua colheita é muito mais barata.

Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, 2 de Março de 2004



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