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Possível (ou não) “relação médico-doente” no actual SNS

Colocam-me uma difícil questão. Para lhe responder tenho de analisar os seus pressupostos e os seus contornos. Vamos por partes.
O Serviço Nacional de Saúde é uma organização complexa e plural onde tudo pode acontecer: o bom, o muito bom, o mau e o muito mau. Nele se praticam, diariamente, milhões do que agora se chama actos médicos, designação que não é da minha simpatia: melhor será falar de encontro médico porque é de um encontro que se trata. Entre pessoas iguais, em direitos e em deveres, que vão procurar estabelecer entre si um laço de amizade interpessoal.

A vossa questão, se bem a compreendi, poderá enunciar-se, de forma discursiva, do seguinte modo: será que, nos diferentes estabelecimentos que compõem o actual Serviço Nacional de Saúde, geral, universal e tendencialmente gratuito, é possível que o atendimento médico às pessoas que se consideram doentes aconteça num padrão relacional que dê satisfação ética – e também científica e técnica – à pessoa do médico e à pessoa do doente?
Começarei por analisar a estrutura e o modo de funcionamento do Serviço Nacional de Saúde na vertente dos cuidados primários de ambulatório e depois na vertente do atendimento hospitalar.

Quando o Serviço Nacional de Saúde foi criado, pela Lei Arnaut (Lei 56/79) o que, de facto, sucedeu foi a apropriação, pelo Estado, de uma rede de prestações ambulatórias que dependia da Federação das Caixas de Previdência através dos chamados Serviços Médico-Sociais.
Para muitos que me ouvem hoje esta informação não faz qualquer sentido, porque nasceram e cresceram já com um SNS instalado; mas não é possível entender as características actuais, em tantos aspectos muito negativas, sem recordar a sua origem e os constrangimentos do seu crescimento, no tempo.
A estrutura existente nacionalizada de um dia para o outro, era conhecida, pelos que dela podiam beneficiar, que eram só os trabalhadores por conta de outrem, que para ela descontavam, juntamente com os empregadores, era conhecida, dizia, por Caixa. Ir ao médico era ir à Caixa ou ir ao médico da Caixa, porque “tenho os meus direitos” diziam. De facto as primeiras consultas médicas gratuitas, vistas como um direito pessoal pelos trabalhadores, foram criadas pela Caixa de Previdência de cada sector laboral, sendo uma das primeiras a Caixa de Previdência da Indústria Têxtil, no Norte, na época muito rentável. Tratava-se, então, de simples consultórios de medicina geral, que pouco mais faziam que regularizar as faltas ao trabalho dando baixas por doença e tratando as doenças simples como as gripes no Inverno e as diarreias no verão.

Eram estruturas burocratizadas, com um grande peso administrativo para controlar os direitos dos utilizadores, escrutinando a situação laboral e a correcção dos descontos feitos pelo trabalhador antes de autorizarem a consulta ao médico, a qual era efectuada, em regra, em instalações da própria Caixa.
A acompanhar a crescente eficácia dos cuidados médicos e o consequente aumento da procura, estes serviços foram crescendo sempre, crescendo igualmente o controle administrativo e financeiro que saiu das mãos dos responsáveis pelas Caixas dos sectores profissionais, para o nível distrital, depois regional e finalmente central. Assim, à data da criação do SNS existia uma estrutura de cuidados médicos fortemente burocratizada e totalmente centralizada e dependente do Governo, por intermédio do Ministério das Corporações.

Recolhida e capitalizava os descontos dos trabalhadores e das empresas e assegurava as reformas e os cuidados de saúde aos trabalhadores. Era fortemente criticada pelos utilizadores que entravam em conflito com os médicos quando estes não lhes davam as baixas pretendidas, para as suas conveniências, e eram criticados pelos médicos que reclamavam das condições de trabalho, que eram más, e da postura de alguns utilizadores, designados pelo sistema por “beneficiários”, que tratavam os médicos como se estes fossem seus empregados aos quais pagavam para terem o “direito” à consulta.
Chamou-se, na altura, a esta forma de exercer medicina, “caixificação”. E ainda hoje, quando a prática médica é enredada por um processo burocrático e administrativo que limita a liberdade do médico e a sua autonomia técnica e científica, vejo ser usada esta expressão: estão a “caixificar” o trabalho médico.
Foi esta estrutura complexa, burocratizada e ineficiente que o Serviço Nacional de Saúde absorveu com a Lei nº 48/90, de 24 de Agosto, agravando a situação por conceder o acesso geral, ou seja, aberto a todo e qualquer cidadão, independentemente da sua situação económica e da sua contribuição financeira para a sustentação dos serviços. Diria para ser mais claro que de um dia para o outro, todos passamos a ser “beneficiários” de cuidados de saúde sem os pagar, nem no momento do uso, nem por descontos para as Caixas.

Claro que isto seria um milagre do rei Midas, o tal que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava, tanto mais que as nacionalizações, brutais e insensatas, que se seguiram ao golpe de 11 de Março de 1975 fizeram desaparecer quase totalmente o capital da Federação das Caixas de Previdência que estava investido, em grande parte em acções de empresas, como as hidroeléctricas, que, de um dia para o outro, passaram a valer zero em termos de cotação.
A solução foi retirar todas as despesas com os cuidados de saúde dos Serviços Sociais e passá-las para o Orçamento Geral do Estado, alimentado com os impostos, directos e indirectos, daqueles que os pagam.

Desde essa altura e até ao momento actual os descontos dos trabalhadores e das empresas são, exclusivamente, para o pagamento das reformas e de alguns benefícios sociais. O pagamento dos elevados custos dos cuidados de saúde sai todo dos impostos directos e indirectos, por meio do orçamento atribuído ao Ministério da Saúde. A Segurança Social não tem nenhuma responsabilidade financeira nos custos dos cuidados de saúde; não há nenhuns descontos, nem dos trabalhadores nem dos empregadores para pagar despesas com cuidados de saúde.
O actual Serviço Nacional de Saúde é uma rede tentacular de cuidados ambulatórios e hospitalares, que cobre o País, na qual trabalham funcionários de diversas categorias, além de médicos e enfermeiros, gerida, de facto, pelo Ministro da Saúde que detém o poder de nomear e admitir os administradores regionais de saúde e os responsáveis pelos Centros de Saúde e pelos Hospitais, seja qual for o modelo de gestão que o Ministro tenha decidido atribuir-lhes.
Para toda esta actividade o Ministério tem um orçamento que cresce todos os anos – em 2004 é de 16.630.304.378 – e nunca chega para cobrir as despesas (em 2004 o défice parece continuar elevado). O Presidente do Conselho de Administração de um Hospital SA, em início de funções e mesmo que nunca tenha trabalhado na área da saúde recebe um ordenado e outros pagamentos muito elevado; um médico, Director de Serviço, com trinta ou mais anos de profissão como Especialista, reconhecido pelos seus pares no País e no Estrangeiro como de elevada competência, recebe bastante menos de metade. Ora, não há qualquer comparação entre a qualidade ética e a responsabilidade técnica das decisões de um e de outro porque a vida humana não tem preço e tem um valor infinito, desde o embrião até à morte natural.

Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca como proclamou Shakespeare, no Hamlet, por questões bem menos menores que as desta turbulência e injustiça financeiras.
O que se passou então após a criação do Serviço Nacional de Saúde.
Os Postos das Caixas que eram os lugares de consulta dos médicos contratados pelos Serviços Médico-Sociais foram transformados em Centros de Saúde nos quais se passou a praticar a actividade médica e de enfermagem que haveria de incluir saúde pública, medicina preventiva, educação para a saúde e medicina curativa no âmbito de um modelo bio-psico-social do adoecer humano.
Poucos, se é que alguns, dos médicos das Caixas estavam preparados para esta actividade que depois se haveria de chamar Medicina Geral e Familiar e convertida numa especialidade.

Daqui que, nos primeiros anos, os médicos das Caixas, transformados em médicos dos Centros de Saúde; continuaram a fazer o que sempre tinham feito: as baixas, algumas raras visitas domiciliárias e o tratamento de doenças de pouca gravidade. Tudo o mais era encaminhado para os Hospitais, todos nacionalizados à revelia da vontade dos seus proprietários legítimos, quase todos Misericórdias ou Irmandades. O SNS tornou-se, assim, hospitalo-cêntrico, tendo passado para a população a mensagem de que no Hospital é que havia os meios necessários para se tratar das doenças. Deste modo, os médicos dos Centros de Saúde, que já no tempo das Caixas não gozavam de grande prestígio junto das populações, nem junto dos seus Colegas dos Hospitais, deve dizer-se, atingiram o ponto mais baixo o que desmotivou os recém-licenciados a seguirem uma preparação adequada à prática de Medicina Geral e Familiar.
A Ordem dos Médicos, pelo Colégio de Especialidade de Medicina Geral e Familiar, a Associação Portuguesa de Clínica Geral e a Direcção dos Internatos iniciaram medidas de formação para que a Clínica Geral e Familiar fosse dignificada, tivesse uma Carreira e merecesse, progressivamente, a confiança dos que a procuram sem ser apenas para obterem baixa ou para que o médico transcreva para os impressos próprios o receituário passado por médicos, ás vezes os mesmos (!), consultados como médicos de clínica privada nos seus consultórios.

Que medicina pode ser hoje praticada neste vasto ambulatório distribuído por todo o território nacional? Vou responder agora.
Durante os anos de preparação da proposta de reforma estrutural da Saúde que o Conselho de Reflexão sobre a Saúde, a que presidi, elaborou, tive a oportunidade de visitar Centros de Saúde nas grandes cidades, no Nordeste Transmontano, no Alto Douro, no Ribatejo e no Alentejo, falar com os médicos e entrevistar utentes. Eu próprio me apresentei, tão anónimo quanto possível, num Centro de Saúde do Porto, onde me mandaram ir às vagas porque nenhum médico me podia receber na sua lista.
Encontrei de tudo.

Centros de Saúde a funcionarem em prédios de andares com consultórios no 3º andar, sem elevador; consultórios acanhados onde mal cabia a secretária pequena do médico e a marquesa, em pré-fabricados sem condições térmicas, nem no verão nem no Inverno; salas de espera apinhadas onde os doentes eram chamados aos gritos pelo seu nome; pessoas sentadas à porta do Centro antes do sol nascer para conseguirem uma consulta e não perderem o dia de trabalho e o médico afinal não vinha porque meteu baixa nesse dia.
Encontrei também Centros de Saúde construídos de novo mas, em regra, na periferia das povoações, vilas ou pequenas cidades, bem equipados, com dois ou três quartos para internamentos de curta duração, um ou outro com electrocardiógrafo e até com condições para análises simples de sangue e urina, mas as extensões mais periféricas continuavam mal instaladas e de difícil acesso.

Encontrei médicos apaixonados pelo seu trabalho, dedicados e cumpridores, resolvendo com sabedoria a questão das marcações de consultas segundo os ritmos de trabalho dos doentes da sua lista, disponíveis para a visita domiciliária e o acolhimento da família, como um tudo, hábeis no discernimento do que é doença orgânica, com lesão, e do que é resultante de uma vida dura, sacrificada e sem horizontes. Que transmitem regras simples de educação para a saúde no meio rural, que previnem o alcoolismo, vacinam crianças e adultos, controlam a hipertensão e a diabetes dos obesos e se interessam pelas pessoas que enviam para os hospitais com doença oncológica, ou outras situações graves e muitas vezes mortais.

Também encontrei médicos burocratas. Cumpridores zelosos de quantos regulamentos, circulares, ordens de serviço, portarias e despachos, os Ministros da Saúde têm produzido ao longo destes anos – uma recente compilação de textos legislativos na Saúde deu para dois livros, no total de 1700 páginas – esquecem muitas vezes que o doente é uma pessoa que sofre, não é um utente abstracto contabilizado nas estatísticas de produtividade, para gáudio dos dirigentes de secretária.
Encontrei ainda médicos e principalmente médicas em estado de fadiga extrema (burned out) porque não há médicos suficientes para atender os utentes inscritos no Centro de Saúde mas sem vaga nas saturadas listas de cada médico, porque têm de fazer horas extraordinárias para atenderem doentes que não conhecem – o que é a negação da teoria da Clínica Geral e Familiar – nem vão acompanhar depois, porque se sentem frustrados com as naturais queixas dos doentes com os quais não conseguem estabelecer uma relação de confiança mútua, de respeito e até de amizade, que são os pilares fundamentais da Clínica Geral e Familiar.

Finalmente detectei uma queixa generalizada.
Quando enviam os “seus” doentes para os Hospitais recebem-nos, semanas ou meses depois, sem uma informação escrita, completa e rigorosa, que permita ao Clínico Geral, continuar a atender e tratar tais doentes com a necessária segurança. O resultado é que estes doentes vão engrossar, de modo absurdo, as consultas externas do hospital onde foram tratados e no qual passam a circular de especialidade para especialidade, durante anos e anos.
Muito mais podia dizer-vos sobre as condições gerais de trabalho no ambulatório do Serviço Nacional de Saúde para justificar a minha afirmação: a Medicina não é uma actividade humana burocratizável; o modelo dos Centros de Saúde, como estruturas administrativas, com chefias técnicas e burocráticas e médicos assalariados à hora, é o pior modelo para que, entre a pessoa doente e o médico que a atende, haja uma relação médico-doente com a dignidade ética e a qualidade científica e técnica que este encontro clínico deve ter.
O Clínico Geral não pode exercer a sua actividade como Médico de Família a partir de encontros fortuitos e rápidos, em lugares desconfortáveis e, muitas vezes, sem privacidade, recebendo pessoas que esperaram duas ou mais horas e vão ser despachadas em dez minutos.

É claro que há excepções. Mas se o médico, por assumido dever profissional, prolonga as consultas pelo tempo necessário a que o encontro clínico lhe dê satisfação pessoal e profissional, é advertido de que ficará sem apoio administrativo e de enfermagem, a partir do final do horário destes profissionais.
Mas o certo é que, mais do que em qualquer outra Especialidade, o Clínico Geral como o Internista, têm de assumir-se como médicos assistentes devendo poder dizer, com exactidão, o “meu” doente e este sempre se lhe referindo como o “meu” médico e não, impessoalmente, o médico.

A figura do médico assistente tem de ser reabilitada e, na vida moderna, apressada e complexa, mas onde nem tudo é mau, há condições para recriar esta figura do médico assistente confiável e prestigiado.
Refiro-me, obviamente, às modernas tecnologias de informação em rede, associadas aos modernos sistemas de acesso sem fios.
O primeiro passo tem de ser dado na formação pré-graduada. O uso intensivo de tecnologias de informação permite preparar um médico com real capacidade para aprender ao longo de toda a sua vida profissional; e permite centrar a aprendizagem nas doenças e nos grandes sindromas que nunca são, apenas, lesões de um tecido ou um órgão, artificialmente isolado do conjunto articulado que é um corpo humano e uma mente humana.

Como tenho dito muitas vezes ninguém pode ter uma cirrose alcoólica se não for um consumidor excessivo e prolongado de bebidas com álcool. Portanto a doença principal não está no fígado mas na pessoa total que se transformou num dependente de álcool. Esta situação é, quase sempre complexa, com aspectos genéticos, psicológicos e sociais e são estes que têm de ser tratados, com toda a argúcia e competência do médico de família porque o Especialista de hepatologia vai limitar-se a dizer-lhe que tem de deixar de beber em excesso.
Dispomos hoje de condições de acesso informático a programas de ensino e informação por meio dos quais um Clínico Geral, com boa preparação de base e os meios técnicos adequados pode estudar, com todo o rigor, os significados dos sintomas e sinais físicos do seu doente, navegar por uma árvore de diagnósticos prováveis e receber a orientação para chegar ao diagnóstico mais provável, saber como confirmá-lo, interpretar os resultados analíticos e dos meios de imagem e também de anatomia patológica, formular um prognóstico, seleccionar um tratamento, médico ou cirúrgico, e acompanhar o doente nos seus tempos finais com cuidados paliativos adequados.

Tudo isto sem sobrecarregar a memória pessoal com pormenores inúteis e sem correr o risco de tomar decisões erradas não baseadas em provas bastantes.
Um síndromo ictérico, por exemplo, pode estar diagnosticado, com toda a segurança, em pouco mais de 48 horas, dada a facilidade de obter e receber resultados analíticos, ecográficos e de TAC no computador do Clínico Geral como médico assistente, que vai decidir a terapêutica, podendo ouvir, em tempo real, a opinião de um especialista, em Portugal ou no estrangeiro, em casos particularmente graves como a necrose aguda por ingestão de Amanita phalloides.
O mesmo direi das cefaleias, das insuficiências respiratórias e renais, dos quadros abdominais agudos, de parte significativa da patologia pediátrica, ginecológica e obstétrica, etc..

O Clínico Geral, como Médico Assistente, deve ser preparado na Faculdade e no Internato para exercer o raciocínio clínico a partir da informação que obtém do doente – história clínica muito detalhada e exame físico completado com ecografia – e de toda a informação que vai buscar, não a sua memória ou aos livros, mas a programas informáticos de grande nível científico, preparados pelos melhores especialistas nos países tecnicamente mais desenvolvidos e onde se pratica uma medicina já integrada no que foi designado, pelos peritos da Andersen Consulting, já em 1996, como o “Infocosmos da Saúde”.

Num País pequeno, como Portugal, será possível, colocar em rede todos os Clínicos Gerais e alimentá-los com informações seguras, periodicamente actualizadas, sobre as regras de actuação nas situações mais comuns, para começar. Esta intranet, diria, profissional, estará conectada com a intranet pedagógica das Faculdades de Medicina, em uso, por exemplo, Escola Médica da Universidade do Minho, para todo o ensino básico, de modo a que o Clínico Geral pode voltar a receber o ensinamento que lhe foi ministrado durante o seu período escolar e utilizá-lo para o seu raciocínio clínico face ao doente que tem na sua frente.

Este encontro clínico com apoio informático, no qual a pessoa doente está sempre presente e é associada, desde o início, ao processo de diagnóstico, é a forma moderna de uma relação médico-doente pessoal, humanizada e respeitadora da autonomia do doente, como pessoa livre e sujeito de todos os direitos humanos; respeitadora, igualmente, da autonomia do médico, da sua competência específica e da sua vontade de fazer, pelo “seu” doente, o que de melhor possa ser feito para o tratar, para o curar quando possível e para o consolar, sempre.

Depois de muito reflectir, durante vários anos, sobre as condições de atendimento no ambulatório do Serviço Nacional de Saúde, convenci-me que, para que nele aconteçam autênticas relações médico-pessoa doente, não servirão de nada melhorias pontuais nas instalações, construção de Centros de Saúde de 3ª geração, contratação de Clínicos Gerais espanhóis, de países da América Espanhola e do Brasil, ucranianos ou georgianos, nem mesmo a alteração do sistema remuneratório que é complicada e ineficaz.
O que é necessário é refundar o Serviço Nacional de Saúde. Como pode ser refundada esta pesadíssima máquina?
A refundação terá 4 metas bem definidas que impõem decisões rápidas e corajosas.

Primeira – Será totalmente informatizado reduzindo-se drasticamente toda a burocracia e eliminando todos os registos em papel.
A decisão, imediata, é a de abrir um concurso internacional para preparar o caderno de encargos para o futuro concurso, igualmente internacional, de informatização global do Serviço incluindo o processo clínico e de enfermagem.

Segunda – As Faculdades de Medicina alteram os seus métodos e os seus programas e preparam, em cinco anos, um médico capacitado para exercer Clínica Geral em estruturas informatizadas.
A decisão caberá às Faculdades públicas e nenhuma Faculdade privada será autorizada se não adoptar esta forma de ensino/aprendizagem por tecnologias de informação.

Terceira – O Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar toma a seu cargo construir os conteúdos da intranet de Clínica Geral e mantê-los actualizados periodicamente.
Decisão – O Colégio vai adoptar, e adaptar para o nosso País, um dos campos de conteúdos já existentes, por exemplo o finlandês, especificamente para Clínica Geral.

Quarta – O Clínico Geral – Médico de Família tem liberdade de estabelecimento do seu consultório, isolado ou em grupos, assume a responsabilidade por uma lista de 2.000 pessoas que têm direito de acesso em condições sujeitas a contrato individual, público e transparente com garantias mútuas, podendo incluir o atendimento 24 horas sobre 24 horas, contrato outorgado ao nível autárquico com os profissionais.

Decisão – O Estado disponibiliza para aluguer, pelos médicos, os espaços que ficarem livres nos Centros de Saúde depois de criar neles actividades da moderna saúde pública, com médicos e enfermeiros especializados, com actividades de prevenção primária e secundária e de educação para a saúde, de carácter interventivo, nas Escolas e na Comunidade.
Priorizar estas quatro metas exige coragem política e muita competência mas sem refundar, o Serviço Nacional de Saúde, na sua vertente de ambulatório reforçando-o, desconcentrando-o, libertando-o de um espartilho burocrático pouco mais que inútil e entregando-o à iniciativa e responsabilidade dos médicos, nada do que se fizer na vertente hospitalar terá sucesso.

O eixo maior do Serviço Nacional de Saúde é o atendimento no ambulatório que tem de ser, de facto, geral, universal e gratuito no momento do uso. Os prestadores, Clínicos Gerais, não serão mais funcionários públicos, mas profissionais liberais, contratados ao nível autárquico, com cláusulas e valores que serão anualmente negociados por uma Associação com competência sindical desconcentrada. Sem entrar em pormenores direi que o custo do trabalho médico será, naturalmente, mais elevado nas zonas mais desfavorecidas, hoje praticamente sem médicos nem enfermeiros porque os concursos abertos não têm quem concorra às vagas. Calcula-se que cerca de dois milhões de portugueses não têm acesso a um Clínico Geral/Médico de Família e só lhes resta com grande sacrifício pessoal procurar os serviços de urgência dos Hospitais.

Esta proposta de refundação do ambulatório do Serviço Nacional de Saúde foi apresentada pelo Conselho de Reflexão para a Saúde no documento final apresentado em 1998 mas nenhum dos Ministros da Saúde dos Governos Socialistas ou da actual coligação teve a lucidez, a coragem e a competência de a discutir publicamente com os  interessados, que somos todos nós, e com os profissionais  de saúde envolvidos, no âmbito de um Conselho Nacional de Saúde, despolitizado e essencialmente técnico, competente e responsável.
O horizonte temporal desta refundação não se compagina com os ciclos eleitorais e por isso não avança enquanto o cuidado de saúde dos portugueses, que é um direito civilizacional como tantas vezes tenho afirmado, for usado como arma de arremesso nas campanhas eleitorais e objecto de uma demagogia irresponsável.

O cuidado de saúde aos portugueses não se resume todo nas listas de espera para pequenas cirurgias.
Intencionalmente não vos falei da relação médico-pessoa doente na prática hospitalar.
O Hospital é um outro universo, fortemente marcado pela alta tecnologia na terapêutica médica e cirúrgica e onde os critérios de eficiência e muita eficácia têm de ser respeitados.
A Medicina Hospitalar portuguesa é, em geral, de excelente qualidade técnica e científica no diagnóstico e tratamento das doenças agudas, as únicas que devem ser atendidas nos Hospitais. As doenças oncológicas, por exemplo, são diagnosticadas e tratadas em Portugal, tantos nos Institutos de Oncologia como nos Hospitais Centrais e em quase todos os Hospitais Distritais com a mesma eficiência e a mesma eficácia de qualquer hospital europeu e melhor que em muitos hospitais dos Estados Unidos.

Alguns hospitais são prejudicados pelo excessivo número de doentes crónicos, de medicina e neurologia principalmente, e, nomeadamente na área oncológica, pela carência de unidades de cuidados paliativos, hospitalares ou domiciliários.
No Hospital, o doente é visto por vários médicos e outros técnicos de saúde, sucessivamente, até à confirmação do diagnóstico e às intervenções terapêuticas, pelo que não pode falar-se de relação médico-doente mas de múltiplos encontros nalguns dos quais o médico nem sequer vê o doente e apenas trabalha sobre imagens, tecidos ou órgãos, resultados analíticos, culturas de agentes patogénicos, etc.
No Hospital moderno, a circulação rápida pela rede informática interna de todas as informações sobre o doente leva muitas vezes as consultas de grupo a tomarem decisões terapêuticas sobre um doente com o qual apenas um dos médicos contactou. As Unidades de Cuidados Intensivos são um bom exemplo destes procedimentos.

O ideal, para que durante o internamento hospitalar persista uma boa relação médico-pessoa doente, é que o Médico Assistente, ou seja, o Clínico Geral/Médico de Família que primeiro examinou e estudou o doente e decidiu promover o seu internamento no Hospital, seja informado, por via informática, para o seu computador, do qual saiu, para a rede informática hospitalar, o essencial da história clínica e a justificação do internamento hospitalar, de toda a evolução que o “seu” doente vai tendo no Hospital. E que o Médico Assistente tenha o pleno direito e o dever de visitar o “seu” doente e dialogar com os seus médicos, durante o período de internamento. Esta é a solução ideal e será possível e fácil num ambiente informatizado.

Tenho para mim que no caso da medicina hospitalar, o importante é que o doente estabeleça uma relação personalizada com a instituição, tendo gosto em dizer: fui tratado nos HUC ou em Santa Maria, podendo, numa ou noutra vez, referir o nome do médico com o qual teve contactos mais demorados durante o seu período de internamento. Mas a relação deverá ser, de facto, com a instituição, pelo que cabe a esta humanizar o acolhimento.
O tempo, num hospital bem gerido, é um bem precioso que ninguém pode desperdiçar com actividades não directamente relacionadas com o serviço aos doentes. As estruturas de humanização de que vos falou o Prof. Walter Osswald, deverão encarregar-se de tornar menos penosa uma estadia sempre marcada pela consciência de perda da convivência familiar, social e profissional e, muitas vezes, por grande dor e sofrimento.

Vistos assim, sucintamente, os contornos e pressupostos da vossa pergunta e esboçada a resposta possível, resta-me uma afirmação final que proponho à vossa reflexão.
A relação médico-pessoa doente é muito influenciada, como procurei demonstrar, por condições, direi logísticas e formais, nas quais decorre o encontro clínico: espaços físicos, organização, direitos e deveres mútuos de médicos e doentes, entre outras.
Mas por cima de todos estes aspectos formais do encontro clínico paira a pessoa do próprio médico.
O médico não pode ser uma pessoa medíocre, com dificuldade de comunicação com a pessoa doente, incapaz de estabelecer com ela uma relação de empatia profunda que deve brotar, naturalmente, da sua personalidade e do seu carácter.

Para merecer e receber a confiança da pessoa doente no quadro de uma relação que deve ser de amizade, não basta ao médico ser tecnicamente competente, como tem de ser. Ao lado da competência científica e profissional e ao serviço dela, devem estar virtudes humanas como a simpatia, a honestidade, a disponibilidade, a prudência e a coragem nas decisões, o desinteresse de valores materiais, o optimismo moderado e a compaixão. Uma compaixão afectuosa, delicada, respeitadora dos valores espirituais da pessoa doente que a ele se entregou.
Só um médico perfeito e virtuoso é garante de uma relação médico-pessoa doente que seja uma relação perfeita e virtuosa. No Serviço Nacional de Saúde é difícil, mas não é, nunca, impossível. 
 
Daniel Serrão
Lisboa, Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas, 6 de Outubro de 2004


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