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1. A Bioética é apresentada ao mundo cultural, em 1970, por van Rensselaer Potter, como a ciência da sobrevivência.
No pensamento deste cancerólogo americano, que foi quem inventou a palavra bioética, a humanidade corre um risco real de extinção em massa mas a nova ciência, a bioética, poderá salvá-la. No ano seguinte publicou um livro no qual desenvolve a sua concepção afirmando que bioética é a ponte que nos permite passar do presente ameaçado para um futuro feliz.
Potter é, claramente, o criador de uma grande utopia para o Século XXI.
Como se constrói esta utopia?

Para Potter é cada vez mais completo e profundo o conhecimento científico sobre a estrutura biológica dos seres humanos: a morfologia ultraestrutural, a bioquímica, a biologia molecular e a genética têm permitido conhecer até aos meus ínfimos detalhes a “máquina” do corpo humano. O bios humano aparece, contudo, como um sistema aberto e vulnerável que pode ser objecto de intervenções que o podem melhorar ou que podem destrui-lo.

Por outro lado, desde Aristóteles e Platão, que o pensamento humano não tem cessado de alargar e aprofundar os conhecimentos sobre o que é o homem em si próprio, enquanto portador da capacidade de reflectir sobre o mundo e de o simbolizar na auto-consciência (espírito, alma) e em objectos culturais exteriores. O desenvolvimento deste conhecimento conduziu a diferentes propostas de antropologia filosófica ao longo dos séculos; nos tempos modernos Bergson, Sartre, Heidegger, Lévinas, entre muitos outros, pensaram o homem e a sua especial natureza e propuseram as suas interpretações. A Sociologia propõe conceitos abrangentes sobre o homem como um ser social, a Psicologia analisa e explica os comportamentos humanos. Todas estas ciências do homem como ser espiritual, constroem um ethos humano. Para van Potter, porém, há risco de destruição a partir de ethos que sejam auto-destruidores, negativistas ou nihilistas, reduzindo o homem a um nada que espera a morte corporal (ou a provoca), para acabar definitivamente.

O perigo, para Potter, está no mútuo desconhecimento destes dois grupos de ciências – as do corpo e as do espírito – que se ocupam em criar conhecimentos sobre os seres humanos. Este dualismo, originado em Descartes, mas que devia ser apenas metodológico, transformou-se em rotura substantiva entre os dois saberes e ameaça a sobrevivência dos seres humanos como unidades substanciais de corpo e espírito.
Então, a proposta de Potter é a da criação de uma nova disciplina científica rigorosa – a bioética – que deveria, e cito, “ preencher o hiato entre as ciências e as humanidades usando especialmente a biologia e os valores humanos para criar uma ciência da sobrevivência”. Em 1975, na Alocução Presidencial à reunião plenária da American Association for Cancer Research, Potter afirma: “para ser mais específico direi que a bioética deverá constituir-se como uma aproximação cibernética à permanente procura da humanidade para atingir a sabedoria, que eu defino como o conhecimento da forma de usar todos os conhecimentos para a sobrevivência humana individual e para a melhoria da condição humana”. Por aproximação cibernética, Potter quer significar que os conhecimentos sobre o bios e o ethos dos seres humanos devem ser cruzados e influenciarem-se mutuamente de modo a que dos saberes parcelares, reducionistas, surja a verdadeira sabedoria sobre o homem que será bioética. E porque há uma constante evolução dos conhecimentos biológicos e, também, uma evolução indiscutível, embora mais lenta, das culturas humanas e dos valores que as caracterizam, a bioética não é uma ciência feita mas uma disciplina científica em permanente renovação e aberta à criatividade e à reflexão de cientistas, filósofos e humanistas.

Esta proposta de van Potter não teve grande repercussão na intelectualidade americana nos anos setenta e foi prejudicada por o mesmo vocábulo, bioética, ter sido proposto na área médica como sinónimo de ética médica ou ética de cuidados de saúde; com este significado a palavra teve, e tem, um enorme sucesso e é profusamente utilizada em revistas, livros, congressos internacionais e institutos.
Van Potter não desanimou, como é próprio de quem acredita numa utopia e, em 1994, na mesma Revista que acolhera o seu trabalho original, publica um ensaio crítico à obra de Hans Küng que fala de responsabilidade global e propõe o novo conceito de Bioética Global, avançando, decididamente, no caminho da utopia.
Já em 1988, num livro dedicado à herança cultural do americano, Aldous Leopold, van Potter mostra-se apaixonado por uma visão global da Bioética.
O que é, para van Potter, a Bioética Global.

É um programa secular para a elaboração de uma moralidade que apela para decisões responsáveis em relação à vida humana (por exemplo, nos cuidados de saúde) e à preservação da vida animal e vida vegetal, em todo o ambiente natural. É uma moralidade da responsabilidade no presente e no futuro. O cuidado (care) que temos em relação às futuras gerações dos seres humanos deve ser exactamente o mesmo que temos de ter por todo o meio ambiente natural de toda a Terra, na sua globalidade.
Esta visão ampla da Bioética que se aproxima, sem exageros, das posturas políticas e económicas dos Verdes, na Europa, não atraiu simpatias nos E.U.A. onde as posturas ecológicas não têm grande aceitação por parte do que chamarei Sociedade Civil, onde a autonomia da pessoa prevalece sobre os interesses isolados dos cientistas e da sociedade politicamente organizada. O recurso ao conceito de Sociedade Civil deve ser visto, à maneira de Adam Selignam, como um conceito histórico, com valor normativo, para resolver a tensão entre individualismo e comunidade humana, entre interesses particulares e interesses universais. Ora a bioética pretende ser o conteúdo deste conceito normativo, sobre o qual se possa fundar uma sociedade civil global abrangendo todos os homens de todos os continentes sem nenhuma distinção entre eles, nomeadamente pelas diferenças culturais ou de convicções religiosas.

Esta visão de van Potter, que a defendeu até à sua morte em 2000, teve acolhimento na Europa – Brunetto Chiarelli, Professor de Antropologia na Universidade de Florença convidou van Potter para dar uma conferência em Trentino, em 1990, e obteve permissão para passar a usar, como título da Revista do International Institute for the Study of Man, “Global Bioethics”, tendo criado uma Associação Europeia de Bioética Global.

Pode afirmar-se, portanto, que a Utopia de van Potter tem seguidores num grupo de antropólogos italianos e no neurologista americano Peter Whitehouse. Em documentos do grupo de antropologistas italianos afirma-se que, trabalhando em conjunto, os antropologistas físicos e os antropologistas culturais podem mostrar como uma bioética primitiva evolui em resposta ao nicho ecológico, como meio ambiente local. Trabalhando com ecologistas podem mostrar o efeito contrário: como o ambiente mundial evolui em resposta a uma bioética global, ou à falta dela. Reconhecem que acontecimentos catastróficos que provocam a degradação do meio ambiente, põem problemas éticos que requerem conhecimentos biológicos para a sua solução e, além disto, que perturbações não corrigidas no mundo ecológico ameaçam a saúde das nações, não respeitando as fronteiras nacionais.

A Bioética Global é, para B. Chiarelli “uma nova forma de conhecimento que avança para uma aliança entre Ciências Naturais e Humanidades para encontrar uma nova espiritualidade e um novo tipo de educação. Deseja promover pontes transdisciplinares nas quais a vida e o meio ambiente e fenómenos biológicos, fisiológicos, sociais e económicos são todos interdependentes.
Recentemente (Junho de 2000) numa conferência efectuada na New York Academy of Sciences a questão de fundo da Bioética reapareceu, mas o nome de van Rensselaer Potter não foi citado por nenhum dos participantes. A Conferência intitulou-se “Unity of Knowledge. The convergence of natural and human science”. Edward O. Wilson no discurso inaugural tentou propor um método para unificar o conhecimento, a partir dos dados das disciplinas de fronteira, entre bios e ethos: neuro-ciências cognitivas, genética humana, sócio-biologia humana e antropologia biológica deverão, em conjunto, construir uma concepção adequada da natureza humana e uma unidade das ciências naturais e humanas a que chama “consilience”.

A consilience tem, na sua formulação, o mesmo conteúdo da bioética de Potter e é, igualmente, uma utopia com pretenso fundamento científico.
No Oriente também a Bioética Global tem seguidores. Um investigador neo-zelandês que se instalou e constituiu família no Japão é um profundo conhecedor da mentalidade oriental que sempre procura descobrir a unidade profunda entre o homem e o mundo natural, entre vida humana e vida animal e vegetal. Este cientista, investigador de genética geral, director de um Instituto de investigação bioética em Tsukuba Science City e Professor Afiliado na Universidade das Nações Unidas, publica uma revista Eubios Journal of Asian and International Bioethics.

Favorável a uma Bioética sempre em diálogo aberto público, Darryl Macer, aceita na sua revista contribuições bem pensadas e bem escritas, independentemente das posições do autor e aceita que outros bioeticistas escrevam artigos com argumentação contrária porque só assim, diz, a Bioética se constrói.
Mas a sua contribuição mais notável para firmar a bioética como utopia é o livro intitulado: “Bioethics is love of life. An alternative text-book”. Com um estilo comunicativo e servindo-se de exemplos e imagens Darryl Macer constrói a imensa utopia da civilização do amor, não apenas entre os seres humanos, mas dos seres humanos para com todas as formas vivas animais e vegetais.
Como ficou exposto diversas vias, umas mais científicas outras mais humanistas, convergem para um conceito de Bioética Global que é apresentada como a grande utopia para o Século XXI.

Na minha visão pessoal, muito favorável a que a bioética cresça como uma utopia até que possa, quem sabe, tornar-se realidade, escrevi um dia:
Bioética não é apenas uma palavra de fácil sucesso nos meios de comunicação social. Ou me engano muito ou a reflexão profunda, que a palavra bioética suscita nalguns dos mais brilhantes e responsáveis espíritos do nosso tempo, vai abrir o caminho para que a Bioética seja a grande e generosa utopia do Século XXI sobre a qual se irá construir uma economia global mais justa, uma ecologia mais sensata, uma política mais responsável e uma religião mais alegre – tudo contribuindo para a realização do melhor bem dos seres humanos – em paz”.

Macer, Darryl – Bioethics is love of life: An alternative text-book. Eubios Ethics Institute, 1998.
Macer, Darryl – Editorial: Bioethics dialogue in public. EJAIB, 13 (5), September, 2003.
Serrão, Daniel – Para uma fundamentação biológica da ética human. Memórias da Academia das Ciências, 29: 209-220, 1988.
Serrão, Daniel – Bioética, a aventura de uma utopia saudável – Colóquio/Ciências, 18, 1996, pg. 59-66
Unity of Knowledge. The convergence of natural and human science. A. Damásio, A. Harrington, J. Kagan, B.S. Mcewen, H. Moss & Rashid Shaikh, editors. Annals of the New York Academy of Sciences, vol 935, 2001.
Chiarelli, Brunetto – Prof. van Rensselaer Potter. In memorian Global Bioethics. 14: 2-3, September 2001.
Küng, Hans – Projet d’éthique planétaire. La paix mondiale par la paix entre les religions. Éditions du Seuil. Paris, 1991.
Potter, van Rensselaer – Bioethics, the Science of Survival. Perspectives in Biology and Medicine, 14 (1970), 127-153.
Potter, van Rensselaer – Bioethics, bridge to the future. Prentice Hall, Englehood Cliffs, New Jersey, 1971.
Potter, van Rensselaer – Global Bioethics: linking genes to ethical behaviour. Perspectives in Biology and Medicine, Autumn, 1995.
Potter, van Rensselaer – Humility with Responsibility – a Bioethics for Oncologists. Cancer Research, 35 (1975), 2297-2306.



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