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Queridas Famílias presentes nesta Assembleia da Família da Vigararia de Santo Tirso.
Abençoada Equipa Vicarial da Família.
Muito obrigado a todos pela oportunidade que me dão de vos falar sobre “A Família ao serviço da Vida”.
Os profetas da desgraça andam por aí a pregar a crise da família.
Andam por aí, nas rádios, nos jornais e na Televisão, a insinuar que a família está mal que a família já não serve para dar felicidade e bem-estar às pessoas.
Aconselham os jovens a não constituírem família porque viver sozinhos é que é bom. O que vos dizem os pais, os cotas como eles lhes chamam, é conversa fiada, não liguem.
Estou em desacordo total. Total.

A família é uma instituição biológica e cultural que não está em crise, nem estará nunca em crise, porque ela é a garantia da sobrevivência da espécie humana.
Homem e mulher, juntos pelo vínculo do amor, unem os seus corpos para gerar filhos, para os acolher logo após o nascimento, para os cuidar, para os fazer entrar na nossa cultura humana.
A Tradição Judaica, confirmada nas palavras e nos actos de Cristo, olhou para esta instituição, biológica e cultural, e achou que ela era boa e apropriada para a realização espiritual dos seres humanos dando-lhe por isso a dignidade de um sacramento, de um sinal público, e externo, o matrimónio, que exprime toda a dignidade que Deus conferiu aos homens quando os criou.
Deus não criou o homem para que ele fosse mais um animal dos muitos com os quais Iavé encheu a terra, o ar e os mares.
Deus criou os homens e as mulheres para que fossem seres dotados de afectividade e de razão, de emoções, de inteligência, de sentimentos e de ideias mentais.

Ao dar aos seres humanos as condições para que ultrapassassem, transcendessem, a sua natureza corporal, Deus abriu a todos nós, a possibilidade de nos exprimirmos e de vivermos, como unidades substanciais e substantivas de corpo e de espírito, na realização, concreta, da vida e do viver de todos os dias. Todos os dias somos corpo e somos espírito, em unidade.
O amor de homem e de mulher é uma das formas de realizarmos, na prática, esta unidade substancial de corpo e alma.
Amar é unir, simultaneamente, o corpo, pela conjugação sexual e o espírito pela integração, progressiva, de duas identidades, pessoais, de dois mundos individuais, de duas biografias, de duas histórias de vida que são passado evocável, presente vivido e futuro em permanente construção.

Unir apenas os corpos é um exercício de genitalidade que não ultrapassa o nível animal, no qual os homens podem comportar-se apenas, esquecendo ou até desprezando o nível superior dos afectos e da inteligência. Não é fazer amor.
Fazer amor é colocar, frente a frente, pessoas e não apenas corpos.
Fazer amor, realizar o amor, é unir, para sempre, dois seres humanos, que encontram nesta união a forma mais perfeita de darem e receberem prazer corporal, de darem e receberem afecto profundo, de se conhecerem, um ao outro, no mais íntimo da sua auto-consciência.
Fazer amor não é uma banalidade nem é um episódio trivial, que se esgota na relação genital entre macho e fêmea.

Fazer amor é criar, é construir, uma riquíssima relação, a dois, que todos os dias se renova, no prazer mútuo da relação corporal, por sua natureza fugaz e auto-limitado, e no prazer mútuo, permanente, que provem da conjugação dos afectos e dos sentimentos e do diálogo enamorado de duas vidas para a edificação de uma vida feliz, a dois.
Fazer amor é, também, conceber de forma responsável mas generosa, os filhos que possam ser alegria e bênção para o casal; filhos que sejam assumidos por eles próprios, pelo seu valor infinito e não para tentar resolver dificuldades no relacionamento amoroso dos pais.
Os filhos têm de ser uma emanação natural do amor dos pais, entregues à sua responsabilidade pessoal logo após a concepção, durante os meses da gravidez e depois do nascimento.

Mas a responsabilidade pelos filhos é para toda a vida. Não digamos nunca – ele ou ela é de maioridade, que se arranje; ou: agora que o meu filho ou filha casou que trate da sua vida.
Quem assim pensa e diz está a confundir responsabilidade com autoridade. Está a olhar para a família como uma estrutura de poder de uns sobre os outros.
É uma visão errada.
A família não é uma estrutura de poder.
A família é uma estrutura de serviço entre os seus membros, de mútua responsabilidade e de solidariedade.
Porque os membros da família estão ligados por um vínculo de amor, eles escutam-se uns aos outros com afecto, apoiam-se com generosidade, aconselham-se com cuidado e com preocupação.

A família alargada, com duas ou três gerações, é um espaço de convivência sem egoísmos, sem intromissões abusivas, sem tolerâncias desajustadas; é um espaço de educação mútua, de aprendizagem entre todos e de recolha do enorme benefício do diálogo atencioso entre gerações. O aumento da duração média da vida em Portugal fez aparecer uma realidade nova; a família de idosos, saudáveis e independentes, bem dispostos, competentes e disponíveis para apoiarem os membros mais jovens, em especial os netos, em tarefas simples mas que ajudam muito a criar felicidade no seio da família alargada.
A família alargada não é só a que vive sob o mesmo tecto, na mesma casa porque hoje isso é muito raro ou impossível.
A família alargada é, hoje, uma realidade virtual ou, se quisermos é uma virtualidade bem real.

 A família alargada realiza-se na comunicação, hoje muito facilitada pelo telemóvel e pela Internet. Quantas mães receberam hoje toques e mensagens dos filhos distantes, ou faxes ou correio electrónico a darem uma mensagem de amor e de louvor. Quantas filhas, já mães, se lembraram, por sua vez, das suas mães idosas para as saudarem. Muitas e muitas seguramente.
Toda esta vibrante comunicação é a realidade da família alargada; realidade moderna, mas tão forte e tão benéfica como era a velha família patriarcal. A presença física foi substituída pela presença da mensagem comunicativa que é, de facto, uma presença espiritual.
A família nuclear pode tornar-se egocêntrica, fechar-se num núcleo restrito julgando que, fechada, se defende melhor dos males que vem de fora como a sedução pelas drogas ou a malícia das experiências de genitalidades precoces e das gravidezes de adolescentes. Para não falar dos abusos sexuais sobre crianças.
É um erro, podem crer.

A família nuclear tem de estar aberta à família alargada, tem de construir uma rede de comunicação por onde circulem os problemas e as soluções, as dificuldades e os apoios, as críticas fraternais e os elogios afectuosos – porque a família alargada é, hoje, uma realidade espiritual viva que tem de ser diariamente alimentada.
Na família alargada podem surgir situações conflituais e cabe-lhe, então, promover, com todas as suas capacidades de diálogo afectuoso, promover, a reconciliação. Porque com o coração cheio de raiva, ódio ou desprezo por alguém da nossa família não podemos honrar a Deus. Cristo disse claramente: se tens ódio ao teu irmão não entres no Templo de Iavé; sai, vai procurar o teu irmão (no sentido alargado de membro da tua família), reconcilia-te com ele pelo perdão mútuo das ofensas e depois entrarás no Templo para honrar a Iavé.
É assim que a família, nuclear e alargada, presta à vida um serviço que nenhuma outra estrutura humana pode prestar.

Como estrutura monogâmica e fiel – um só homem e uma só mulher, ligados por um vínculo de amor que tem de actualizar-se todos os dias – como estrutura monogâmica e fiel ela é o único espaço adequado à geração de filhos e à sua preparação para virem a ser, por sua vez, fundadores de uma família, se Deus os não chamar, por uma misteriosa escolha, a serem consagradas para o Amor infinito que Deus tem por todas as Suas criaturas.
As mulheres e os homens, assim misteriosamente consagrados, não perdem o vínculo à sua família nuclear nem à sua família alargada, mas passam a pertencer à família constituída pelas comunidades cristãs nas quais realizam a sua vocação sacerdotal ou religiosa.

A Paróquia é uma grande família cristã, feita de famílias nucleares e alargadas, para as quais o pároco é pai, filho, irmão, avô, neto, primo, sobrinho e tio, com os quais o pároco estabelece um vínculo de afecto e de fraternidade, de serviço e respeito mútuos. Diria que o pároco a todos ama e com todos sofre, com todos ri quando casa os noivos e baptiza os filhos, com todos chora quando preside ao funeral dos que morrem.
Vou terminar.

A família nuclear não está em crise. Está pujante na sua força natural e no seu poder espiritual porque se fundamenta no amor mútuo entre os seus membros.
A família alargada, aproveitando os meios modernos de comunicação, é cada vez mais uma realidade que integra as gerações verticalmente e associa os seus membros horizontalmente. Nela se realiza o afecto, a amizade e a solidariedade, como grandes valores humanos e espirituais. Nela se pode conseguir a paz pelo perdão mútuo das ofensas e pela reconciliação. “Vede como eles se amam”, diziam espantados e invejosos os romanos quando observavam os primeiros cristãos.

As famílias cristãs organizadas na grande família paroquial concretizam o ensinamento radical de Cristo, a estrada real para a felicidade de todos e a salvação de todos – amai-vos uns aos outros como eu vos amei e vos amarei por todas as gerações.
Que grande responsabilidade a da família paroquial como instrumento privilegiado de serviço à vida humana e à vida divina que circula em nós pela força do Espírito.
Como é necessário estar atentos a cada situação em cada dia, encontrar soluções de acolhimento para os que sofrem, oportunidades de crescimento para os que perdem a esperança e manifestações visíveis de amor para fortalecer a Fé na promessa de Cristo ou como dizemos tantas vezes, para sermos dignos das promessas de Cristo.

Falar para esta grande família paroquial foi para mim, um velho militante das grandes propostas cristãs para a felicidade dos homens, uma grande consolação, que muito vos agradeço.
Porque nós, os cristãos, não somos profetas da desgraça, somos profetas da alegria. Todos vós, aqui presentes, sois profetas da alegria, da alegria de ser cristão da alegria de amarem os outros e da alegria de servirem a vida.
E como estamos reunidos em seu nome, Cristo está aqui, connosco, como nos prometeu. Presença misteriosa mas real.
Eu te saúdo, nós te saudamos, Cristo-Jesus.      
 


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