Home  > 

O Prof. Vilaça Ramos, com a cortesia que distingue os académicos de Coimbra e em nome de uma amizade com a qual me honra há muitos anos, convocou-me para esta Cerimónia Solene e, nela, para um discurso formal; mas estava bem consciente de que eu não sou nem historiador nem radiologista.
Modesto patologista provinciano, só conheço dos Raios X os seus malefícios, bem manifestados nos cancros da pele que ainda pude observar no dorso das mãos dos pioneiros da radiologia portuguesa e de alguns tisiologistas mais descuidados ao praticarem radioscopias torácicas.
A comemoração, porém, é laudatória e não crítica; refere-se aos incalculáveis benefícios para a humanidade que resultam de uma observação sagaz seguida de um desenvolvimento criterioso dessa observação.
Obedeci à sua chamada, Prof. Vilaça Ramos, porque não saberia como dizer-lhe não.
Mas fui imprudente.

Os próximos vinte e cinco minutos vão patentear a V. Exªs, minhas Senhoras e meus Senhores, o comprimento, a largura e a altura desta minha imprudência.
Não falarei de Roentgen nem da sua descoberta dos raios incógnitos ou raios X.
Farei um discurso alegórico sobre a invenção e a descoberta, guiado por Orígenes e seus discípulos da Escola de Alexandria. Tal como ele pensava no Século II, a propósito da exegese bíblica, a hermenêutica destas duas palavras, invenção e descoberta, desvenda-lhes um suporte corpóreo ou literal – a substância -, uma expressão psíquica – o afecto – e uma projecção espiritual – a transcendência.
Se assim não fosse, porque haveríamos nós de estar aqui, hoje, a 100 anos de distância, a comemorar com júbilo e gratidão uma descoberta da inteligência humana?

Invenção e Descoberta

Vamos viajar até às origens da inteligência humana, preciosa qualidade que nos singulariza no mundo animal, e seguir a sua evolução até aos tempos modernos, estes tempos de saber requintado, poderoso e eficaz. Nesta viagem encontraremos a invenção e a descoberta no seu período áureo, fascinante e radioso, quando tudo era virgem e novo.
Longa história tem a inteligência do ser humano.
Longa de certo, mas difícil de contar, porque dos seus primeiros assomos não há senão vestígios indirectos que a inteligência actual do homem moderno tem tentado interpretar, sabendo que as explicações que dá são, seguramente, enviezadas.

A criação de objectos intencionais – e só chegaram até nós os imperecíveis, na pedra, no ferro, no bronze, na prata, no ouro, no osso ou no marfim – esta criação de objectos intencionais, denota o exercício de uma função nova da inteligência humana que é a de atribuir um sentido a uma forma material resultante de uma acção directa do homem sobre a natureza. Esta relação entre a forma e sentido, ou forma e função, ou forma e utilidade, quando surge pela primeira vez, revela esse fulgor da inteligência a que chamamos invenção.
As mais antigas pedras talhadas, que podemos já considerar objectos intencionais, invenções humanas, têm 2 milhões e quinhentos mil anos, segundo as melhores contas. Esta é a idade da mais rudimentar invenção da inteligência dos hominídeos que nos precederam no tempo.

Nesse outrora, imagino eu, a invenção era livre e pessoal e era necessária; livre e pessoal, porque não havia ainda forma de comunicação das invenções de uns para os outros, tudo era inédito, não dito; e necessária, porque era uma condição de sobrevivência no ecossistema.
Os Bonobos, ou chimpazés pigmeus, Pan Paniscus, que são os antropóides mais próximos do homem e com os quais partilhamos mais de 98 por cento de nossa informação genómica, tendo divergido da mesma linha evolutiva há, apenas, oito milhões de anos, cinco milhões de anos antes que os outros chimpanzés dela tivessem divergido, os Bonobos, dizia, usam, hoje, a pedra lascada como ferramenta e desenvolvem, hoje, uma vida social que será muito semelhante à dos australopitecinos de há 2 milhões e quinhentos mil anos.
Esta invenção feliz que, com aperfeiçoamentos sucessivos, funcionou até há dez mil anos e ainda hoje é observável nos aborígenes da Austrália e da Nova Guiné, estes objectos intencionais, diversificados, aptos a cumprirem as funções necessárias à sua sobrevivência permitiram que o Homo, em algumas centenas de milhares de anos, cobrisse a Terra e, como está escrito na misteriosa narrativa judaica, a dominasse.

A invenção primordial, sendo um subtil aproveitamento da sequência experimentação-erro até a transformar na sequência experimentação-sucesso, é a origem da alegria e do sorriso que a representa, uma  e outro especificamente humanos.
Sorriu, feliz, o primeiro Homo que talhou o sílex e com ele pôde cortar a dura pele dos animais; como sorriem, felizes, as crianças de hoje que, com as mãos ainda pouco hábeis, articulam as peças de Lego para construírem um objecto que só elas podem identificar e usar. É a alegria da invenção, ou a invenção como origem da alegria.

Pois bem, sendo a alegria um “reward” positivo, como explicam os neuro-biologistas, uma compensação afectiva de sinal positivo, memorizada nos circuitos neuronais, gera-se uma tendência para a redundância. Dito de forma mais simples: inventei, tive alegria com a invenção, fiquei com memória dessa alegria e recordo-a muitas vezes; sempre que a recordo, o meu cérebro é estimulado para uma nova invenção activando os circuitos que motivam os comportamentos que podem conduzir a outra invenção.
Como diz o nosso povo, ninguém está satisfeito com o que tem, quer sempre mais e melhor.

Até aqui tudo bem; o Homo nascia no interior de uma estrutura familiar rudimentar, socializava-se por imitação e, quando já sabia tudo, partia para as suas próprias invenções, cujo sucesso lhe dava alegria e o fracasso tristeza.
Ainda sem auto-consciência, este Homo habilis vivia naturalmente feliz, integrado no mundo vegetal e animal, apenas o beliscando levemente com as suas invenções. Era o paraíso, imaginado pelo narrador bíblico, e ao qual parece quererem regressar alguns grupos ecologistas mais intransigentes. Mas, regressar ao paraíso, só pela via poética. Recordo Teixeira de Pascoaes e o estranho, complexo e sedutor poema intitulado “Regresso ao Paraíso”, tão agudamente interpretado pelo psiquiatra e pensador, de raíz Jungueana, Azevedo Fernandes.
Teixeira de Pascoaes, um grande poeta, injustamente esquecido pela crítica contemporânea, neste seu poema “Regresso ao Paraíso” imagina Adão e Eva revisitando o que fora outrora o seu lugar de felicidade:

“Depois de algumas horas de caminho
Chegaram a um Paiz êrmo, situado
Entre dois grandes rios. E a Saudade
Ali parou, então. E os dois Amantes
Reconheceram logo, surpreendidos
A paisagem do Eden feliz.
... ...

E olhavam no silêncio...
Como tudo mudara... Tudo, tudo!...
... ...

As antigas florestas virginaes
Edénicas, frondosas de Inocência,
Embriagadas de cânticos e de vôos;
Aquelas grandes arvores nascidas
Do humus recemcreado há pouco ainda,
Tinham morrido todas!...

Não vale a pena viver a desilusão de regressar a esse paraíso arcaico.
Mas este Homo, naturalmente feliz, vai, um dia, usar a sua inteligência para a invenção, a mais inesperada e imprevisível, a mais profundamente construída, a mais independente do mundo natural, a mais sedutora, a mais terrivelmente eficaz, a geradora da alegria absoluta e da tristeza mortal.
Que dia esse, exaltante dia zero da história do Homo sapiens, da nossa história, minhas Senhoras e meus Senhores.
Nesse dia zero, ante-manhã ou à luz já fugidia do crepúsculo, o neandertaliense, olhando o corpo morto de outro seu igual, inventou-se a si próprio, como abstracção do real; e da sua garganta saiu, gritado mas já modulado, um monossílabo gutural, nome próprio de todos nós, para todo o sempre. Palavra primordial, monossilábica, exclusivamente glótica que se produz sem ajuda labial, dental ou lingual, primeira representação sonora da primeira ideia abstracta inventada pela inteligência do Homo sapiens nascente: Eu, Ich, I, Yo...
Este monossílabo gututral, ao sair da glote do Homo, inaugura a capacidade de inventar, simultaneamente, uma ideia abstracta, talvez mera e fugaz emanação de um circuito neuronal privilegiado, e um som com significado que dá um corpo, uma substância, à ideia abstracta e permite a sua memorização e a sua evocação, quando for útil ou necessário.

Estava assim inventada a mais poderosa função da inteligência humana que é  função simbolizadora do real.
Rainer Maria Rilke, outro poeta, havia de dizer, muitos séculos depois desse triunfal, dia em que o homem se inventou a si próprio e se reconheceu e representou simbolicamente, figuradamente, na primeira de todas as palavras, no primeiro de todos os sons portadores de sentido, Rainer Maria Rilke havia de escrever “Wir leben Wahraft im Figuren”, nós vivemos, verdadeiramente, de coisas figuradas – ou, comento eu, da figuração das coisas; melhor ainda, na figuração das coisas.

A invenção da função simbolizadora foi a última invenção que gerou, no homem, alegria pura e natural. Quando o homem abstraiu o seu corpo da natureza animal e vegetal, e o representou, simbolicamente por uma palavra, abriu o caminho para a representação de todo o real natural, como em Chauvet ou em Foz Côa, e para a auto-consciência do eu como abstracção de mim próprio, ao mesmo tempo corpo e inteligência simbolizadora.
Acabou o paraíso; o homem já não é um objecto do mundo natural; agora tem o mundo na sua cabeça e tem-se a si próprio como objecto e como ideia consciente, à qual tudo passa a ser referido.

Depois do eu, aparece o meu e o teu, e é inventada a ideia abstracta de bem e do mal, como referência dos objectos, das coisas e das ideias ao eu pessoal.
Este novo homem que sabe que sabe, o sapiens sapiens, descobre-se figuradamente nú no interior do mundo natural e vai usar o novo conhecimento do que é para si bom ou mau, para se revestir, para cobrir a sua “pele” natural com as invenções da sua inteligência reflexiva e simbolizadora.
Acabou a pura alegria da invenção, do sucesso do gesto hábil; o homem passou a avaliar as invenções em relação a si próprio rejeitando as que julga más, aceitando e desenvolvendo as que julga boas – más e boas para si próprio, claro está.

À alegria da invenção pura sucede a angústia do julgamento, o ethos e o pathos, porque agora, expulsos do tal paraíso (ou tendo saído pelo nosso pé), do que se trata é de usar a Natureza para o nosso melhor bem, é de ser eficaz na obtenção do benefício, é de “comer pão com o suor do nosso rosto” na figuração bíblica.
A necessidade de avaliar o bem e o mal levou à invenção de uma nova ideia abstracta, a de verdade, e a uma nova função da inteligência humana que é a descoberta.

Descobrir é destapar; destapar as coisas e o ser, escondidos como estão pelas suas representações simbólicas, com as quais a inteligência opera, afinal, e encontra a verdade – a verdade das coisas e a verdade do Ser.
Descobre-se o que já existe – como o caminho marítimo para a Índia que já existia antes de Vasco da Gama por ele navegar; mas Vasco da Gama, ao encontrá-lo e percorrê-lo, tornou-o verdadeiro para o homem do seu tempo e para todo o sempre.
Foi uma descoberta com muito trabalho, muito sofrimento e muitas mortes; não sei se terá dado alguma alegria a Vasco da Gama.
Descobre-se o que já existe, para procurar a verdade.
Ouso, assim, afirmar que a verdade é o limite ético da descoberta.

Mas o que é a verdade?

Pilatos, há dois mil anos, acuado por esta pergunta, não encontrou resposta e disse aos judeus – mais metafísicos do que ele que era um romano lógico – “Lavo daí as minhas mãos, não me meto nessa questão”.
Mas nós temos de nos meter senão nunca mais saberemos o que é a verdade.
Os escolásticos, em forma latina lapidar, afirmaram: veritas est adaequatio rei et intelectus é a adequação entre as coisas e a sua inteligibilidade cognitiva.
Mas haverá, terá de haver, adequação entre as coisas e a imagem que delas forma a inteligência humana?
Vexatio quaestio. A verdade é o real ou o conhecimento do real? A verdade está nas coisas ou na figuração das coisas criada pela inteligência dos homens?

Delfim Santos, um grande filósofo, discutiu muito bem esta questão partindo da análise semântica no interior da língua alemã. Wirklichkeit e Realität são palavras que, em português, se traduzem, ambas, por realidade, sem distinção. Mas “Wirklichkeit” engloba o “ser real” e o “ser ideal” e “Realität” apenas se refere ao ser real que é o real, “tout court”, na nossa linguagem comum. Mas, como acentua Delfim Santos no seu livro “Conhecimento e realidade”, nem tudo o que possui realidade é real e o real não é toda a realidade; dito assim, em português, soa como um absurdo, como uma afirmação sem sentido.
Também, na mesma linha de análise semântica, Gegenstand é toda a manifestação da realidade, sempre independente do sujeito; e é a acção cognitiva do sujeito sobre a realidade que faz aparecer o objecto, em língua alemã Object. O sujeito, explica Delfim Santos, não é criador de Gegenstand – ou de realidade manifestada – mas é determinante, nesta, das formas que o farão objekt, objecto, coisa, afinal, na linguagem comum.

Então, a geração de objectos pelo exercício da capacidade cognitiva é descoberta. Porque a descoberta não é, nem mais nem menos do que a figuração da realidade, enquanto Wirklichkeit; não é, nem mais nem menos, que a emergência de um ser real particular, criado pela inteligência humana, no universo do ser ideal.
Assim, a descoberta, enquanto geração de objectos reais na opacidade das manifestações da realidade, da Gegenstand, tem como limite, como único limite, a verdade.
E este limite é ético; é o próprio fundamento da ética.

Esta afirmação, na sua radicalidade agressiva, merece um tratamento especial e com ele vou terminar o meu discurso alegórico sobre invenção e descoberta.
A verdade manifesta-se em dois planos: o das coisas em si próprias que estão aí e existem antes de os homens as conhecerem e que estes descobrem; e o plano da representação das coisas na cultura exterior simbólica, hoje, essencialmente pelo nome, falado ou escrito, pela frase e pelo discurso, directo ou alegórico.
A verdade das coisas, como real substantivo, nunca a poderemos conhecer; são-nos exteriores e o que sabemos delas é por representação.
A ciência, por exemplo, constrói-se sobre as representações da realidade e tem-se mostrado eficaz; mas não é verificável nem falsificável, no sentido que Karl Popper dá a estes conceitos.
Por aqui não fundamentamos a ética.
E o conhecimento do ser próprio, do Eu?

Disse antes que a ideia de ser é uma invenção pura que não arranca de nenhum suporte material, não é representação do corpo nem das suas manifestações; é uma emergência integradora de múltiplas aferências neuronais.
Portanto, o reconhecimento da verdade do ser é pré-verbal (porque não há representação), é pré-linguístico (porque não há discurso) e terá de revelar-se na verdade da descoberta.
Mas como falar de verdade se não há representação?; como falar de descoberta se quem inventa o ser e quem descobre o ser é o próprio ser?
Aforia transcendental? Dificuldade insuperável, como afirmam muitos filósofos criticando as teses do monismo neurobiológico? Penso que não.
Deixei dito que o homem, para se inventar a si próprio como abstracção do real, partiu da observação do corpo morto do outro.
A alteridade é, assim, a verdadeira origem da ipseidade.

Cada homem tem de realizar, um dia, a descoberta do outro como seu igual e como um absoluto outro, na feliz expressão de Levinas; e só a partir desse instante revelador a sua inteligência descobre a categoria ética como categoria formal do seu pensamento reflexivo e como critério de verdade, não anfibológico nem apofântico.
A categoria ética, é para mim, ao contrário do que propõe Levinas, pré-ontológica e nunca pós-ontológica; desenvolve-se sobre um suporte biológico arcaico que tem a idade do homem nean dertaliense, ou seja, um pouco mais de cem mil anos. Com a irrupção da categoria ética, o destino dos homens passou a ser determinado pela aculturação e não apenas pela herança biológica.
O drama dos homens é que, se esta descoberta primordial é a essência da verdade e o fundamento da ética da relação, é, também, a origem da autonomia do eu e da liberdade da pessoa.

O que cada um faz da autonomia e da liberdade, qualidades radicais para a autenticidade da pessoa humana, é, de facto, imprevisível.
A cada descoberta humana sucede-se, no campo da consciência, um desejo e uma decisão; este desejo e esta decisão são formalizados em actos – comportamentais, criativos, relacionais, etc. – e entre eles deve insinuar-se a verdade do ser; às vezes com êxito, outras vezes não.
Reafirmo a minha tese: a verdade é limite ético das descobertas que o homem singular faz, constantemente, no seu percurso terreno até à morte corporal.
A invenção é uma qualidade natural e intrínseca do homem e da sua inteligência, tem  de ser livre e ilimitada, porque é sobre ela que se constrói a autêntica natureza humana.

E termino.
Roentgen
não inventou o Raio X, descobriu-o Há milhões de anos que alguns átomos, nos quais essa ainda misteriosa aquietação da energia primordial na matéria e no tempo não está terminada, libertam a energia que lhes é excessiva para que possam vir a ser o que serão, cumprindo o projecto evolutivo contido no próprio acto físico que os gerou.
Descobrir esta actividade natural, pelos seus efeitos, foi o acto inteligente de Roentgen, logo seguido da avaliação ética: para o bem ou para o mal dos homens?
Decerto para o bem.
Volto a Orígenes e aos pensadores da Escola de Alexandria.
Porque se a descoberta de Roentgen tem um suporte real – que é o átomo instável – uma expressão intelectual – que foi a observação dos efeitos e o seu aproveitamento – e uma projecção espiritual – o imenso benefício para a humanidade sofredora -, justo é que o celebremos nesta dia jubilar  e nesta cerimónia solene na qual, com muita honra, participei.

Lisboa, 26 de Abril de 1995  



« voltar