Home  > 

A proximidade da morte civil, que em Portugal ocorre aos setenta anos, dá oportunidade para uma reflexão sobre o tempo passado e para o delinear de um projecto para uma nova forma de viver que não será, necessariamente, a última.
Para mim é fácil porque já cumpri algumas e bem diferentes formas de estar na vida. Tenho dúvidas se terá interesse para os leitores.
Ser médico foi uma vocação irresistível e por ela lutei durante os seis anos do curso, com as dificuldades inerentes a um provinciano cuja adolescência e juventude decorreram fora dos grandes centros universitários de Lisboa, Porto ou Coimbra.

Afinal fui médico pouco tempo – médico de ver doentes, de os tratar, de os curar ou de os ver morrer – atraído, como fui, pela carreira de docente numa disciplina laboratorial, a Anatomia Patológica. Convidou-me o Prof. Amândio Tavares, Reitor da Universidade e figura de grande prestígio na época (anos 50).
Carreira docente significava salário baixo, más condições para investigação e trabalho duro, nunca inferior a doze horas por dia, incluindo os sábados. Significava, ainda, o que hoje chamam “precaridade de emprego” porque quem não concluía a tese de doutoramento nos seis anos da lei era despedido (com justa causa ...).
E significou ainda, para mim, que não tinha outros recursos além do salário, o adiamento na constituição de uma família própria. Devo aos meus Pais, na simplicidade do seu viver quotidiano, uma indiferença visceral por tudo o que é supérfluo e a sabedoria de descobrir como aproveitar o que se tem e ser assim feliz. Porque é a ambição desmesurada que torna tantas pessoas azedas, agressivas e infelizes.
Só o optimismo não é, nunca, desmesurado.

As condições eram más mas doutorei-me e fiz a investigação possível no tempo e no lugar. Visitei o estrangeiro onde eram outras as condições e reconheci que, face ao nosso atraso tecnológico e organizativo, só nos restava competir no domínio das ideias; nos factos éramos sempre derrotados. Trabalhando com os factos deles, apresentei propostas explicativas em vários campos da patologia oncológica e da imuno-patologia mas fui sempre olhado nos Congressos Internacionais como um utopista. Mas nunca me senti menos inteligente ao lado dos grandes nomes que publicavam nas boas revistas internacionais; com alguns destes tive, até, grandes desilusões, pois eram cabeças fechadas e encerradas numa ruminação dos pequenos factos científicos que iam produzindo e publicando. Mais nada.

Reconheço, sem nenhuma vaidade, ter transmitido a muitos docentes, mais próximos ou mais distantes, a confiança em si próprios e no mérito relativo da investigação possível. Porque a alternativa era maldizer dos homens e das coisas e não fazer nada.
Casei em 1958 tendo tido a felicidade de encontrar e de ter sido acolhido no amor de uma mulher serena, inteligente e, como eu, corajosamente optimista, acreditando sempre que nenhuma dificuldade é superior à nossa determinação de a vencer.
Em Outubro de 1967 fui subitamente mobilizado para ir fazer autópsias em Angola. A última dos nossos seis filhos tinha poucos meses e o mais velho, Manuel, andava pelos 7 anos. Para a minha mulher era impensável não me acompanhar, mas com o vencimento de capitão era impossível manter uma família de oito pessoas. Levamos um, infelizmente já falecido, e os outros ficaram entregues à caridade dos padrinhos. Por decisão dela.
Os dois anos de Angola foram mais uma outra forma de viver, totalmente diferente dos anos anteriores de trabalho universitário empenhado mas oculto na torre de marfim que era a Universidade e os seus órgãos de governo, onde realizei múltiplas tarefas acreditando sempre, com o tal incurável optimismo, que a Instituição podia reformar-se a partir de dentro e sempre o faria melhor do que os Ministros.

Regressado de Angola, em 1969, tive de concorrer, em poucos meses, a professor catedrático e assumir a direcção do Serviço Hospitalar e do ServiçoUniversitário. Tinha à minha frente quase trinta anos, sentia-me preparado para criar um grupo, gozava de aceitação generalizada na minha Faculdade e na Universidade. Os primeiros vinte anos de serviço exclusivo, sacrificado e mal pago eram o meu capital. No curriculum para o concurso a professor escrevi “e acima de todos agradeço à minha Mulher e aos meus Filhos a alegria com que têm aceitado uma honesta mediania para que eu possa seguir, com inteira liberdade, o caminho que escolhi”. Este caminho era o da dedicação integral e exclusiva ao ensino e à investigação. Sem retórica.

Mas foi sol de pouca dura. Com a revolução de 74, depois de ter sido eleito pelos revolucionários para a Comissão que havia de fazer uma reforma do ensino da Faculdade, passei a ser perseguido e insultado porque não me submeti a interesses mesquinhos e a conluios meramente políticos, mas de política soez. Demitido de todas as minhas funções em 24 de Junho de 1975 só um ano depois fui re-integrado quando reconheceram o erro escandaloso. Anularam o despacho do Ministro e pagaram-me doze meses de ordenado. Foi, até hoje, a única vez em que recebi dinheiro sem trabalhar.
A demissão teve episódios muito anedóticos que contarei um dia em livro (em preparação) intitulado – Um saneamento exemplar. Livro que só publicarei quando puder olhar-me como se eu fosse um antropologista que estuda, de forma neutra e impessoal, um outro ser humano.
Mas teve um efeito negativo – encerrou a minha carreira como investigador – e um efeito positivo – forçou-me a trabalhar na actividade privada e a ter aí um grande sucesso profissional.

A minha re-integração em todas as funções foi um acto de justiça elementar mas foi ineficaz. Não voltei a ser o que era, a função pública deixou de ser a minha primeira prioridade, desinteressei-me de qualquer projecto para os Serviços sob a minha direcção e orientei a minha actividade para um novo campo – a ética médica e a bioética em geral. Sem nenhuma amargura.
Fui feliz e sou feliz nesta nova forma de vida. Quando nada pretendo tudo me é oferecido.
Chamam-me, a título pessoal, para o Comité Internacional de Bioética da UNESCO, nomeiam-me para o Comité Director de Bioética do Conselho da Europa, a União Europeia convida-me para avaliar, escolher e controlar a execução de projectos de investigação em Bioética. Tenho conseguido que a voz de Portugal seja ouvida e respeitada. De Espanha convidam-me para a conferência inaugural do seu primeiro Congresso de Bioética, em Barcelona. A Academia das Ciências encarrega-me de a representar no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

Não é mau percurso para quem foi considerado, no seu País, indigno de exercer o ensino porque “denunciou estudantes à PIDE”, lia-se nos cartazes empunhados por estudantes comunistas, coitados deles que não sabiam o que diziam.
Mas, como alguém que atravessou, na adolescência, um curto deserto de ateísmo militante para chegar à terra prometida de uma absoluta em Deus, o que me deu mais alegria, nesta nova forma de vida, foi a escolha, pelo actual Papa João Paulo II, para ser membro da Academia Pontifícia para a Vida e, assim, poder participar na vida da Igreja e nas grandes opções que irão marcar o próximo milénio, quer pela actividade pública na Academia quer “sub secreto pontificio”.

Cada homem é feito de muitas vidas, umas melhores outras piores.
Não gosto de falar de mim e falo pouco comigo. No Livro de Curso, onde se tenta dizer a verdade nas caricaturas e nos textos, escrevi como se citasse “... fui rei, num País distante, lá para as bandas de Deus”.
Queria dizer, descubro-o agora, que nestas bandas, as de Deus, é que eu queria ser grande, ser gente, ser rei.
Como ainda o não consegui vou empenhar-me nesta nova vida, para atingir esse objectivo que é humilde, sendo grandioso e transcendente.
Lá das bandas de Deus não poderei dar notícias directas aos leitores desta nota meio-biográfica que fui solicitado a escrever.
Mas estarei com todos vós só por a ter escrito.


« voltar