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Tive o prazer de prefaciar este livro e vou contar como tudo aconteceu.
Em regra os autores escolhem um amigo benévolo ou que os conheça bem.
Ora eu não conhecia a autora e continuo a não a conhecer. Falamos cinco minutos numa recente reunião da UNESCO, aqui em Lisboa.
Então, que é que se passou? Foi assim.
Um dia recebi no correio umas dezenas de páginas dactilografadas e uma carta de uma senhora cujo nome me era desconhecido – Teresa Gomes Mota – a mostrar interesse num prefácio meu para o livro em que essas folhas dactilografadas se iriam transformar.

Confesso que, muito assoberbado por tarefas inadiáveis, tomei a decisão de agradecer e declinar o convite, porque não tinha tempo para ler os textos.
Porém algo me fez pegar nas folhas e, ao acaso, li o “Comunicar com o doente” em que é feita a referência à linguagem não oral na relação clínica, que é o que Merlin Donald descreve e caracteriza como “mimesis comunicacional” e que eu costumo explicar aos meus alunos dos mestrados de bioética como um dos patamares evolutivos da moderna inteliência humana. E pensei logo comigo: alto, está aqui uma autora a escrever “diferente”.
E estava. Li a “História da Maria”, li o que lhe aconteceu com a Marta, li “A riqueza maior”, li “a Junta Médica”, li “Ofertas” e depois reli as páginas todas. No final, sem uma hesitação, escrevi directamente no computador o prefácio que figura no livro.

Digo-vos aqui que foi a primeira vez que escrevi um texto, para publicação, directamente para o ecrã do computador.
Que terá acontecido comigo e com estes textos?
Analisei-me, depois, e fiz o diagnóstico.
O que me aconteceu foi uma grande surpresa emocional. Vou explicar porquê e peço uma vénia para ser pessoal.
Leio incessantemente. Já li milhares de livros, de todos os géneros, desde que, jovem adolescente sem dinheiro para comprar livros, ia, à noite, para a Biblioteca Municipal, em frente ao Liceu José Estêvão, em Aveiro, e lia até que os morcegos que habitavam na torre da Igreja, ao lado, começavam a chiar, assinalando as 11 horas e acordando o funcionário que me mandava logo sair. Claro está que eu era sempre leitor único.
Recordo ainda hoje, com toda a nitidez, o cheiro a mofo, o pó dos livros, a luz fraca e amarelada e a fascinação do severo Alexandre Herculano, em “Eurico, o presbítero”, interrompido, no melhor momento, pelo piar agoirento dos morcegos.

Ler muita prosa e muito verso foi-me produzindo um desagradável sentimento do “já lido” – o que me tem impedido por exemplo de acolher a poesia moderna com a mesma paixão que senti (e sinto) pelo Pessoa todo, quando o descobri há mais de 50 anos.
O que me aconteceu com Teresa Mota foi isto mesmo, foi a descoberta de uma prosa que, sem nenhum pedantismo literário nem nenhum barroquismo bacoco, deixa fluir os conteúdos da autoconsciência sem os arrebicar, sem os preverter, deixando que cheguem ao leitor em estado puro.
E foi esta pureza que me surpreendeu e emocionou. Porque se trata de uma obra de arte, de pura arte.
Não é fácil ser, ao mesmo tempo, verdadeiro e simples, como é Teresa Gomes Mota.

Porque é de verdade que se trata, não é de ficção. Cada uma das meditações – posso chamar-lhe assim, Teresa, porque são análises da autoconsciência, são leituras do “soi même comme un autre” na feliz expressão de Paul Ricoeur que é título de um dos seus mais luminosos livros – cada uma das meditações revela-nos como Teresa Gomes Mota é médica, por humaníssima escolha pessoal, e como essa escolha a envolve em todas as situações da sua actividade profissional e, também da sua vida pessoal e familiar. Porque eu vivi 50 anos entre doentes, alunos e colegas, o fervilhar da actividade hospitalar que perpassa, discretamente, sem alaridos nem retórica, nos seus textos, tocou-me particularmente. Mas, surpresa emocional que me atingiu não resultou dos factos, aludidos ou descritos, de uma rica experiência médica, mas da forma como Teresa Mota os leu, a esses factos, na sua autoconsciência – vale dizer, no seu espírito, ao modo de Mounier, ou na sua alma, em registo mais aquiniano e cartesiano – e da forma como os transforma em narrativa biográfica.

A narrativa biográfica, todos aqui o sabem, é o cerne da relação médico – doente, particularmente na primeira consulta. É nesse momento mágico, quando uma pessoa pede ajuda a outra pessoa, que se manifesta o mistério do encontro clínico em que há uma entrega ao outro, o médico, e há a esperança de um acolhimento, com responsabilidade, respeito e amizade.
Ora, Teresa Gomes Mota viveu, em si própria, esta situação de estar doente, e com ela a expectativa de ser acolhida na competência e no afecto do outro e até a de ouvir a pergunta sacramental, mas afectivamente neutra, do Presidente da Junta Médica que controla as baixas dos funcionários:
“E agora, colega, o que pensa fazer da sua vida”
A melhor resposta foi “abrir uma garrafa de vinho tinto, muito especial, e brindar ao futuro”.

Neste futuro assim celebrado e convocado está já este livro, situado “Do outro lado da bata”.
Tenho a certeza de que muitos livros se lhe seguirão.
E os milhares de leitores que vai seduzir – como me seduziu a mim – estarão sempre consigo para beneficiarem da qualidade e do sortilégio da sua escrita.
Termino, como no prefácio, plagiando palavras suas para a Clara Ferreira Alves.
“Bem haja, Teresa, por escrever tão bem”.

FNAC – Centro Comercial Colombo, 19 de Janeiro de 2005


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