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Prof. Doutor Daniel Serrão

Entrevista:
Prisfar News (PN) – A Medicina surgiu no seu percurso de vida ou o Senhor Professor foi
ao encontro?
Daniel Serrão (DS): A Medicina foi uma decisão minha! Na minha família não havia nenhum médico. O meu pai era engenheiro, outros meus tios eram professores de liceu, oficiais da marinha e juristas! Havia, sobretudo, gente do Direito. Não havia ninguém ligado à Medicina. Eu senti essa vocação e vim para Medicina. Formei-me em 1951!

PN – Na vida as alegrias e as tristezas vão-se
sucedendo… Quais as que mais o marcaram?
DS: A nível pessoal, a alegria principal foram os nascimentos dos meus seis filhos. Foram seis alegrias grandes! A tristeza foi que o segundo dos rapazes morreu com doença, já aos 33 anos. Mas, de facto, a morte está à nossa volta… nós éramos três irmãos e só já cá estou eu! Não é que a morte seja uma tragédia, uma coisa muito complexa, mas produz, naturalmente, alguma tristeza, alguma sensação de luto pessoal que demora tempo a ultrapassar.
No campo profissional, sempre procurei aproveitar as oportunidades que tinha e transformar as possibilidades de derrota em vitórias, em algo positivo! Nunca vivi amargurado por nenhum sentimento negativo, embora tenha tido momentos naturalmente difíceis. O doutoramento é difícil, os concursos ... mas nada que me faça maldizer dos homens ou da vida.


O caminho da medicina

PN – Que conselhos para os jovens médicos?
DS: Aquilo que tenho procurado dizer às novas gerações é que analisem bem as situações, não partam logo com o pressuposto de que são negativas. Procurem encontrar o que de positivo há sempre em qualquer situação, mesmo aquelas que são más…

PN – Ser médico, actualmente, impõe desafios que desconhecia nas décadas de 50 e 60...
DS: Claramente! Quando me formei a medicina era mais tranquila. Foi o período do aparecimento dos antibióticos. A medicina que se fez antes e depois, na primeira e na segunda metades do século passado, é completamente diferente e depois, as inúmeras possibilidades de intervenção. Veja-se, por exemplo, a transplantação de órgãos, algo de completamente novo, a fertilização in vitro, a possibilidade de conseguir tratar eficazmente muitas neoplasias; portanto, houve uma profunda transformação!
Iniciei o meu percurso médico num período de grandes transformações e tive uma grande alegria em vivê-las, aceitá-las e inclui-las na minha própria visão médica. Depois, escrevi muito sobre aspectos éticos da profissão e aproveito para chamar a atenção para isso mesmo: não se deixem deslumbrar pela técnica porque ela é muito útil mas tem de estar sempre ao serviço da pessoa doente.


Uma vida bela!


PN – A célebre frase “A vida é bela” enquadra- se na filosofia de vida do Senhor Professor?
DS: Ah sim! Sou profundamente optimista! A vida é bela e pode ser sempre vista como bela mesmo quando está um pouco escurecida. Cada um tem de ser autêntico consigo próprio e com os outros! Toda a hipocrisia desgraça a beleza da vida. Cada um tem de se sentir bem consigo próprio e com os outros e esta tem de ser uma relação de autenticidade.

PN – A arte dá “cor” à vida…
Pintura Van Gogh
Música 5ª sinfonia de Beethoven
Livro “The Spell of the Sensuous” – David Abram

PN – Uma vida bela ou uma bela vida?
DS: Muita gente pensa que é preciso ter muito dinheiro para ter uma vida bela ou boa. Um conceito de vida boa ou bela, mas mais de vida boa, é aquele que permite um sentimento de bem estar consigo próprio, com os outros e com o mundo! Desde que se sinta bem interiormente, a vida é boa! Mesmo que tenha dificuldades económicas, financeiras, profissionais, familiares ou outras... mas tem de fazer sempre esse esforço para que a sua visão da vida seja uma visão positiva! Eu considero ter uma vida boa e quero vivê-la até ao momento da morte!


“Entre ciência e religião, hoje, não há conflito nenhum!
Cada uma percebeu que tem uma metodologia própria,
tem um objectivo próprio e uma competência específica.”


A Ética da Vida

PN – Assume-se um acérrimo defensor da vida. Quais os valores a preservar?
DS: Ah, sim com certeza! A vida é o grande objectivo do médico. O médico dialoga permanentemente com a vida…


PNNo limiar do século XXI quais são as grandes ameaças à vida humana? Os progressos da ciência podem, em alguns casos, assumir-se como ameaças? Em que situações?
DS: Há duas, essencialmente: uma é a possibilidade da manipulação do genoma e queessas manipulações se tornem hereditárias, ou seja, possam ser utilizadas no sentido de serem herdadas. A outra – é a que me aflige mais no momento actual – é a resistência que fazem muitas pessoas, nomeadamente cientistas, em considerar que o embrião humano é um ente vivo da espécie humana, porque isto é uma certeza científica absoluta! Há pessoas que arranjam outras explicações,  como por exemplo que o embrião é um amontoado de células e coisas assim... O embrião é um ente vivo da espécie humana e, nessa medida, tem direito à vida, como os entes vivos de outras espécies também têm!

PN – Como está a acompanhar esta possibilidade de voltar a referendar-se a questão do aborto?
DS: Eu não percebo nada de política, mas se os políticos acharem oportuno, acho perfeitamente possível que se volte a perguntar às pessoas. Há outras pessoas que agora podem votar e dantes não podiam. A mim, o que mais me incomodou no outro referendo foi o facto de cerca de 60% das pessoas terem ficado em casa e não terem ido votar, achando que a questão não tinha interesse ou que era um assunto dos outros. E não é! Esta é uma questão que diz respeito a cada português. Cada pessoa tem de ter em sua consciência a convicção se o embrião ou o feto é um ser vivo da espécie humana que tem (ou não) direito à vida e ao desenvolvimento! Cada um tem de tomar essa decisão em si próprio e depois responde ao referendo de acordo com aquilo que for a sua mais profunda e íntima convicção. Não tenho dúvidas que o resultado será a favor da vida!
Por último, considero que a questão do abortamento foi resolvida em Portugal de uma forma razoável, ou seja, permitindo que o médico possa terminar uma gravidez em situações específicas como são o perigo de vida para a mãe, a malformação grave do feto ou a violação. Para mim, a violação é um crime odioso!
Compreendo perfeitamente que uma mãe, que é uma pessoa, que não é propriamente uma mãe, ou seja, é uma pessoa que foi forçada a ser mãe por um acto de violência, repudie completamente o novo ser. Claro que se ela o puder aceitar, muito bem, se não puder de forma alguma aceitar e se isso afectar gravemente o seu equilíbrio psíquico, eu entendo que há justificação médica para adoptar esse procedimento. Fora disso, que uma mulher normal, com uma gravidez normal e com um filho normal possa decidir matar o filho, não é uma questão médica, não é do domínio da actividade profissional do médico.

PN – Será legítimo definir, exactamente, onde começa e acaba a vida humana?
DS: Absolutamente, não há dúvida nenhuma sobre isso! A vida humana começou há seis a oito milhões de anos, a vida em geral há seis a sete mil milhões de anos! A vida está aí, ninguém cria vida!
Então, o que acontece quando um espermatozóide e um óvulo –que são células vivas–, o espermatozóide está vivo, o ovócito está vivo – se juntam, é que continuam vivos e aquilo que aparece desta junção é uma nova forma de viva, é um novo ser vivo. Nós criamos, a partir da vida que já lá está, uma manifestação nova, um novo ser! Depois até lhe damos nomes: José, Francisco... E, portanto, a intencionalidade da criação de um novo ser é importante; mas ele uma vez criado tem a sua vida própria, não depende de nada nem de ninguém.

PN – E a clonagem ... encara-a como a grande descoberta do século passado?
DS:
O embrião, novo ser da espécie humana, resulta da conjugação de gâmetas masculino e feminino. A espécie humana é gonocórica – tem uma forma masculina e uma forma feminina – e para que haja fecundação é preciso que estas formas se unam... O homem une-se à mulher e depois essa ligação é completada pela união do espermatozóide com o ovócito. Uma vez isso feito, como disse, nasce um novo ser da espécie humana que, para mim, merece todo o respeito e tem direito absoluto à vida e ao desenvolvimento. O que aconteceu com as experiências que levaram ao aparecimento da Dolly foi a possibilidade de fazer transferência do núcleo de uma célula qualquer – da pele, do fígado, etc, de um corpo adulto – e em determinadas condições técnicas - que não têm nada que ver com fecundação nem com fertilização – esta nova célula vai começar a multiplicar-se como se tivesse regressado à fase primordial, como se fosse agora repetir a sua situação de embrião que já foi. Mas ela não é um embrião! Não é senão uma repetição do meu corpo. É o meu corpo numa forma muito elementar, unicelular, outra vez, mas que já é o meu corpo. Fui embrião, agora sou corpo adulto e algumas células do meu corpo adulto vão ser capazes de voltar a repetir este percurso.

Mas não volta a haver embrião. Só fui embrião uma vez. Então, esta estrutura, infelizmente, no caso da ovelha, e em muito poucas situações, depois de introduzida no útero da fêmea, foi usada para produzir uma cópia do corpo adulto. Mas, do meu ponto de vista, nem sequer quando estava no útero da ovelha aquilo era um verdadeiro embrião, desenvolveu-se como tal. Mas, se esta hipótese estiver completamente afastada, quer dizer se não houver nenhuma intenção, nenhuma possibilidade, se for uma proibição universal absoluta, uma rejeição completa pela humanidade, no caso dos seres humanos, da utilização desta estrutura para que ela funcione como um embrião introduzindo-a no útero de uma mulher, eu penso que ela não é senão um
equipamento técnico, de laboratório, alguma coisa que pode ser manipulada como podem ser manipuladas as células vivas de um cancro que estejam em cultura. Daí que considero aquilo uma cultura de células que tem um aspecto embrióide que só será embrião se fizerem o crime mundial, contra a umanidade, de o introduzirem num útero de uma mulher, mas que não é, efectivamente, embrião. Se puderem fazer algo de beneficente para a humanidade com essa neoestrutura eu compreendo que se faça. Não é esta a opinião, nem da Igreja católica nem da Academia Pontifícia para a vida – da qual sou membro e que, naturalmente, respeito – mas com a qual não concordo. Porque consideram que é uma questão de Fé, não estão a ver o problema bem e estão a agarrar-se a uma palavra, à palavra embrião, que comporta toda uma carga de respeito ético e teológico que eu também aceito, mas em relação ao embrião verdadeiro. Não aceito em relação a este corpo embrióide ou este falso embrião ou pseudo embrião...

PN – Nesta perspectiva a Vida tende a ser cada vez mais manipulada?
DS: A vida pode ser manipulada, modificada e é sempre manipulada! Por xemplo, quando eu tomo um antibiótico por causa de uma infecção estou a manipular a vida e estou a manipular as minhas relações com os outros omponentes da vida. A vida é manipulada, habitualmente, com uma intenção beneficente mas também é possível o contrário.

Ciência e Religião

PN – Disse numa entrevista que era um “católico que procura discernir no mundo sinais da misteriosa presença de Deus” e que “João Paulo II é o mestre do meu dia”. São afirmações do Homem ou do Médico?
DS:
Não faço essa distinção... não deixo de ser homem quando sou médico, nem deixo de ser médico quando me vejo a mim como ser humano. Realmente, sou um ser humano médico. A medicina formou-me, ocupou-me completa-mente e ainda hoje sou profundamente médico, mas o facto de achar que João Paulo II é uma figura extraordinária da Igreja, mais do que profética, isso eu posso dizer-lhe como médico, como homem, como pessoa, de todas as formas!!
Ele próprio disse algumas coisas absolutamente radicais e fundamentais para o entendimento puro do cristianismo em todas as suas formas – catolicismo, igreja reformada e protestantismo. Fez uma aproximação aos judeus que é absolutamente radical que destruiu séculos de incoerência em relação a este povo...
Sou membro da Academia Pontifícia para a Vida da Santa Sé que este ano celebra o seu 10º aniversário e, neste âmbito, é a décima vez que me encontro com Sua Santidade o Papa João Paulo II! A primeira vez que me encontrei foi uma emoção extraordinária, uma experiência inesquecível. Hoje já me sinto perante ele com uma certa tranquilidade, contudo é sempre um deslumbramento poder estar próximo da pessoa que, segundo a fé, é a expressão mais elevada da representação de Cristo, embora Cristo esteja em todos nós!


PN – A Ciência e a Religião, de que forma se podem relacionar na entrada deste novo século?
DS: Entre a Ciência e a Religião não há hoje já conflito nenhum! Cada uma percebeu que tem uma metodologia própria, tem um objectivo próprio e uma competência específica. Agora, se a ciência quiser fazer religião ou transformar-se numa religião, aí está enganada. Se a religião quiser ser uma ciência está enganada também! Ainda existe muito o síndroma de Galileu na Igreja, o que já não tem justificação. Estas duas formas de conhecimento são absolutamente complementares, o próprio Einstein o disse de uma forma clara. A Ciência tem um nível metodológico e explicativo e não deve passar acima dele; o reconhecimento da transcendência ajuda-nos a ir mais além deste patamar. E, essa transcendência não é a mesma para toda a gente.
Não é uma questão entre a igreja católica e os biologistas moleculares, por exemplo, é entre conhecimento científico e o conhecimento transcendental ou metafísico que é outro nível de explicação, outro nível de conhecimento.
Eu não conheço a transcendência, digamos “Deus”, se quiserem, da mesma forma que conheço o equilíbrio da energia no interior do átomo, por exemplo.

PN – A fé já  ajudou no exercício da sua profissão, na relação com os seus doentes, por exemplo?
DS: Sim, de uma forma segura. Com o meu próprio filho, por exemplo, quando adoeceu e morreu... Há uma espécie de diálogo muito interior que nos revela a própria presença de Deus na auto-consciência, aquilo que é de certa maneira a única forma que temos de compreender o espírito no sentido mais geral da palavra. Quando eu dialogo comigo, no mais profundo da minha autoconsciência, estou a colocar um problema à própria transcendência em que
acredito, estou a viver no interior do espírito, sem dúvida, e isso não é uma negociação para obter bons resultados. Não é dizer: faz-me isso que eu depois pago... Isso nunca fiz! Aquilo que eu fui capaz de fazer não só em relação a esse meu filho como em relação a outras pessoas, doentes meus, era exactamente que gostaria de compreender a situação daquela pessoa que está
doente e vai morrer, numa perspectiva metafísica, religiosa ou transcendental; isso conseguia-o pedindo que me fosse dada essa possibilidade.
Esse pedido, é um pedido dirigido ao espírito.


O futuro da família

PN – Que esperança deposita no Ano Internacional da Família?
DS:
Bem, os anos internacionais, infelizmente, poucos resultados têm... Mas, pelo menos, chamam a atenção para uma realidade: a família é uma realidade indestrutível, embora, às vezes, seja muito castigada. A família é uma estrutura
que tem um suporte biológico indiscutível que é o da sobrevivência das espécies. Todas as espécies formam pequenas famílias. O Homem forma uma família corporal, física e sobre ela uma família transcendental, chame-se-lhe assim!
Verdadeiramente a família, além da reunião dos corpos e das pessoas, é uma estrutura espiritual e como tal não desaparecerá nunca! Não pode desaparecer e só desapareceria se o Homem passasse a ser macaco ou animal. Vai existir
sempre. Não falo de crise de família, eu acho que não há crise de família, há crise de alguns modelos concretos de certas formas de construir famílias mas sempre houve famílias, há e continuará a haver, de muitas formas. O essencial
é lá estar sempre um homem, uma mulher e os filhos!

PN –
Que novos desafios lhe estão reservados?
Qual a importância da família para o Sr. Professor?

DS: O desafio mais importante é o de conseguir, volto a dizer, que cada família compreenda que não é, ela própria, uma estrutura de poder em relação aos seus membros mas é uma estrutura de serviço. Como estrutura, está ao serviço de todos e esse serviço é prestado com Amor.
Portanto, tudo o que possa acontecer, entre o homem e a mulher, entre pais e filhos, tudo isso é regulado por uma espécie de um ”cimento” ou de uma corrente que liga as pessoas todas e que é o Amor. E quando nós somos capazes de amar as pessoas que constituem a nossa família, somos capazes de compreender tanto o bem como o mal e ajudar cada um dos membros a crescer no amor, por ele próprio e pelos outros. E isso consegue-se!
Eu tenho experiência! Tenho agora cinco, mas tive seis filhos, todos casados, já vou com nove netos e reconheço que o elo que nos liga e que faz com que nos sintamos todos como uma família, estando cada um no seu lado, é cada um saber que há um nexo de amor entre todos.
Temos uma coisa em comum que é gostarmos todos uns dos outros. Mesmo quando nos zangamos também estamos a gostar!



Notas Curriculares


Nasceu em 1928. Entre 1970 e 1998 foi Director do Laboratório de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina, Director do Serviço de Anatomia Patológica do Hospital de São João e professor de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina do Porto e é Membro efectivo da Academia Portuguesa de Medicina
e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. É, no presente, professor de Ética Médica do Curso de Mestrado da Faculdade de Medicina. Foi professor de Medicina Legal na Faculdade de Direito da Universidade Católica,
do Porto. Foi Presidente do Conselho Superior de Ciência e Tecnologia. É Presidente da Comissão de Fomento da Investigação em Cuidados de Saúde do Ministério da Saúde, nomeadamente, e vice-presidente do Conselho
nacional de Oncologia.

É membro do Comité Director de Bioética do Conselho da Europa e da Academia Pontifícia para a Vida da Santa Sé. É perito da União Europeia, DGXII, para avaliação ética dos projectos de investigação. Por último, refiram-se as suas posições de Membro, como perito, da Unidade de Bioética da Fundação Europeia da Ciência; Membro fundador da Associação Internacional de Bioética e Membro activo da Academia Europeia das Ciências e das Artes – Salzburg. As suas participações editoriais revelam-se como Membro do Conselho Editorial
das publicações JOURNAL OF MEDICAL ETHICS e INTERNATIONAL JOURNAL OF BIOETHICS


 



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