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Uma tarde, aí em 53 ou 54, vinha eu do Pavilhão do Hospital de Santo António – que era coutada exclusiva do Prof. Sousa Pereira e era onde este cirurgião “especial” fazia investigação científica, na altura sobre arterialização do sistema porta, em doentes privados com cirrose hepática, na qual colaborei (!) como patologista – e cruzei-me com Henrique Lecour, jovem médico, que me disse: “Vou fazer uma investigação sobre a tireoidea e vou precisar da sua colaboração como anátomo-patologista; talvez venha a ser a minha tese de doutoramento”.

Fiquei tão contente e orgulhoso por me ver escolhido, sendo eu um assistente a dar os primeiros passos  na Anatomia Patológica, que logo fiquei seu amigo. Nos quase 50 anos que separam o primeiro episódio dos nossos encontros múltiplos, até ao dia de hoje, em que se celebra a sua jubilação como Professor Catedrático, Director de Serviço Hospitalar e reputado Infecciologista, sempre este nexo de amizade esteve presente e por isso aqui estou a celebrar Henrique Lecour, o Amigo. Não apenas o meu amigo, mas o modo como ser a migo é um traço estruturante da sua personalidade e da sua forma de estar na vida.
Henrique Lecour é um grande clínico porque gosta de pessoas e para ele o acto médico é, antes de tudo o mais, uma postura de amistad como diz Lain Entralgo; de amizade, diremos nós, mas no sentido amplo que tem esta palavra e que inclui atenção, dedicação e respeito para com o outro.
O interesse, lendário, de H. Lecour pelos seus doentes leva-o a ir ao fim do mundo para resolver os seus problemas, não descansando enquanto o não consegue.

A mesma preocupação, cujo motor é a amizade, testemunhei-a sempre em relação aos problemas do seu Serviço hospitalar, muito antes de ser o seu Director, e do Conselho Científico da Faculdade de Medicina do qual foi vice-presidente vários anos. Aqui acompanhei-o mais de perto.
Conhecia tudo, sabia tudo, preocupava-se com todos. Quando a sua intuição o avisava de que iria haver um problema, desdobrava-se em contactos para o fazer desaparecer, para o atenuar ou para encontrar uma solução consensual. Pacientemente fazia ver, a uns e a outros, qual era o interesse geral da Faculdade e como este interesse deveria ser anteposto aos interesses pessoais e justificava cedências de uns e outros, em posições que pareciam, à partida, inconciliáveis.

Soube sempre reconhecer o mérito em quem o tinha e algumas vezes, poucas, foi até benevolente e generoso.
Nunca o vi puxar dos galões nos cargos de chefia e direcção que exerceu. A sua autoridade, porque era expressão de uma postura básica de amizade, era uma autoridade natural e naturalmente aceite por todos.
O que Henrique Lecour nunca admitiu, nem admite é que a sua relação de empatia e amizade com os outros seja conspurcada por uma deslealdade.
Amizade, para ele, é lealdade recíproca.
Se tiver de dizer a um Amigo uma palavra de crítica ou até de censura é sempre directo e frontal; se perder o Amigo fica triste, compreende, mas não desiste de, um dia, o recuperar.
A deslealdade, porque é uma traição à amizade, é-lhe de facto insuportável e não a tolerou nunca, a ninguém.

Termino com uma nota pessoal que me será desculpada.
Deu-me Henrique Lecour todo o apoio na criação difícil de um Serviço autónomo de Bioética e Ética Médica e no lançamento, ainda mais difícil, do Mestrado em Bioética e Ética Médica. Com o seu apoio, discreto mas eficiente, tudo correu pelo melhor e a Faculdade de Medicina do Porto vê hoje estas duas iniciativas a singrarem muito bem, entregues á competência e dedicação do Prof. Rui Nunes e da equipa que soube criar.
Fiquei-lhe muito devedor mas não fui capaz de agradecer com uma resposta positiva a uma aspiração sua que era a de que eu me candidatasse a Reitor da Universidade do Porto. Não para ser eleito mas, como ele, por amizade, dizia para que a nossa Universidade tivesse um candidato com as virtudes que só os seus olhos de amigo viam em mim.

Neguei-me e custou-me; ainda lhe disse uma vez que ia reflectir mas acho, hoje, que não fui sincero.
Henrique Lecour, o Amigo, ficará na história das duas instituições, que serviu apaixonadamente, como um exemplo de atenção, dedicação e respeito pelas pessoas e de preocupação activa pelo prestígio da Faculdade de Medicina do Porto e do Hospital de S. João.
É um entre raros.

Daniel Serrão


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