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Proferir este elogio a Tomé Ribeiro na sua Casa Universitária, esta Faculdade de Medicina do Porto, e perante os seus pares, que o conhecem, o estimam e o respeitam é, bem o sinto, uma redundância.
Mas esta cerimónia académica, na qual o Prof. Tomé Ribeiro é o padrinho do Prof. Michel Kremer, investigador professor já consagrado mas que vai receber mais esta distinção de ser Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto, esta cerimónia, dizia, é presenciada por muitas outras personalidades que, embora ilustres, poderão, por circunstâncias de tempo e de lugar, não conhecerem a personalidade e os méritos do Padrinho do novo Doutor. Por isso o Plenário dos Doutores da Faculdade onde, durante 47 anos, vivi, ensinei, trabalhei e observei, decidiu que eu poderia fazer o elogio do Padrinho.
E posso. Mas não sem algumas limitações.

A primeira é a do tempo, do tempo que o protocolo concede a esta intervenção, tempo limitado para que o acontecimento principal possa  ser o elogio do protagonista que é o novo Doutor Michel Kremer.
A segunda limitação radica na amizade que me liga ao Prof. Tomé Ribeiro desde que ele, jovem estudante, e eu, jovem assistente, nos cruzamos nos espaços e nas actividades da militância católica universitária dos anos 50.
Espero que o tempo me baste e a amizade me deixe ser justo, para que este elogio protocolar cumpra a sua função essencial que é a de garantir que Tomé Ribeiro está em condições para, como Padrinho, ser fiador idóneo da excelência do novo Doutor, Michel Kremer.

Tomé Ribeiro atinge este ano a idade da sabedoria, cumpridos que estão 45 anos de exercício profissional. Olhando para o caminho percorrido e para as metas que desejou atingir, que atingiu e que ultrapassou, Tomé Ribeiro pode sentir-se feliz e realizado.
Quando a carreira docente era uma lotaria imprevisível, tantas eram as variáveis aleatórias que escapavam ao controlo do candidato, Tomé Ribeiro doutora-se em 1972, com distinção e louvor. Neste mesmo ano, a Ordem dos Médicos confere-lhe o título de Especialista em Gastrenterologia.
Os dezasseis anos que mediaram entre a conclusão da licenciatura e o doutoramento foram tempos muito difíceis. Manuel Cerqueira Gomes, um príncipe do diagnóstico clínico, e depois Emídio Ribeiro, discípulo de Jimenez Diaz e, como ele, defensor da aplicação à Clínica da investigação básica, anátomo-patológica e outra, ambos quiseram fazer de Tomé Ribeiro um Internista, um cultor da Medicina Interna que desse continuidade à Escola portuense nascida com Tiago de Almeida e depois com Rocha Pereira, de quem Tomé da Rocha Ribeiro ainda era parente.

Mas os anos 60 foram o tempo da dilaceração da Medicina Interna. Primeiro, o sistema nervoso, depois o coração, o rim, o pulmão e as glândulas endócrinas, autonomizaram-se da mãe comum, a Medicina Interna, porque passaram a dispor de meios muito diferenciados e específicos de diagnóstico que impunham a especialização.
Tomé Ribeiro, já muito interessado pela patologia do fígado, concebe a criação de uma Unidade de Diagnóstico e de Clínica Gastrenterológica com o fundamento de a endoscopia esofágica, gástrica, entérica e colo-rectal constituírem uma especialização diagnóstica que devia ser entregue a especialistas de gastrenterologia. Como responsável, na altura, pela Anatomia Patológica que era uma retaguarda indispensável para dar conteúdo diagnóstico a todos os gestos de observação endoscópica, apoiei Tomé Ribeiro na sua firma intenção de criar uma Unidade de Gastrenterologia, mas sem excluir da prática endoscópica os Serviços de Cirurgia quando dispusessem de profissionais habilitados.

Tomé Ribeiro, inteligentemente, aceitou esta plataforma de entendimento e avançou, em 1972, para a criação da Unidade de Gastrenterologia com um único especialista, treinado em todas as modalidades endoscópicas e na biópsia hepática, que era ele próprio.
Muita coragem pessoal, muita competência técnico-científica e muita persistência, foram as armas de Tomé Ribeiro para vencer esta guerra que muitos, à partida, consideravam perdida.
Quando em 1978, já Professor Agregado, a Faculdade lhe entregou a Regência da Clínica de Doenças Infecciosas, não perdeu o rumo da Gastrenterologia; orientou a tese do infecciologista Henrique Lecour no tópico Hepatites e, em 83, pôde deixar a regência bem entregue a esse infecciologista, já doutorado, e pôde, ainda, orientar e promover o doutoramento de um pediatra, Álvaro Aguiar, em tema de infecciologia do intestino para que pudesse ser criada uma área especializada de gastrenterologia pediátrica, como o foi.
Regressado à Medicina Interna leva consigo a Unidade de Gastrenterologia, que dirige desde 1972, e que não cessou de crescer em espaço, em técnicas e em pessoas. Subespecializando a Unidade por técnicas, por temas e por pessoas, Tomé Ribeiro consegue criar um Serviço com uma notável eficiência clínica e docente, com linhas de investigação que geram doutoramentos e agregações, com prestígio internacional que torna frutuosos os contactos com bons serviços estrangeiros, como é o caso de Navarra, presidindo à Associação Universitária Porto-Navarra para o estudo do fígado.
O sucesso na criação de uma área prestigiada de gastrenterologia na Faculdade de Medicina do Porto, e no Hospital de S. João deve ser creditado a Tomé Ribeiro que não lutou, como D. Quixote, contra moinhos de vento, mas sim contra outras resistências, muito reais e poderosas; e venceu.
Venceu sem arrogância, mas antes com a simplicidade e a modéstia que são o timbre mais marcante da sua vida pessoal, tanto no plano universitário, como no desempenho profissional, como até na sua expressão social e familiar.
Aqui peço vénia ao Magnífico Reitor, para, rompendo o protocolo, dedicer uma palavra, também de elogio a sua Mulher, esteio inquebrantável e seguro de Tomé Ribeiro, ao longo de todos estes anos de porfiada luta pelo ideal de criar e fazer crescer uma Gastrenterologia Universitária de grande nível no plano nacional e com indiscutível reconhecimento internacional.
Consolidada a Unidade de Gastrenterologia, Tomé Ribeiro pôde dar o seu contributo para com as duas instituições – o Hospital de S. João e a Faculdade de Medicina – que sempre estiveram a par, na sua dedicação e no seu empenhamento.
Para Tomé Ribeiro, receber, diagnosticar e tratar doentes é uma tarefa indissociável de ensinar gastrenterologia aos alunos e aos internos. Na Unidade, à medida que o número de colaboradores aumentava, as funções de ensino e de assistência clínica eram oferecidas a todos e as opções de carreira eram cuidadosamente ponderadas para que cada  um chegasse onde quisesse e onde pudesse, pelo trabalho profissional, pela investigação e pela actividade docente.
Assim, quando foi chamado, pelo voto dos seus pares, foi membro da Direcção Clínica do Hospital de S. João e, durante o último ano do mandato (1989), foi Director Clínico. Recordo bem – e perdoar-me-ão esta referência pessoal – que foi sob a sua Direcção e com o seu empenhamento que pude criar a primeira Comissão de Ética Hospitalar, constituída com total independência dos órgãos de direcção e administração hospitalar, como mandavam as regras internacionais; Comissão que, por proposta sua, coordenei durante vários anos.
Em 1990 é eleito Director da Faculdade, presidindo ao Conselho Directivo durante todo o mandato de 3 anos.
Ficou esta Instituição a dever-lhe uma Direcção firme mas conciliadora, sem arrogâncias, descabidas entre colegas, sabendo ouvir com paciência, conciliar com diplomacia e decidir com firmeza.
Estas grandes responsabilidades no Hospital e na Faculdade assumiu-as Tomé Ribeiro, como uma missão de serviço, alheia a jogos calculistas de poder pessoal ou de grupo, porque nunca o poder pelo poder fez parte das suas aspirações como médico hospitalar ou como docente universitário.
Ver crescer ainda mais a sua Unidade de Gastrenterologia, acoplada ao Serviço de Medicina do qual é Director como Professor Catedrático, essa sim, é, até hoje, a sua grande aspiração.
Não se poupou a sacrifícios pessoais, nem ao exercício de funções ligadas à Gastrenterologia, como presidir ao Colégio de Especialidade durante 4 anos, ser membro da Direcção da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, durante 14 anos e Presidente durante os dois anos de mandato eleitoral, presidir ao Núcleo de Hepatologia desta Sociedade durante outros 2 anos e ainda presidir, também por 2 anos, à Associação Portuguesa para Estudo do Fígado. Estas e outras  responsabilidades e encargos, assumiu-as Tomé Ribeiro – pode perguntar-se – por vaidade pessoal ou para exibir títulos num currículum vitae?
Porque o conheço bem – e aqui a amizade não me impede de ser justo – sei que não.
Fê-lo, apenas, para que a sua Unidade de Gastrenterologia fosse respeitada por intermédio da pessoa do seu criador e seu responsável e porque, em consequência, outros membros da Unidade foram sendo eleitos para cargos de idêntica responsabilidade nas instituições nacionais e muitos começavam a circular nas grandes reuniões internacionais, nas quais os trabalhos de investigação da Unidade eram muito bem acolhidos e, algumas vezes, premiados.
Magnífico Reitor, ilustríssimos Doutores, Senhoras e Senhores convidados.
Escapasse-me o tempo para poder enunciar todos os méritos do Currículum de Tomé Ribeiro, que são fundamento e justificação deste Elogio Académico.
Destaquei o homem de acção que soube ler o futuro e ser-lhe fiel com coragem, determinação e confiança, sabendo merecer a sorte – que é o prémio dos audazes.
Deixei um pouco na sombra o pedagogo, sendo certo que todos os seus alunos louvam a clareza e o rigor das suas aulas, sempre actualizadas e enriquecidas com resultados de investigações pessoais e do seu grupo, alguns dos quais continuam hoje a ser uma referência como os que estabeleceram a prevalência em Portugal da hepatite pelo vírus A. Também não salientei as brilhantes, mas sérias argumentações em provas públicas de doutoramentos e concursos, em Portugal e até em Espanha, a algumas das quais pude assistir.
Na área da investigação deveria, ainda, ter citado, com louvor, as teses de doutoramento que são de sua orientação, as últimas três em fase de conclusão. Na formação de Especialistas, a sua Unidade de Gastrenterologia tem 8 internos sendo o Serviço Nacional mais procurado para a obtenção de formação pós-graduada em Gastrenterologia.
São tudo factos que falam por si e todos a louvarem as qualidades de Tomé Ribeiro.
Mas para que ninguém venha a falar sem saber rigorosamente do que fala, Tomé Ribeiro escreveu já a História da Unidade de Gastrenterologia, ao lado da História da Cadeira de Clínica Médica e dos seus Mestres, da História da Hepatologia em Portugal, da História da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia e até da História do Ensino da Medicina em Portugal.
Não pretendi, nestes breves minutos, fazer a história do Prof. Tomé Ribeiro e do seu papel nas duas instituições às quais dedicou a sua vida, a sua inteligência e os seus afectos.
Quis, apenas, assegurar, ao Magnífico Reitor, aos Ilustríssimos Doutores e a todos V. Exªs, Senhoras e Senhores convidados, que Tomé Ribeiro é um digno Padrinho do novo Doutor Michel Kremer.
Tenho dito.

 



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