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Passados alguns meses encontro a serenidade necessária para evocar a memória de Victor Faria, companheiro de muitos anos na vida académica e profissional e meu sucessor nas responsabilidades de ensino e de gestão nos Serviços de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina e do Hospital de S. João.
Devo-lhe este tributo. Por muitos anos estivemos lado a lado, eu um pouco mais adiantado na carreira, ambos sob a direcção firme e um pouco autoritária – como era de uso na época –, do Prof. Amândio Tavares.
A carreira académica, pela qual, Victor Faria, muito cedo se decidiu era, então, imprevisível, porque, concluir, com êxito, uma tese de doutoramento, não dependia apenas – digo mesmo, nem principalmente –, das condições de trabalho e da inteligência dos candidatos. Fazer e defender tese com sucesso era um percurso sinuoso, cheio de desvios e armadilhas, onde a vontade de quem mandava na área ou no Serviço era factor absolutamente determinante. Os candidatos a doutores eram peças de uma estratégia que sempre visava, a longo prazo, a sucessão na cátedra, tida esta como um non plus ultra, um lugar cimeiro ao qual só raros chegariam e, supostamente, os melhores.

Assumi, sem o poder fazer, é certo, que o Victor haveria de doutorar-se e ser Professor. Da conversa que com ele tive – uma destas conversas que só se têm uma vez, porque definem um futuro, fixam um compromisso e marcam uma trajectória – resultou que assumíamos, em conjunto, o risco, até à Jubilação do Prof. Amândio Tavares e que no caso – então apenas provável – de eu, em 1970, lhe suceder, a responsabilidade da sua carreira passaria a ser minha e eu responderia por ela.
Porque procedi assim? Por ter verificado, desde os primeiros gestos e atitudes de Victor Faria, como Assistente, que se tratava de uma pessoa que reunia um conjunto de qualidades que fariam dele um grande professor de Anatomia Patológica – como foi, durante muitos anos – e um excelente Director de Serviço, como o foi, noutra área hospitalar, as Análises Clínicas e, no curto lapso de tempo que Deus lhe deu, em Anatomia Patológica.
Não vou ser exaustivo na enumeração dessas qualidades porque são muitas e a personalidade de Victor Faria era mais complexa do que aparentava a uma observação superficial. Falarei das mais marcantes e mais ligadas ao seu percurso académico e profissional.
Victor Faria era inteligente. Tinha uma inteligência analítica, rigorosa e algo tímida. Avesso a toda e qualquer ostentação pública.

Como o seu trabalho de tese desenvolvia com o uso da poderosa resolução de imagem conferida pelo microscópio electrónico – instrumento de cujo uso, em Patologia, foi pioneiro, em Portugal –, um problema deixado em aberto na minha tese de doutoramento (que era o da colestase intra-hepatocitária), muitas vezes, na discussão dos seus resultados, me criticava, chamando-me a atenção para aspectos que, no meu trabalho, tinham sido mal analisados; ou analisados com excesso de imaginação que não agradava à sua inteligência, analítica e rigorosa.
Também era uma inteligência ponderada. Por vezes, em reuniões da nossa especialidade, quando jovens investigadores exibiam conhecimentos ou conceitos de fresca data, incluídos num artigo do Human Pathology, por exemplo, a sua intervenção, ponderada e prudente (sem ser céptica porque o cepticismo pode ser apenas o disfarce da ignorância), mostrava os limites e dificuldades que o autor do artigo, o qual Victor Faria, obviamente, tinha lido também, deixara na sombra ou tratara com ligeireza.

Estas características da sua inteligência revelam-se nos trabalhos publicados, em especial na tese de doutoramento e nas suas publicações sobre patologia ultraestrutural do glomérulo renal. E quem ler a tese de doutoramento de Mário Reis, a quem pacientemente orientou, encontra lá, no componente de morfopatologia, a marca da inteligência de Victor Faria e do seu rigor analítico.
Porque era inteligente era um excelente docente com bem avisada pedagogia e uma didáctica transparente. Falando com facilidade não usava nunca esta qualidade para dar aulas mal pensadas ou menos rigorosas e soube sempre dosear a apresentação aos alunos da iconografia morfológica;  abusar da imagem é a grande tentação do morfologista à qual é fácil ceder porque é mais cómodol mostrar imagens por si próprias, do que elaborar sobre elas e explicar o seu sentido.

Preparava as aulas com antecedência e muito cuidado, porque nunca foi adepto de improvisações, mas a aula proferida fluía com limpidez e espontaneidade e sempre com linguagem rigorosa que roçava o perfeccionismo.
Em muitos aspectos era de facto perfeccionista e assim adquiria segurança. Dou um exemplo. Quando começou a trabalhar no único microscópio electrónico então existente na Universidade do Porto, no Campo Alegre, aprendeu as regras da manipulação e uso deste instrumento, na época num modelo Siemens que tinha o seu “temperamento” e não gostava de principiantes que cometiam erros nas manobras necessárias para que a imagem pudesse ser captada. O Doutor Teixeira da Silva, que o iniciou como a muitos outros utilizadores de outras Faculdades, disse-me sempre que o Prof. Victor Faria cumpria com tal rigor as instruções que nunca por culpa dele, o microscópio deixou de trabalhar; e uma vez, porque o turno de utilização de Victor Faria era nocturno, passou toda a noite junto ao aparelho para poder explicar a Teixeira da Silva, de manhã, uma alteração de “comportamento” daquela máquina melindrosa e ficar seguro que não era resultado de nenhum erro seu.

O culto da perfeição estava ligado ao seu gosto por objectos antigos, de qualidade, que escolhia com conhecimento aprofundado das suas características. Os relógios, por serem máquinas de perfeição e rigor na medida do tempo, eram os seus preferidos.
Sobre ser inteligente, Victor Faria era um homem culto mas não exibia a sua cultura – histórica, literária, artística... – fora de um círculo limitado de sólidos e antigos amigos, junto dos quais se sentia livre para se exprimir, sabendo que seria compreendido e respeitado. Não era um diletanteamador, mas tinha uma particular circunspecção e quase um pudor de mostrar o muito que sabia de áreas fora da sua área científica e profissional. Algumas vezes detectei um sorriso de irónica compreensão quando assistia a exibições públicas dos que, pouco ou quase nada sabendo, não se coibiam de falar de temas dos quais Victor Faria era profundo conhecedor; sorria e não se dispunha a corrigir os dislates certamente por entender que era tempo perdido.

Victor Faria era, acima de tudo o mais, um homem de carácter, de um carácter firme, feito de lealdade absoluta à verdade e de activa recusa de manobras, de jogos ambíguos, de armadilhas, de traições.
Ao longo de dezenas de anos de convívio fraterno e em muitas situações – algumas bem dramáticas –, beneficiei da segurança de saber que, mesmo contra os seus interesses pessoais legítimos, Victor Faria estaria sempre do lado da verdade e da lealdade porque era uma pessoa de carácter íntegro que nada nem ninguém poderia nunca manipular.
Nas suas relações com os outros partia do princípio que todos eram, como ele, pessoas de carácter e agia em conformidade, em clima de confiança e de transparência. Quando era forçado a acabar por reconhecer que se tinha enganado sofria um profundo desgosto e, muitas vezes, procurava até encontrar uma explicação que fosse, ao menos em parte, desculpabilizante para outro. Mas quando verificava que os comportamentos desleais eram premeditados e organizados, denunciava-os e saía de cena com a sua dignidade de homem de carácter ainda acrescida, se tal fosse possível.

Todos lhe somos devedores por este exemplo e eu muito particularmente. Nos difíceis equilíbrios que, quem dirige, sempre tem de procurar criar entre os pequenos poderes, instalados ou emergentes, que se degladiam entre si, tomei decisões que, no curto prazo, podiam parecer contrárias ao que era o seu legítimo e melhor interesse. Nunca me criticou mas admito que tenha tido dúvidas. Vê-lo Director de Serviço após a minha Jubilação, sem dever a ninguém este lugar que ocupou por mérito próprio e pelo reconhecimento geral das suas qualidades foi, para mim, a certeza de que não faltei ao meu compromisso inicial e que escolhi as estratégias correctas para o honrar.

Em todas as funções de Direcção que exerceu no Instituto Português de Oncologia e no Hospital de S. João evidenciou notáveis qualidades de organizador e mesmo de planificador em sentido arquitectónico. Tinha um senso excelente da ocupação dos espaços e encontrava soluções felizes e simples para gerar instalações adequadas ao trabalho que nelas se haveria de realizar, optando por soluções pragmáticas de execução rápida em vez de se deixar envolver por planos grandiosos que nunca seriam executados. E não foram, podemos hoje afirmá-lo.
Como gestor de pessoal a sua regra era a confiança na honestidade e na verdade dos outros sem nenhuma exibição de poder ou de autoritarismo. Cioso respeitador das hierarquias legítimas, sem subserviências, como foi durante toda a sua vida, esperava merecer o mesmo respeito, sem necessidade de o lembrar e, muito menos, de o exigir.

Fiel aos seus compromissos só assumia os que, em sua recta consciência, pudesse cumprir e nunca se afadigou a procurá-los ou a atrai-los .
Mas os que a ele recorriam, para apoio em publicações ou teses, sabiam, à partida, com o que podiam contar, desde que cumprissem, com lealdade e qualidade, a parte que lhes cabia. Caso contrário encontrariam a sua porta delicadamente fechada.
Constituiu família quando entendeu que podia dar à sua mulher e companheira e aos filhos que viessem, o tempo e o empenhamento que, segundo os seus valores, a família exige de quem a constitui.

Não faltou a este dever, como não faltou nunca a nenhum de outros deveres que livremente assumiu. Sendo muito reservado na exposição da emotividade pessoal via-lhe os olhos húmidos quando me contava os sucessos dos seus dois filhos, no Secundário e na Universidade e antevia, para ambos, um futuro brilhante, na Economia e na Medicina. O clima de liberdade e de responsabilidade que soube criar para o desenvolvimento da sua estrutura familiar tinha de dar bons resultados – e deu.
A vida humana é, em cada um de nós, limitada no tempo e por isso a devemos cumprir com intensidade e rigor.
Sob uma aparência calma e ponderada, Victor Faria viveu, no tempo que lhe coube, com intensidade e rigor.
Deixou marca firme nos que o conheceram bem, gerou confiança nos que seguem o seu exemplo e uma dolorida saudade nos que amou acima de tudo – a sua Mulher e os seus Filhos.
Comigo estará sempre presente.
A Vida não acaba, Victor, apenas se transforma. 

Daniel Serrão


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