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Com todo o respeito pelas ilustres personalidades que, em tão grande número, nos honram com a sua presença, as minhas breves palavras nesta cerimónia de apresentação do seu livro são, contudo, para si, Maria Augusta Silva.
E são duas perguntas.

  • Tem a noção de que “inventou” um novo género literário?
  • Sabe que escreveu o livro definitivo sobre Corino de Andrade?

Vou explicar-me melhor.
A biografia é, reconhecidamente, um género literário. Há as auto-biografias, em regra narcisistas e insuportáveis, distorcidas pelo viés da auto-psicografia, e há as hetero-biografias, escritas por amigos, familiares, discípulos, correligionários políticos, cívicos ou religiosos, que todas oscilam entre o panegírico do herói e o panfleto da ideologia.
Também há foto-biografias quando o biografado teve o cuidado de se registar em imagens e de as arquivar cuidadosamente ad posteritatem.
Peguei no seu livro, Maria Augusta, li-o apaixonadamente, de fio a pavio, e fiquei surpreendido. Tem fotografias mas não é foto-biografia; não é panegírico de amigo, familiar ou dependente, não faz juízos de valor do alto de uma postura ética, de uma convicção religiosa ou de uma doutrina política – é, para mim, um género novo ao qual vou chamar, com algum atrevimento, “Biografia global”. Porquê global?

Porque a Maria Augusta desenha, com pinceladas de mestre, que me fizeram lembrar o Van Gogh da última fase, um grande afresco, dinâmico de Portugal e da Europa, desde os anos 40 até aos nossos dias, afresco pelo qual Corino circula, fala, gesticula, intervém, é interpelado pelos outros e pelas circunstâncias e é julgado, avaliado, elogiado, criticado, por esses outros e pelas tais circunstâncias. Das páginas do seu livro, escritas com um inexcedível rigor de investigação jornalística, emerge um Corino vivo, de corpo inteiro e espírito solto, irónico, mordaz e ás vezes sensível, terno, emocionado até ás lágrimas. A Maria Augusta acompanha-o discretamente, com subtileza, com cuidado; e até com algum pudor quando aflora, na intimidade de Corino, o mistério da morte e os segredos da vida intelectual e afectiva dos humanos.

Claro está que Corino não é figura solitária neste esplêndido afresco mural e global que é o seu livro. Lá estão os antigos e os novos, os do Alentejo, de Estrasburgo, de Lisboa e do Porto, dos Açores e da Póvoa de Varzim, os que lhe são próximos e os que o contemplam à distância, todos nas posturas adequadas a cada um, mais entusiásticas ou mais serenas, e tudo sobre um fundo azul revolto tormentoso como em Van Gogh e que é o Portugal governado por Salazar, é a 2ª Grande Guerra, é o 25 de Abril e é a Segunda República Democrática Portuguesa.

É um novo género, Maria Augusta; género tão exigente na investigação e confirmação dos factos e das fontes, tão complexo na organização de todo o material recolhido, tão delicado na tessitura do fio do discurso que a tudo dará encanto de leitura e lógica formal, tão generoso na ocultação do autor para que o biografado seja verdadeiro protagonista, que não prevejo que este novo género de biografia global venha a ter muitos cultores entre nós. Para já saudamos o primeiro com o louvor e o respeito que merece.

A segunda questão, Maria Augusta, é agora quase tautológica: está escrito o livro definitivo sobre Corino Andrade. Ninguém o poderá ignorar no futuro, não será nunca ultrapassado, nem ficará “démodé” com a passagem dos anos.
Corino está nele e nele permanecerá com a sua forma peculiar de estar na vida e nos tempos em que lhe coube existir, com o seu universo relacional de pessoas, animais, culturas e paisagens, com as suas paixões, os seus desgostos e os seus triunfos.
Corino Andrade tem o livro biográfico definitivo que merecia.

Parabéns, Maria Augusta Silva, pelo seu talento e pelo seu trabalho. E também pela sua coragem criativa.



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