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A Arquitectura é uma arte subtil que começa no espírito e termina na matéria.
Sempre me acontece, ao contemplar exemplares materiais do exercício desta arte, passar, de forma irresistível, daquele objecto intencional para o movimento espiritual que o criou.
O Homem distingue-se dos animais, mesmo dos que lhe são mais próximos como os simpáticos Primatas, porque “tem o mundo na sua cabeça”. De facto, a percepção humana, e só ela, é simbolizadora e comunica por símbolos exteriores que marcam a capacidade específica e única da mente humana. Simbolizar é atribuir ao mundo percepcionado um sentido que o objecto exterior, inventado, vai transmitir do eu para os outros.

Dominado pela ditadura opressiva e expressiva da linguagem falada e escrita, o homem moderno quase não repara na força comunicativa de tantos outros objectos intencionais que estão à sua volta e “falam”com ele.
Reconheço que alguns destes objectos, criados há dezenas de milhares de anos, são de “leitura”, hoje, difícil; mas veicularam, no seu tempo, uma mensagem, inteligível para homens que não eram ainda falantes mas teriam, seguramente, reconhecimento de episódios e comunicação mimética gestual, rítmica e vocal. O Cromelech de Almendra, por exemplo, com seus monólitos graníticos é o que resta, por imperecível, do que teria sido uma obra da arte arquitectónica, construída e embelezada com outros materiais que a usura do tempo fez desaparecer. Os antropólogos e os arqueólogos esforçam-se por descobrir a intenção daquele objecto cultural; mas só o acesso, hoje impossível, ao interior espiritual dos homens que o criaram permitiria decifrar o seu sentido e, claro está, a sua utilização.
Esta opacidade significante não deve assaltar-nos quando contemplamos os objectos arquitectónicos dos nossos tempos – um edifício, uma ponte, uma escultura.

Porque o artista, o arquitecto, nos transmite pela palavra escrita ou falada, o seu significado?
Não.
A estética da obra arquitectónica é secreta, existe apenas na intimidade do arquitecto que a criou. E é quem contempla a obra que tem de passar do aspecto funcional ou plástico para a simbolização que é, por sua própria natureza, transcendental ao objecto criado.
O nosso primeiro movimento é emocional e afectivo – gosto, não gosto, é-me indiferente. Mas logo a seguir temos de partir para uma segunda leitura em que aquele objecto arquitectónico se confronte com a nossa memória cultural e também sensitiva e sensorial. Das profundezas do sub-consciente e, até, do inconsciente emergem, sobem à auto-consciência, conteúdos memorizados, de muitas origens e naturezas os quais envolvem a imagem perceptiva do objecto e desvelam o segredo, do seu valor simbólico, para cada pessoa que o contempla.
Raras vezes o segredo é descoberto com a primeira “leitura” visual e, quase sempre, é preciso saber muito para que a verdade estética se torne real na auto-consciência. É paradigmática desta necessidade de saber para compreender a arquitectura grega dos tempos áureos da cultura helénica. De pouco vale vê-la, quando vê-la é só olhá-la e nada mais.

Mostrar os objectos arquitectónicos é um dever de quem os cria porque só vendo é que podemos partir para o apaixonante exercício de passar da matéria e das formas para o espírito criador e a simbolização significante.
Este livro abre-nos o caminho para a contemplação e a descoberta de uma obra e de um autor e vai, certamente, induzir-nos a uma fruição directa e completa dos objectos arquitectónicos nele apresentados.
Merece, por isso, um agradecimento sincero.

Daniel Serrão


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