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VP – Um autor...
DS – Fernando Pessoa, sempre, em prosa e em poesia, porque obriga a pensar, a criticar os lugares-comuns, a descobrir, nas palavras dele, “a importância misteriosa de existir”.

VP – Uma descoberta...
DS – Na minha área, a descoberta da estrutura do ADN ou ácido desoxiribonucleico, chamado depois molécula da vida. No princípio parecia ser um simples exercício de química estrutural que contrariava dogmas estabelecidos. Depois veio a tornar-se a mais poderosa descoberta da bioquímica das células vivas e nem a decifração completa do genoma de tantas espécies vivas e do homem acabou com a espantosa fecundidade científica desta descoberta dos jovens Watson e Crick, hoje já septuagenários e decorados com um Prémio Nobel.

VP – Uma comida...
DS – Não sou capaz de ir a parte nenhuma por causa de uma comida. Mas, se calhar ir a Monção, às Jornadas Teotonianas, não digo que não a um arroz de lampreia, que o fazem lá muito bem na época própria.

VP – Um valor...
DS – A solidariedade voluntária, na medida em que é a marca do amor pelos outros; pelos que não conhecemos nem julgamos, pelos de quem não esperamos nada, principalmente qualquer agradecimento; a solidariedade com direito a notícia no jornal e entrevista na televisão, essa é um anti-valor e só exprime a insuportável vaidade dos ricos que são tolos.

VP – Um objecto...
DS –
Um sílex talhado que tenho em casa. Quando lhe pego, tão bem ajustado à minha mão, faz-me pensar na alegria do Homo Faber ao descobrir a relação fundante entre o cérebro e a mão, com o espírito emergente a hominizar um corpo ainda pouco dócil.

VP – Como consegue conciliar todas as suas responsabilidades, viagens e ocupações, que certamente não são poucas, com a sua vida familiar?
DS – Consigo e sempre consegui. Eu tenho uma vida familiar extremamente feliz. Nesta altura somos 21 membros: filhos, filhas, genros e 8 netos. O que pode prejudicar uma família é o facto de haver ruptura entre pais e filhos. Pode também haver alguns desentendimentos entre marido e mulher, mas devem ser facilmente superados. Muitas vezes aponta-se como causa o desinteresse ou afastamento dos pais que querem passar o tempo a ver televisão e não ligam aos filhos. Ou então, pelo contrário, dão-lhes uma atenção tão excessiva que os abafam completamente. Eu procurei ao longo da minha vida, com a ajuda da minha mulher, uma bissectriz entre estas duas possibilidades. É verdade que tinha pouco tempo. Mas o tempo que tinha era de relação intensa com os próprios filhos. Ainda hoje continuo a reunir toda a família ao sábado ou domingo para o almoço e tudo se discute em conjunto.

VP – O que significa para o Sr. Prof., como patologista, ter já analisado cerca de 1 milhão e 400 mil peças no seu laboratório?
DS – O Laboratório está encerrado e por isso ninguém poderá achar que a sua pergunta e a minha resposta são publicidade encapotada. Foram 27 anos de intenso trabalho profissional e de serviço à comunidade, tanto mais que acumulei a actividade privada e convencionada com o serviço público, universitário e hospitalar. A demissão por saneamento selvagem, em Junho de 1975, forçou-me ao exercício profissional privado, para sobreviver e sustentar os seis filhos. Um ano depois reintegraram-me, pagaram-me os doze meses em que estive fora da Faculdade e do Hospital e um Ministro da Educação apresentou-me desculpas públicas, mas o mal estava feito. Como patologista privado pude ajudar muitos colegas a lançarem-se na mesma actividade privada e a terem sucesso e pude ainda dar melhor vida a quem trabalhou comigo.

VP – Que reflexos têm, para o Sr. Prof. e para a sociedade em geral, as várias condecorações que já recebeu por distintos serviços prestados a diversas instituições, ao Governo e ao País?
DS –
Nunca aceitei nem aceitarei quaisquer condecorações. Gostei de receber o Prémio Nacional de Oncologia, a Medalha de Ouro de Serviços Distintos do Ministério da Saúde e a Medalha da Câmara Municipal de Vila Real, cidade onde nasci. Mas o melhor galardão foi a Medalha de Mérito Militar, concedida pelo Ministério da Defesa, por proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas em Angola, sem ter morto ninguém e tendo salvado algumas vidas, porque permitiu que nenhum dos meus seis filhos pagasse propinas no ensino público até à conclusão dos cursos universitários. As condecorações, em regra, são para alimentar vaidades serôdias e, salvo algumas excepções, não significam nada, nem para o próprio que as recebe, nem para a entidade que as outorga.

VP – Como consegue e onde se inspira para tratar e abordar com facilidade e brilhantismo qualquer área do saber, não coincidentes com a sua especialidade?
DS –
Comecei a ler muito desde o 4º ano do liceu porque não havia outras distracções. O meu pai era um funcionário público remediado e, em Aveiro, devorei quase todos os livros da Biblioteca Municipal. Com esta base e com alguma facilidade para o raciocínio filosófico fui construindo uma cultura um pouco desordenada que cresceu em paralelo com a aprendizagem da profissão médica e a investigação científica em patologia morfológica.

VP – É sabido que é um homem de fé, pessoa crente, e que bem rege a sua vida pela humildade e simplicidade. Como e quando celebra esta fé em Cristo Jesus?
DS –
Fiz a instrução primária num Colégio de Religiosas em Viana do Castelo e vivi a Fé simples da infância. Aos 14 anos reneguei tudo e fui ateu militante até receber, aos 16 anos, de novo e subitamente, o dom da Fé. Não mais deixei de aprofundar o mistério do Espírito Santo (que havia recebido pelo Crisma, aos 12 anos, sem nada perceber; mas pude, depois, recordar a nave escura da Igreja de S. Domingos, a cruz, com o óleo, na minha testa e o beijo no anel do Arcebispo de Braga). Do Espírito Santo que se mostra na palavra de Cristo mas também na Fé que se celebra todos os dias e a todas as horas na simplicidade da comunhão natural com os irmãos e na humildade de não sermos dignos bastante como templos do Espírito Santo.

VP – Qual a razão de Fernando Pessoa ser para o Sr. Prof. o seu companheiro na luta contra a rotina intelectual, contra a escravidão do trabalho monótono e contra a falsa tranquilidade das ideias feitas?
DS –
Tinha 17 anos quando Pessoa, ele próprio, veio ter comigo e disse-me “Emissário de um rei desconhecido eu cumpro informes instruções de além …”. Depois foi um deslumbramento que ainda não acabou porque continuo a descobrir muita coisa nova. Mas é só entre nós, não é para ser contado. As grandes amizades têm sempre um aspecto secreto e, por isso, indizível.

VP – Sei que o Sr. Prof. alimenta um carinho muito especial pelo Papa João Paulo II e que o seu último encontro com ele foi, para o Sr. Prof., o mais comovente. Que imagem e mensagem lhe transmite esta personalidade única e exemplar em toda a História?
DS –
Também é quase indizível. A audiência pessoal que uma vez por ano o Papa João Paulo II concede a cada membro da Academia Pontifícia para a Vida, tem sido para mim, desde 1994, uma ocasião sublime de comunicar com uma pessoa que, pela força do Espírito Santo, “renovou a face da Terra” e de pressentir como o mesmo Espírito Santo agiganta um corpo, cada vez mais débil, ano após ano. A audiência de 2004 será a 19 de Fevereiro, se Deus o permitir. João Paulo II globalizou a Fé em Cristo, tornou sedutoras, para os jovens, as Suas Palavras, fez-se entender e amar por todas as culturas, deixando bem claro que o Povo escolhido por Cristo é toda a Humanidade e não apenas a Europa onde primeiro floresceu o Cristianismo. Dando ao Papado, como instituição, uma missão de serviço e não de poder, abriu o caminho para a Unidade de todos os cristianismos numa mesma comunhão de Fé e criou o espaço necessário para o diálogo com a Tradição Hebraica e o Islão. A visita aos Lugares Santos, a mensagem colocada no Muro das Lamentações judaicas e a entrada, descalço, na Mesquita, foram gestos tão fortes que não podem deixar de dar frutos no futuro com as novas gerações de crentes das três grandes religiões abrahâmicas.

VP – Li numa revista um artigo do Sr. Prof. em que referia que todos nós devemos ser pacificadores. Qual a forma original de sê-lo num mundo controverso e sedento de paz?
DS –
Não há paz em abstracto; as relações humanas é que podem ser pacíficas ou conflituosas. Se todos formos pacificadores, as nações não poderão tornar-se conflituosas entre si, nem matarem em nome de Deus como acontece, diariamente, na Terra Santa. Ali, onde Cristo nos deu a paz, parece que uma possessão demoníaca leva os homens a matarem-se uns aos outros. Mas, se cada judeu e cada palestiniano fosse um pacificador e gerasse à sua volta a paz e não ódio, o perdão e não a vingança, a lógica infernal de olho por olho e dente por dente, ficaria esvaziada e a paz desceria sobre aquela terra que Cristo percorreu há pouco mais de dois mil anos, dizendo “dou-vos a paz, deixo-vos a minha paz”. Porque é que não a querem receber?

VP – O Sr. Prof. defende que a clonagem terapêutica tem objectivos e aplicabilidades diferentes da clonagem reprodutiva. Afinal para quê a clonagem e em que consistem estes dois tipos de clonagem? Que repercussões podem ter futuramente?
DS –
A clonagem, como da ovelha Dolly, que morreu nova, na idade, porque já estava velha biologicamente, é um processo técnico por meio do qual uma célula do corpo adulto, com sua diferenciação própria, pode ser forçada a regredir até um estado semelhante ao estado embrionário e desenvolver-se como um novo organismo, crescendo no útero durante um tempo igual ao tempo de gestação de um embrião verdadeiro.
Não tendo havido fecundação e projecto de parentalidade, este produto de manipulação celular não pode merecer a dignidade biológica, ética, jurídica e teológica do embrião e não deve ser assim designado, do meu ponto de vista.
O risco de poder ser usado para a reprodução justifica a proibição do processo de clonagem que tenha por objectivo a reprodução de um ser humano já existente, vivo ou morto. Deve ser proibida a reprodução humana por clonagem mesmo não sabendo hoje se é possível na espécie humana e oxalá nunca se saiba.
Utilizar células deste produto biológico que não resultou da conjugação de óvulo e espermatozóide, para uma investigação científica que poderá um dia produzir benefícios no tratamento de algumas doenças não me parece eticamente condenável, desde que o seu uso para tentativas de reprodução esteja interdito com toda a segurança. O que não pode dizer-se é que esta clonagem deve ser permitida porque é terapêutica o que é falso. Não há nenhuma terapêutica a partir das células deste produto biológico laboratorial, nem sabemos se um dia virá a haver.
O meu ponto de vista favorável ao seu uso na investigação biológica resulta da minha convicção de que não está ali nenhum embrião, porque este merece-me um respeito absoluto. Outros pensam de modo diferente e eu respeito-os.

VP – De A a Z... Aborto...
DS –
O maior abuso exercido sobre um ser humano indefeso e vulnerável.

VP – Bioética...
DS –
Pode ser a grande utopia deste Século XXI se for orientada para a paz entre os homens e o respeito por todas as formas de vida.

VP – Cancro...
DS –
É uma doença curável quando diagnosticada a tempo. Vale a pena ter cuidado.

VP – Deontologia...
DS –
Regula as decisões dos profissionais para o benefício de todos.

VP – Ética (Médica e Social)...
DS –
Marca, no mundo moderno, o respeito pelos valores individuais e sociais e pelos direitos universais da pessoa humana.

VP – FMUP (Fac. de Medicina da Univ. do Porto)...
DS – Vivi nela e para ela durante 52 anos, com muita intensidade, com horas exaltantes e outras não; foi a minha segunda família e, às vezes, a minha mulher achava que era a primeira. Encerrou-se para mim em 1998, definitivamente, mas o encerramento começou em 1975.~

VP – Gravidez...
DS –
Imagino que é o acontecimento vital mais importante na vida da mulher e sei que se derrama em ondas de felicidade por toda a família. A mulher grávida merece o máximo respeito e tem direito a ter os seus caprichos e a vê-los acolhidos com amor.

VP – Hospitalidade...
DS –
Grande tradição de acolhimento que se vai perdendo quando só há duas assoalhadas. É um remédio contra o egoísmo e pode ser um bálsamo para a solidão.

VP – Interacção...
DS –
Elemento psicológico essencial no processo educativo.

VP – Jovialidade...
DS –
É a alegria dos filhos de Deus que estão de bem consigo próprios e com os outros.

VP – K (comportamento)...
DS –
Não gosto do K, é espúrio na nossa grafia e sempre um pouco (K)afkiano.

VP – Liberdade...
DS –
Ubi libertas, ibi spiritus Dei. Onde estiver a liberdade aí estará o espírito de Deus. Porque será que tantos abusam desta palavra?

VP – Madre Teresa de Calcutá...
DS –
Encontrei-me com ela uma vez em Roma e chorei. Foi a única Santa viva que pude ver até hoje.

VP – Namoro...
DS –
O enamoramento é um tempo de leveza e felicidade. Começa na adolescência e pode praticar-se até ao fim da vida.

VP – Optimismo...
DS –
O meu é incurável e ajuda a encontrar o lado bom que sempre existe.

VP – Patologia(s)...
DS –
Há muitas e algumas evitáveis. Deixe de fumar que economiza dinheiro e poupa-se a muitas patologias.

VP – Qualidade de Vida...
DS –
Conceito ambíguo que tem servido para muitos abusos contra a vida. A eutanásia, para os holandeses, é para “melhorar” a qualidade de vida.

VP – “Recomendações para uma reforma estrutural”...
DS –
Conheço um livro com este título, ajudei a escrevê-lo mas acho que poucas pessoas o leram. Ou se o leram não o dizem a ninguém.

VP – Sida...
DS –
Uma desgraça individual, familiar e social. Em África é uma tragédia que em dez anos pode fazer desaparecer países inteiros. O casamento monogâmico e fiel dá protecção absoluta.

VP – Tuberculose...
DS –
Renasceu como infecção oportunista nos doentes com Sida e vai alastrando. Droga, sida e tuberculose são o triângulo fatal dos que recusam a aceitar limites ao prazer físico. Morrem como os que não aceitam os limites de velocidade nas estradas.

VP – “Um saneamento exemplar”...
DS –
Hei-de contar a história mas só quando não tiver nada de mais importante para fazer. Foram só doze meses. …

VP – Vila Real...
DS –
Lá nasci, na freguesia de S. Dinis, bem no centro da Vila. Transmontano com muita honra e com os defeitos e as qualidades dos que ficam para cá do Marão.

VP – Xenofobia...
DS –
É uma estupidez. O programa do genoma mostrou que todos os seres humanos são iguais em todos os pontos da Terra. Não há senão uma raça na espécie humana. E parece que tudo começou na África Oriental, há uns sete milhões de anos.

VP – Zelo (apostólico e profissional)...
DS –
Cultivá-lo é um dever; mas realizá-lo é difícil. Só os outros podem decidir quem é zeloso e quem é descuidado. Aos grandes apóstolos queima-os o zelo pelos que podem perder-se nos caminhos desta vida. A um simples cristão, como eu, basta-lhe, às vezes, um pequeno êxito para se julgar homem de grande zelo. Valha-me S. Cristóvão que, com apurado zelo, ajudava os outros a atravessarem o rio da vida até que atravessou com Cristo aos ombros para a Eternidade.

Entrevista realizada por:
André Rubim Rangel 
rangel@aeiou.pt



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