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Só a generosidade do convite me forçou a aceitar este tema – a linguagem e o desenvolvimento humano – porque ele é o mais difícil e o mais radical no campo das doutrinas antropológicas modernas e nenhum grupo de investigadores encontrou uma proposta que suscite aceitação consensual ou mesmo alguma tolerância nas divergências.
Não vou procurar uma terceira via porque correria o risco de desagradar, simultaneamente, a gregos e a troianos. Valendo-me da hábil e inteligente estratégia descrita na narrativa homérica vou tentar chegar junto da belíssima Helena, a palavra, entrando na bem amuralhada cidade da linguística, escondido no bojo de um grande cavalo, que é a neuro-biologia. Para não ser visto pelos que sabem, da matéria.

Valerá dizer-vos, então, que o meu tema, esta minha Ilíada e Odisseia, é a neuro-biologia evolutiva do desenvolvimento humano e a invenção da palavra.
Não tendo, claro está, nem a sabedoria nem o senso estético de Homero, o meu poema de aproximação à palavra será uma prosa insípida para a qual peço, desde já, a vossa benevolência neste 3º Dia Mundial da Voz Humana.
O ser humano foi, durante milénios e milénios, um animal não falante mas uma animal comunicativo.
A vida na savana, há sete ou oito milhões de anos, não era nada fácil. Arranjar comida e procriar, as duas obrigações biológicas em ordem à sobrevivência da espécie, eram actividades de alto risco para o Australopitecusafarensis e para o Homo erectus que lhe sucedeu; por isso logo concluíram que a vida como seres solitários seria impossível de conservar e criaram bandos com uma socialização rudimentar baseada na comunicação mútua.
Na comunicação, como? E de quê?

A resposta a estas interrogações, que vou dar com o pormenor possível no tempo de que posso dispor, procura acompanhar o desenvolvimento humano desde o Homoerectus, que terá aparecido, muito semelhante, nos seus desempenhos, aos actuais e muito estudados primatas não humanos, até ao Homo vocalis, como lhe chama o reconhecido foniatra Jean Abitbol, o qual foi quem abriu o caminho para o formidável desenvolvimento do Homo sapiens e por fim do sapiens sapiens.
A percepção do mundo despertava no cérebro, ainda limitado, do Homo erectus apenas emoções estéticas, sem palavras; nós, homens actuais, ao contemplar uma paisagem, uma aurora boreal, um pôr-do-sol que parece incendiar o céu antes de mergulhar (visualmente) sob a linha do horizonte, sentimos uma intensa emoção estética e a nossa expressão é: não há palavras. E, de facto, não há porque o Homoaestethicus é muito anterior, no tempo, ao Homo vocalis.

Mas uma vez em grupo, os seres humanos desse tempo muito recuado usaram as vocalizações guturais – as únicas possíveis com a estrutura que, à época, tinha o aparelho fonador, com laringe ainda muito alta e a língua fixada ao osso bióide, também alto – para comunicarem conteúdos emocionais elaborados a partir das percepções sensitivas sensoriais e extrasensoriais, com um sentido muito elementar mas concreto, ligado a estratégias de sobrevivência individual e de grupo. Esta comunicação vocálica associada a expressões faciais, ao movimento dos membros e de todo o corpo e, finalmente, ao ritmo de todos estes meios de expressão comunicativa conduziram os seres humanos a um patamar evolutivo marcado por uma cultura de comunicação que Merlin Donald designa por cultura mimética. A riqueza e variedade das expressões miméticas corporais, em especial as da face, como que relegaram para segundo plano as expressões sonoras laríngeas que eram usadas, como o são hoje, por exemplo nas tribos Maoris, para as canções rituais, já designadas por Darwin como “canção rudimentar”. De toda a evidência o uso da voz, na canção rudimentar, vai utilizar o ritmo mas é, ainda, em uso prosódico e não um uso fonético; modula sons mas não transmite conteúdos significantes, mesmo que, ainda e apenas, emocionais.

Dou por adquirido que Lieberman está certo quando afirma que a linguagem simbólica, ou seja, o uso de palavras portadores de um sentido ou significância e de frases que enunciam acções, teve a sua origem na fala humana; sendo que a fala humana, digo eu, é um aperfeiçoamento evolutivo da simples guturalização vocálica ou grito modulado. Suspeita-se que a melhoria e desutilidade da emissão vocálica resultou de uma mais ampla capacidade visuo-motora resultante da posição da cabeça na bípede estação conseguida pelo erectus. Mas esta melhoria anatómica não explica a transição do grito para a fala, ou seja do simples sinal para a atribuição de um sentido a um som porque esta atribuição é que é a autêntica natureza da fala humana e a sua radical especificidade. Transformar um som expirado numa palavra é depositar sobre este som um conteúdo significante “inventado” pela actividade neo-cortical a partir das percepções sensitivas, sensoriais e extrasensoriais.

Tenho dito e escrito muitas vezes, e vou repetir-me porque este é um auditório privilegiado, que a palavra primordial, a primeira de todas as palavras há-de ter sido um monossílabo vocálico, gutural, puramente laríngeo já que, na época, o ser humano não dispunha senão da laringe e de um controle elementar muscular da fenda glótica para emitir o que hoje conhecemos como as cinco vogais e, certamente, com uma escala tonal ainda muito limitada.
O grito gutural era um precioso instrumento de comunicação, para aviso dos perigos e garantia de sobrevivência, servindo de elemento de socialização de uns tantos machos e fêmeas e prole, vagueando no interior das florestas ou nas margens dos rios. O grito gutural de aviso era emitido para quem o pudesse ouvir, não tinha um destinatário específico, era para o grupo e pelo grupo.

Parece-me razoável imaginar que o ser humano durante todo o período de Australopitecino, de Homo erectus e Homo faber não se aperceberia da falta de elementos do grupo, machos ou fêmeas, comidos por uma fera, afogados num rio ou simplesmente mortos por doença. Quero dizer que a morte de membros do grupo, minimamente socializado e nómada, não era objecto de percepção individual porque a noção de outro e a noção de eu, simplesmente não existiam ainda. Sei que nos é, hoje, difícil imaginar este estado de não consciência do eu próprio e do tu, mas contemplemos o comportamento das crianças até aos dezoito a vinte e quatro meses de vida, que não falam, mesmo que balbuciem e repitam palavras que, para eles, são sons sem sentido linguístico, e a forma como se relacionam com os outros seres humanos à sua volta, nomeadamente em termos de presença ou ausência no seu círculo de contactos. Nem sequer estranham as faltas, embora saúdem as presenças.

Com o início da fixação, mais prolongada, a certos espaços naturais onde a sobrevivência individual era mais fácil de acordo com a flutuação anual do clima, terá acontecido a percepção do corpo morto de um dos membros do grupo, já semi-estável e com uma consciência rudimentar de grupo. Esta descoberta do morto é a descoberta de um outro, igual ao que descobre, mas diferente, no comportamento, do que descobre. Deste modo, a observação do corpo morto força o observador a identificar a diferença e a identificar-se a si próprio como um eu que se opõe ao outro. Um eu que conhece e um outro que é conhecido. Esta nova capacidade que rapidamente terá evoluído da percepção de um outro morto para a percepção do outro vivo, de todos os outros vivos, foi assinalada pela emissão de um som gutural monossilábico, gritado aos quatro ventos: eu!
Este som gutural monossilábico é, na minha perspectiva, uma proto-palavra, porque ele transporta na sua natureza material de grito, um sentido abstracto que é o da individualização, ou individuação.

Esta proto-palavra terá 150 a 200 mil anos e abre uma fase evolutiva dos hominídeos que continua a desenvolver-se nos nossos dias e que pode resumir-se nesta frase para a qual chamo a vossa atenção: o cérebro humano passou a saber transformar as percepções cognitivas em conteúdos com sentido, em ideias, e a representar as ideias por símbolos ou significantes.
Direi agora que o primeiro de todos os símbolos ou significantes foi a palavra oral e a primeira de todas as ideias foi a ideia de identidade pessoal, da independência do homem face ao mundo natural que incluía os outros seres humanos.

Este novo homem, agora sapiens, sabe que não é apenas natureza e projecta o conhecimento da natureza numa realidade ainda hoje virtual que é o eu consciente. Toda a cognição é referida ao eu consciente onde é arquivada por intermédio das ideias que a representam e das palavras que significam a ideia gerada pela percepção.
Esta extracção da natureza, tornada possível pela individuação que, no meu ponto de vista, é marcada pela proto-palavra, eu, está assinalada no mito hebraico da saída do chamado “paraíso”, que era o mundo natural, e na descoberta do corpo próprio e do corpo do outro como corpos nus. De facto a descoberta do corpo próprio e a sua representação interna, foi, certamente, o passo dado a seguir à individualização, ao eu abstracto, e permitiu dar-lhe um suporte concreto – eu sou um corpo.
Logo a seguir veio a descoberta radical: eu sou um corpo falante, tu és um corpo falante, podemos comunicar.
Mas comunicar o quê?

Conteúdos abstractos da nossa consciência perceptiva, da nossa cognição, representados por palavras.
Foi tão extraordinária esta descoberta que durante milhares e milhares de anos a fala não era usada para os negócios da vida quotidiana, como talhar e aperfeiçoar o sílex, moldar e cozer o barro molhado, transformar, pelo fogo, a terra negra em ferros aguçados e por aí fora, porque o habilis não precisava das palavras para executar todos estes desempenhos, bastava-lhe bem a comunicação por mimesis gestual. Então as palavras, tal como a proto-palavra ou palavra primordial e como desenvolvimento do que nela foi essencial que foi comunicar a descoberta da individualidade pessoal, então as palavras, dizia, vão agora ser usadas para transmitir conteúdos abstractos da auto-consciência.
A primeira e a mais aliciante função da palavra terá sido a de nomear, a de dar um nome aos objectos reais do mundo natural transformando-os, por representação verbal, em designações abstractas. Também o Génesis assinala este patamar evolutivo ao descrever como o homem identificou todos os animais da terra com um nome, por inspiração de Iavé. Nomear é conhecer.

Por um longo período – e ainda hoje – a palavra goza do privilégio de ser expressão dos conteúdos que fluem na autoconsciência, quer estes conteúdos sejam representações, baseadas na cognição do mundo natural, quer sejam invenções da inteligência, já reflexiva e simbolizadora, própria do sapiens sapiens, o que sabe que sabe, porque toda a sua sabedoria é expressa por palavras que são os símbolos verbais das ideias abstractas.
Não admira, pois, que a palavra tenha sido usada principalmente para a narrativa dos grandes mitos fundacionais dos grupos humanos, já organizados em povos, sendo que a organização e a coesão do grupo ou povo era garantida pela auto e heterovinculação ao conteúdo do mito explicativo e fundacional, constantemente narrado pelas palavras proferidas pelos condutores ou chefes do Povo.

O povo Koyukon que habitou o Alaska e hoje está confinado ao noroeste do Canadá, muito estudado por Córdova – Rios, este povo inventou uma linguagem que parte da reprodução vocálica dos sons da natureza e dos sons emitidos pelos outros animais, sons aos quais atribui um sentido. Deste modo a linguagem construída com estas palavras exprime a vinculação do homem ao mundo natural e a todas as criaturas vivas. É como se, na metáfora bíblica, o Homem ainda estivesse a viver no Paraíso terreal, mas a preparar-se para sair. Sairá logo que invente palavras bastantes para com elas construir um mito interpretativo da natureza que o envolve, explicativo desta envolvência vinculativa e finalmente justificativo da libertação do vínculo.

Os índios Koyukon, estudados a fundo por Richard Nelson, um etnobiologista que viveu e trabalhou no interior desta tribo (ou povo) durante alguns anos, acreditam que animais e plantas – ou seja o mundo natural – partilhavam com os humanos uma linguagem comum. Isto acontecia no “Distant time” que pode traduzir-se pela expressão bíblica “Ao princípio”. Reconhecendo, individualmente e como grupo, que, agora, no tempo presente, estão exteriores à natureza viva, vegetal e animal, e ao mundo inerte, mantêm, com a natureza viva e com o mundo, uma ligação por intermédio das narrativas orais, repetidas geração após geração, nas quais se exprimem os mitos da origem dos seres humanos no mundo natural. No mito hebraico, por exemplo, o ser humano sai, directamente, da Terra, por intervenção de um poder transcendente; noutras mitologias há um intermediário animal, ou mesmo vegetal, cujas virtualidades expressivas, em termos de movimentos e sons, geraram um ser falante do qual descendem todos os humanos actuais.

Poderia continuar esta linha de análise porque é muito rica a informação que podemos ir buscar à heterocronia do desenvolvimento humano, em todo o globo terrestre, a qual possibilita o estudo actual de seres humanos reais, mas separados por dezenas de milhares de anos na temporalidade do desenvolvimento. Mergulhar no interior do continente australiano ou de uma das mais de mil ilhas da Indonésia e observar os seus habitantes actuais vivendo com eles, como fez David Abram, é como estar a assistir à emergência da expressão oral significante humana que, na Mesopotâmia, entre o Tigre e “aquele grande rio Eufrates”, terá acontecido há 20 ou 25 mil anos.
A archeo-biologia da linguagem oral é a única via, a meu ver, para a compreensão desta capacidade que, ao evoluir para uma estrutura flexional, primeiro oral e depois escrita, marcou de uma forma absolutamente radical o desenvolvimento humano.
A questão-chave, como já assinalei antes, é a questão do sentido que a inteligência humana deposita sobre o som, depois sobre a palavra, depois sobre o léxico, criando uma linguagem.

Na minha perspectiva, que não posso aqui explanar convenientemente, quando foi inventada, por um certo sujeito humano a mais simples de todas as linguagens, o que terá acontecido é que do nível um, perceptivo, gerador do conhecimento individual de um acontecimento intra-mundano, o sujeito passou ao nível dois e criou um símbolo apropriado para a representação do conhecimento, ou seja uma palavra, e projectou-a para o exterior pela fala. Num ambiente já léxico, como acontece com as crianças rodeadas de falantes, a descoberta do sentido da fala vai-se desenvolvendo progressivamente até que a memória dos sons se ajusta ao sentido e a criança se transforma num falante. As múltiplas, quase infinitas, percepções, da criança já no período intra-uterino e nos primeiros meses de vida até à eclosão da fala, permitiram-lhe construir o que Johnson Laird designa por “módulos cinemáticos tri-dimensionais do mundo” ou, mais simplesmente, modelos mentais. Primeiro a criança usará os módulos mentais para referências extra-linguísticas e sobre esta base, vai construir a referência propriamente linguística e simbólica, ou seja, vai poder comunicar ao outro o sentido inventado para a percepção de base.

Então, no início, haveria tantas semânticas quantos os indivíduos falantes e nada poderiam fazer em comum, nada que ultrapassasse a eficiência comunicativa da “linguagem” mimética. Por exemplo, construir uma torre que permitisse atingir os céus ou seja, na metáfora bíblica, atingir o conhecimento de Deus, seria possível, com um léxico e uma semântica comuns. Como esta mútua aprendizagem só se conseguiria com grupos relativamente pequenos a metáfora conclui-se dizendo: “Eles constituem apenas um povo e falam uma só língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos pois descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não se compreendam uns aos outros. E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da Terra. Esta metáfora da origem das linguagens parte de um núcleo comum, rudimentar, que era a simples fala e chama a atenção para a importância da percepção da natureza, diversa, na geração de linguagens, obviamente, também diversas.

Uma linguagem comum seria, assim, no mito hebraico, a alavanca fundamental para erguer o desenvolvimento humano em diferentes povos e chegar ao conhecimento da Transcendência.
Direi aqui, entre parêntesis, que uma globalização real, em todos os aspectos, do desempenho humano, só acontecerá quando todos os humanos, em todas as regiões do mundo falarem uma só linguagem, ao menos oral. Visto que o esperanto defraudou as esperanças dos seus criadores, o mais provável é que seja a linguagem inglesa a funcionar como o motor da globalização real.
Terminarei abordando um difícil e controverso problema: que relação existe entre linguagem e pensamento no desenvolvimento humano?
Para quem exclui a variável tempo e analisa as formidáveis capacidades da inteligência humana moderna, tudo é visto como dependente, estritamente, da palavra falada e escrita, do discurso intelectual interpretativo e comunicativo, criador de toda a cultura exterior simbólica.
Os que assumem esta postura consideram que a inteligência humana se realiza na fala e na escrita e como que se confunde com estas duas capacidades humanas; o surdo-mudo e o analfabeto ou iliterato são olhados com comiseração e vistos quase como se não possuíssem as características mais nobres e específicas da hominização.
Eu não os acompanho

Em comunicação à Academia das Ciências de Lisboa, em 1993, dedicada à poesia de António Gedeão e à geração, ou invenção, da palavra, afirmei:
“A fala é específica do homem mas não é ela que marca a hominização. Durante muitos milhares de anos, os homens, tal como os antropóides actuais, corriam na savana comunicando, entre si por gritos modulados e ritmados, audíveis até uma distância crítica que lhes era conhecida. A expansão dos efectivos de cada grupo vai obrigar ao alongamento desta distância e, consequentemente, à produção de um som progressivamente mais agudo, capaz de ser reconhecido a maior distância exercendo a sua função de defesa e de orientação do outro.
Esta pressão adaptativa sobre o aparelho laríngeo, associada às progressivas modificações ósteo-musculares do chamado aparelho supra-glótico, ao desenvolvimento da capacidade infra-glótica, muscular, diafragmática e pulmonar, de expulsar ar através da fenda glótica e à capacidade de modificar as dimensões e a forma desta fenda, tornou possível modular e ritmar o som laríngeo primordial – verdadeira base anátomo-fisiológica para a geração da palavra.
Mas a palavra, a geração da palavra como complemento e depois substituição das representações visuo-gráficas e do grito modulado, pressupõe a adopção ao nível das redes neuronais e de órgãos periféricos sensoriais, de uma ligação acústico-verbal; a palavra falada responde e corresponde ao som ouvido, analisado e interpretado no seu valor semiótico de símbolo puramente sonoro.”

Afirmo, portanto, sem ambiguidade que, antes da emergência da fala, a inteligência humana dispunha já da capacidade simbolizadora e de comunicação. Toda a cultura megalítica é cultura de símbolo e comunicação. Apenas conhecemos os grandes símbolos de pedra que resistiram aos séculos: mas tudo o que existia em materiais infelizmente perecíveis não teria uma capacidade de simbolização e comunicação muito superior a antas, dolmens, menires e cromleches?
Certamente que sim e a invenção visuo-gráfica torna-se simbólica e comunicante, muitos milhares de anos antes da emergência da fala e mais tarde de uma escrita fonológica. A palavra serviu e serve, ainda hoje, para a representação simbólica de ideias abstractas. Mas a capacidade da representação simbólica das percepções durante o longo período da cultura mimética atesta que o cérebro humano tinha capacidade de pensar, simbolizar e comunicar antes da emergência da palavra.

A palavra trouxe aos humanos eficiência e rapidez na comunicação dos conteúdos da consciência perceptiva e das metodologias de invenção simbólica visual, sejam elas pictóricas, ideográficas ou fonológicas. A fala e depois a escrita permitem hoje representar os três tipos de invenção simbólica pela palavra que é, simultaneamente, símbolo e signo ou significante. É certo que, como propõe Carlos João Correia na sua tese: “Ricoeur e a expressão simbólica do sentido”, há uma função simbólica “imagética” com a qual se constroem imagens sem nenhuma referência explícita à subjectividade e há uma função simbólica “reflexiva” que procura integrar as percepções na actividade do sujeito humano que percepciona o mundo exterior.
A linguagem, como mediador hoje privilegiado da relação entre o homem e o mundo acaba por influenciar o pensamento porque ela é ensinada não como um símbolo mas como um sinal. A palavra é a realidade, cola-se ao objecto que nomeia e acaba por ser, para a inteligência reflexiva moderna, não a representação do objecto mas o próprio objecto.

Escapam a esta ditadura da palavra ensinada e memorizada os poetas autênticos, aqueles que usam as palavras como símbolos de segundo grau, atribuindo-lhes um sentido novo, inventado para a sua função no poema, que por isso é sempre um discurso metafórico, alegórico, verdadeiramente neo-simbólico. Pessoa é um exemplo claro deste conceito, em particular nos seus poemas ditos esotéricos, mas que percorre toda a sua poesia.

Para honrar o valor da palavra na linguagem poética, linguagem que tanto contribui para o desenvolvimento espiritual do homem na sua dimensão uraniana, como lhe chama Mircea Elíade, ou seja, transcendente, termino com o último dos três sonetos que Pessoa dedicou ao túmulo de Christian Rosencreutz. Entenda-o quem puder entendê-lo.

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.>

Conferência na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, 16 de Abril de 2005



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