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Discurso do Dr. Rui Cernadas (Vice-Presidente da ARSN, IP)

Exmº Senhor Professor Daniel Serrão
Exmº Senhor Dr. Miguel Guimarães
Exmº Mestre Adelino Ângelo
Exmª Senhora Drª Nassalete Miranda
Exmos Colegas
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Escrevia um outro transmontano:
“É escusado. Ou se lavram estes montes a instrução e a higiene, ou então não vale a pena um médico perder a vida aqui.”
Esse homem, Adolfo Correia da Rocha, nascido em 1907, era Miguel Torga e era médico como muitos de nós...

Evoco-o porque o Professor Daniel Serrão, nascido em 1 de Março de 1928, em Vila Real, pareceu escutar tal conselho…
Como o tempo o provou, é demasiado grande para a sua terra.
Completou o liceu, o então designado Curso Geral dos Liceus, em Aveiro. Depois de ter frequentado os liceus em Viana do Castelo e em Coimbra…
Em 1951, licenciou-se em Medicina, tendo-se doutorado em 1959.
De 1967 a 1969, está em Luanda, no Hospital Militar, como médico anatomo-patologista.
De regresso ao Porto, em 1971, torna-se Professor Catedrático de Anatomia Patológica.

O Professor Serrão fará para sempre parte da memória de quem teve a felicidade de o ouvir dissertar, reflectir ou ensinar o que nos abriu novos horizontes ou fronteiras, transportando-nos a cada dia para um amanhã ainda entreaberto…

Diz-se “um optimista incurável”, o que explica a vivacidade com que nos põe encantados a ouvi-lo…
“O que o homem deixa quando morre… tudo exprime uma realidade que está para além do corpo físico, de um certo corpo físico que esse homem usou para viver o seu limitado tempo pessoal de ser homem”, escreveu em “Viver, Envelhecer e morrer com dignidade”!

O seu vastíssimo conhecimento é objecto de reconhecimento e admiração generalizadas.
Foi entre muitas citações possíveis e que não caberiam aqui, membro do Comité Internacional de Bioética da UNESCO, membro do Comité Director de Bioética do Conselho da Europa, da Academia Pontifícia Para a Vida, por convite do Papa João Paulo II, Coordenador do Livro Branco sobre o uso de embriões humanos ou Coordenador do Conselho de reflexão Sobre a Saúde!

E como já tive ensejo de escrever, sempre aberto ao dia de amanhã.
Escutei-o inúmeras vezes em múltiplas oportunidades e situações, deliciado entre todos os que o escutávamos, fascinados pelo seu pensamento e velocidade de discurso.
Sobre o cancro e as patologias mais díspares, ou a respeito do financiamento e investigação nas ciências da saúde, ou a propósito do doente terminal e dos cuidados paliativos, ou mesmo sobre temas e problemas da saúde pública, ou como sempre sobre questões da ética e da vida, ou sobre o testamento vital, sobre nós, a Medicina Geral e Familiar e as USF…

Recomendou, repetida e entusiasticamente, aos jovens médicos “uma enorme dose de utopia para acreditar na refundação do Serviço Nacional de Saúde”.

Permitam-me agora que, naturalmente, com a enorme honra e o grande prazer que sinto ao participar nesta Homenagem, mais uma Homenagem, conclua com a leitura da justíssima Mensagem do Exmª Senhor Ministro da Saúde, Dr. Paulo Macedo.

Mensagem do Dr. Paulo Macedo (Ministro da Saúde)

Exmo. Senhor
Professor Doutor Daniel Serrão

È com particular satisfação que tomei conhecimento da justa homenagem que a Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos decidiu em bom tempo fazer a tão ilustre personalidade.

Tenho o privilégio de conhecer pessoalmente o Professor Daniel Serrão, o seu pensamento e muitos dos seus escritos.  Homem da Cultura, da Ética e da Medicina. Áreas em que se distinguiu e em que sempre sobressaiu pela sua elevadíssima craveira.

Enquanto Ministro da Saúde gostaria de relevar especialmente as suas reflexões neste sector. Sabendo ler a realidade e ajustando o seu pensar e a sua reflexão à modernidade nos tempos de hoje, num exercício de especial lucidez e particular coerência.

Conhecer a sua opinião sobre os temas mais relevantes da política de saúde é inquestionavelmente um importante contributo para a ação da governação e um estímulo à manutenção permanente de um sentido critico como base sustentada da decisão política.

Infelizmente, nem todos têm a lucidez do Sr. Professor ao reconhecer a imperiosa necessidade de garantir a sua sustentabilidade a longo prazo e a responsabilidade de quem geriu o sistema nos últimos anos sobre tal situação.
No que respeita muito particularmente ao tema das carreiras dos profissionais de saúde concordo consigo e tudo estamos a fazer para que esta questão seja um dos temas chaves e estruturais de desenvolvimento do SNS.
Como entenderá, a crise que atinge a sociedade portuguesa não pode ser corrigido tão rapidamente como pretendíamos, mas posso afirmar-lhe que me empenharei pessoalmente na resolução deste dossier.

Já iniciámos um processo irreversível de diminuição muito substancial do recurso à prestação de horas e recusamos liminarmente o critério do preço mais baixo como o único critério de escolha. Já várias centenas de contratos foram realizados ao abrigo do acordo estabelecido há alguns meses permitindo um regime de trabalho mais racional e menos dependente de trabalho extraordinário.

Também no tema da contratação precária e do que constitui de subversão da natureza e a da essência do desempenho profissional não posso estar mais de acordo com o Sr. Professor, pelo que estão já a decorrer concursos para especialistas e para o grau de

consultor, prevendo-se também a abertura de concursos para assistentes graduados Séniores.
As suas palavras constituem um importante e relevante estímulo para continuar a senda de tentar reconstruir um SNS mais moderno e efetivamente sustentável.

É pois com particular satisfação que posso anunciar a decisão conjunta do Centro Hospitalar de S. João e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto na criação de um centro integrado agregando atividade de investigação, de ensino e assistencial ao qual será dado o nome de Centro Integrado de Patologia e Oncologia Professor Doutor Daniel Serrão.

Esta é mais uma homenagem da Saúde, do Hospital de S. João onde muito trabalhou no Serviço de Anatomia Patológica, do qual foi Diretor, e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto onde muito ensinou e investigou. Uma homenagem de alguns em nome de todos.

Para si, a minha expressão de grande estima e respeito

14-04-2013 (207KB)
Noticia no JN


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