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Seria pretensioso chamar conferência a esta introdução à projecção do filme previsto para esta noite que, em português, tem o título “No céu tudo é perfeito”.
Não encontro justificação para este título vendo o filme “eraserhead”, que a seguir comentarei, tentando decifrá-lo com algumas leituras pessoais, entre as muito possíveis. A leitura de que no Céu tudo é perfeito, não consigo, com segurança, propô-la.

Mas esta minha intervenção foi titulada “Conviver com a diferença” e a diferença poderá ser entre o Céu, onde tudo é perfeito, e a Terra, onde tudo será imperfeito. Conviver com esta diferença é viver, simultaneamente, na realidade e na esperança, no concreto e no imaginado, no presente e no futuro escatológico. Não é fácil.

Este trabalho, de viver com, cabe à inteligência humana que tem a capacidade única entre todos os seres vivos, de percepcionar o mundo exterior pelos órgãos e estruturas de sentiência, de captação do sensível e de inventar, com todas as tais percepções, um universo de representatividade abstracta, ao qual chamamos auto-consciência ou eu-pessoal.
O eu-pessoal é terra e céu, é imanência e transcendência, é cérebro e espírito. Esta convivência não é fácil, não foi nunca fácil, não virá jamais a ser fácil. É intrínseca à condição humana, penso eu, mas é exigente para todos os humanos.

A mitologia hebraica tentou explicar esta dificuldade como um defeito de origem: a invenção da transcendência como um poder, foi logo acompanhada pela negação desse poder e pelo estabelecimento de um diálogo entre iguais, o homem e a transcendência, reservando-se ao homem o direito de escolher, livremente, entre o bem e o mal. A assunção plena da liberdade em vez da submissão aos interditos da transcendência é vista, na mitologia hebraica, como um defeito original na natureza do homem pelo que este ficará, para sempre, portador de uma natureza decaída.
É curioso que uma leitura moderna desta narrativa mítica, à luz dos conhecimentos da antropologia evolutiva, leva à conclusão que a emergência da inteligência, minimamente representativa, dos hominídeos, desde há 7 a 8 milhões de anos, levou-os a sair do mundo natural e a criar, progressivamente e de forma autónoma, uma cultura exterior a esse mundo natural. Ora, como o Génesis identifica, a transcendência com a força criadora e dominadora do mundo natural e de todos os seres vivos que o habitam, toda a vida natural estava submetida à transcendência, ou seja, obedecia-lhe.

Sair deste mundo natural – onde tudo corria bem, segundo as leis da natureza, fixadas pela transcendência – foi afrontar a dita transcendência e assumir um estatuto decaído que, para todo o sempre, há-de ser fonte de sofrimento e de luta permanente, com a transcendência e com os outros homens; mas também de saudade angustiosa da vida feliz, fruída no paraíso da vida natural; daqui a esperança numa outra terra prometida onde a vida voltará a ser boa porque lá correria em abundância, sem trabalho pessoal, o leite e o mel, ou seja o alimento e a consolação; mais tarde a declaração, sem ambiguidade, de um outro judeu, de que, pelo Seu Corpo, a transcendência se mostrava fisicamente aos seres humanos e que estes a podiam encontrar, em si próprios, desde que olhassem o seu corpo como sacramento do Espírito transcendente, o qual se manifestará, no eu-pessoal, pela prática do bem e a recusa do mal, tudo se tornou muito mais difícil. A convivência agora é do eu-pessoal, consigo próprio enquanto corpo e enquanto espírito.

S. João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, místicos espanhóis do século XVI, levaram ao extremo este diálogo do eu-pessoal consigo próprio e com a transcendência, afirmando a percepção da presença, quase-física, desta transcendência, ressalvando, embora, a impossibilidade da transcrição verbal de tal experiência auto-consciente. Posição idêntica é ensinada pelos mestres da interpretação talmúdica e por muitos rabinos, ainda hoje; e constitui o cerne da componente esotérica da Ordem Templária. Na sua expressão gnóstica tem raízes muito anteriores ao cristianismo, expraia-se por toda a Idade Média e nos tempos modernos, reduziu inteligências tão poderosas como a de Care Jung. Ao gnóstico é dado conhecer “quem nós éramos e aquilo em que nos tornamos; onde estávamos e para onde a queda nos arrastou; para que tendemos; de onde somos resgatados; aquilo que é nascer e aquilo que é renascer”. Para Jung o gnosticismo derivaria das próprias estruturas constitutivas da psique individual e colectiva. Hans Jonas, nos nossos dias, afirma que a atitude gnóstica arrancou, no passado e arrancará, sempre, no futuro, como um grito de revolta do espírito humano contra a sua condição de miséria e finitude, enclausurado como está num corpo material finito.

Poderá este filme ser considerado como um exercício de percepção gnóstica, uma tentativa desesperada e dramática de ver para além do que pode ser visto pelos olhos humanos biológicos, de sentir para além do que as estruturas talâmicas e límbicas podem sentir e de compreender para além do que um especializado córtex frontal pode compreender. Só que a compreensão gnóstica, sendo indizível por palavras, é também difícil de transmitir por imagens porque nós não estamos preparados para extrair das imagens e da sua sucessão no filme um significado gnóstico.

Vamos, contudo, ter presente que do que o filme trata é de saber “quem nós éramos e no que nos tornamos; onde estávamos e para onde a queda nos arrastou; para que tendemos; de onde somos resgatados; aquilo que é nascer e aquilo que é renascer”.
Adianto já que as últimas imagens são uma visão gnóstica do renascer: viver na transcendência, a perfeição do amor.
Será, talvez, esta última imagem que deu motivo bastante para o título “No céu tudo é perfeito”.

Passemos, agora, ao comentário do filme.
Vi este filme e estarreci. Literalmente, estarreci.
Uma insuportável angústia me acometeu e ainda hoje me incomoda. Em duas noites, uma tempestade de sonhos desconexos e arrepiantes fizeram-me perceber a força das imagens que vão ver e a sua poderosa carga simbólica.
Já acordado, perpassaram pelo meu espírito, ainda perturbado, memórias de muitas situações nas quais a vida humana, individual ou social, é arrastada pelas ruas da amargura e encostada a um muro de absurdidade, de delírio, de lamentações.

Recordei, sacudido ainda pela violência e perplexidade de algumas imagens, a melancólica e conformada reflexão de um poeta que, depois de descrever uma imaginária, idílica, felicidade conjugal, termina assim:
“Mas isto, Ofélia, que era tudo para nós não era nada da vida. Da vida é isto que a vida faz. Sim, isto que a vida faz. Isto de tu seres a esposa séria e triste de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal.”
Falhado o sonho, falhada a felicidade.

Também recordei como chorei lágrimas verdadeiras quando, vi em filme, a obra prima de Arthur Miller que é a morte de um caixeiro viajante. Miller que viveu na adolescência, a derrocada financeira da sua família de judeus imigrados nos Estados Unidos, leva-nos a sofrer com o fracasso progressivo desse homem bom e sério que não conseguindo vender nada na nova sociedade emergente persiste em enganar-se a si próprio, vendo e vivendo numa realidade que não existia, de facto, e só se manifestava no delírio organizado pelo cérebro do decadente caixeiro-viajante.

Mas este estranho filme não trata de negócios nem de outras coisas menores das vidas dos humanos, mesmo sendo invenção de uma inteligência judaica, a de David Lynch. Trata directamente, cruamente, da vida e da morte, como dados brutos do existir humano que são anteriores e exteriores à sua percepção pela mente humana actual, reflexiva e simbolizadora; a vida e a morte, tal como poderão ser percepcionadas e conhecidas por um ser humano cujo crânio haja sido esvaziado da estrutura hiperformalizadora cerebral e, claro está, fora das categorias mentais de espaço e de tempo, de forma e de função. Também fora das categorias de real e de imaginado, porque todo o que for imaginado é, ipso facto, real.
As imagens iniciais sugerem que tudo se passará como se o crânio deixasse fugir o cérebro que nele se alberga; e lá mais para a frente uma decapitação súbita e brutal permitirá que do corpo restante algo possa emergir, possibilitando uma outra percepção vital após a morte cerebral pela decapitação. Há um sangue que transborda e envolve a cabeça caída no solo mas não a revitaliza.

Aos críticos actuais da adopção dos critérios da morte, como suspensão definitiva das funções do tronco cerebral, agradará esta insinuação de que o corpo poderá ainda sentir o mundo e construir imagens do mundo que nem por aparecerem absurdas serão menos reais para o quase-morto que as vivencia. Mesmo que tal suceda durante fracções de segundo do tempo formal dos relógios, como parece indicar ao longo de todo o filme, o uso do corte abrupto da imagem ficando, apenas, ou tudo branco, ou tudo negro.

Os espaços e a sua iluminação, as pessoas e os seus gestos, os raros diálogos quase todos non-sense, procuram e conseguem criar uma realidade paralela à do mundo racional, convencional, no qual nos movemos e que sabemos interpretar. Realidade paralela, não realidade oposta ou irrealidade. O que David Lynch pretende, penso eu, é forçar-nos a repensar os quadros formais da vida e da morte nos quais estaremos comodamente instalados e em paz connosco e com os outros.
Direi, assim, que muitas imagens são surpreendentes ou inesperadas ou misteriosas.

O frango, anunciado como especial e que dá sinais de vida no prato e por isso não será comido, ali está, sob o olhar sardónico de quem o preparou e o pasmo silencioso de quem o não comeu; ali está a arrastar-nos inexoravelmente, para um debate interminável sobre o canibalismo inter-específico, ou seja, sobre a utilização de seres vivos animais para a nossa alimentação ou o nosso prazer.
Comer o frango, sim – e porque não o gato siamês, o cão de companhia, o canário. Que horror, dirão.
Comer o espadarte e a corvina, sim; mas não o golfinho; o cabrito-montês sim, mas porque não o macaco rhesus ou o Orangotango. Credo …, dirão, isso é coisa de povos selvagens.

Mas, onde justificar e como justificar estas escolhas? Como haveremos de proceder se um frango, no futuro, no momento de o comermos agitar as patas no prato para nos fazer tomar consciência, como no filme, de que também ele é um ser vivo, com um ethos próprio, uma forma peculiar de ser e de estar no mundo e com o direito a poder cumprir o seu programa de desenvolvimento desde o nascimento? No ovo fecundado até à morte natural?
Onde justificar e como justificar esta arrogância grosseira de sacrificar outras formas de vida para o meu benefício?
Perpassa ao longo do filme um produto gelatinoso deixado pela jovem num hospital e que motivou até a estranha apresentação à família do presumível pai do produto e, por isso, noivo para casar.

Este produto gelatinoso tem sinais vitais, como por exemplo a temperatura corporal que é medida pelo pai para ver se está doente. Este produto, a princípio quase informe geme tão insistentemente que a mãe depois de lhe gritar que se calasse rejeita-o e abandona-o à canhestra competência do pai que não sabe o que fazer com ele.
A minha leitura dos episódios à volta desta forma gelatinosa, que mais tarde terá um pescoço e uma espécie de cabeça, é a da questão polémica da eliminação ou não protecção da vida incipiente como no caso de abortamento.
Mas o que trouxe logo à minha consciência afectiva e emocional foi a situação dos milhares de embriões humanos que jazem vivos mas congelados nos laboratórios que dão apoio às clínicas de fertilização artificial ou procriação medicamente assistida.

Na linha do filme, pergunto-me se haverá forma de sentir os sinais do seu sofrimento; ou se, pelo contrário, a melhor solução é, como o pai acaba por fazer, abri-los com uma tesoura (metáfora da destruição) e assistir ao derrame de material informe espesso e viscoso que acaba por submergir e silenciar a parte cefálica restante que ainda dava sinais de vida e de sofrimento?
Não sei …, não sabemos. Os olhos espantados do protagonista, o seu cabelo em torre e os gestos automáticos, quando noutras imagens retira do corpo da mulher e deita ao lixo estruturas que simulam fetos estirados, parece estarem a sugerir-nos uma cruel indiferença por essas formas de vida e pelo seu sofrimento.
Porque são consequência do amor pela mulher e este amor é, no filme, visto como um logro.

De facto, há uma outra mulher que vem consolá-lo afectiva e sexualmente quando o vê abandonado; mas pouco depois a mesma mulher dá sexo a quem lho paga. Vale a pena reparar como o pagante, satisfeito, de olhar lúbrico e irónico, contrasta com a expressão indefinida do olhar da mulher apanhada em flagrante, tudo sublinhado por um magistral jogo de luz, de claro-escuro, de sombras, da porta que se abre e logo se fecha após breves segundos de mútua contemplação.
Entretanto a massa gelatinosa vai gemendo e chorando e a sua forma, a princípio indefinida, começa a assumir uns contornos humanóides – lembro que no Hospital onde foi deixado pela mulher, havia dúvidas sobre se era ou não um feto humano – e a interpelar o pai com o seu choro e os seus gemidos; este contempla-a ora com afecto, ora com cólera até que decide, friamente abri-la com uma tesoura e expor outras massas informes, movediças, gelatinóides, direi quase obscenas na sua apresentação e no seu movimento deslizante.
A vida e a morte confundem-se numa representação plástica ambígua que sugere, sem negar ou afirmar.

Este filme, estranho mas poderoso porque não nos permite nem a indiferença nem o sarcasmo, também evoca o mistério das relações humanas e da sua radical opacidade.
Para além de uma caricatura do fingimento social, bem apresentada na cena da casa dos pais da rapariga onde é introduzido o futuro marido, tipógrafo em férias, obsequiado com um almoço de frango vivo e onde uma idosa, dependente, é alimentada com movimentos fingidos, temos a metáfora do profissional retirado. Nos raros diálogos entre os personagens só aparecem perguntas radicais que, ficam, quase todas, sem resposta lógica. Como a da mãe da jovem que pergunta ao estranho rapaz – tiveste ou não uma relação sexual com a minha filha.

A intensidade da pergunta e a aproximação do corpo insinuam que a mãe, ela própria, desejaria estar no lugar da filha.
Outras leituras são possíveis das enigmáticas imagens deste filme e da sua peculiar técnica de iluminação, de som e de montagem. Ao não ser descritivo nem lógico, mas emocional, transporta-nos para zonas cinzentas da nossa capacidade perceptiva e onde não se exerce o nosso poder de organizar as percepções visuais e auditivas num produto final racional e lógico.
Nesta zona cinzenta tudo é possível porque nela se confunde o sonho com a realidade.

Recordo Pessoa e com ele termino.

“Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.



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