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Vão, vagos, pela estrada
Cantando sem razão
A última esperança dada
À última ilusão
Não significam nada
Mimos e bobos são

              
Assim satirizou Fernando Pessoa, com a sua reconhecida crueldade analítica, este momento de fim de festa que hoje, aqui, estamos a viver.
E não é pequena responsabilidade, Senhor Presidente da República o encargo que afinal assumi de desmentir a leitura do Poeta, ao aceitar o convite para discursar (ou discorrer) nesta sessão académica; na verdade quando sob a alta presidência de V. Exª. se dão por concluídas as manifestações que evocaram os primeiros vinte e cinco anos de vida desta instituição, não desejo ser nem mimo nem bobo.

Ao generoso e inteligente empenhamento do Dr. Paulo Santos e do Prof. José Garrett fico a dever o ensejo de, com todos V. Ex.as, minhas Senhoras e meus Senhores, viver uns minutos de reflexão; reflexão sobre o que de mais profundo se oculta na vivência hospitalar.
Vago irei pela estrada, certamente sinuosa, de uma aprofundada meditação sobre o homem; o homem, doente, ou são, sujeito último que foi de todas as nossas diárias preocupações nestes vinte e cinco anos; e, também, sobre a vida e sobre a morte, verso e anverso da existência temporal, pano de fundo onde se recortam as silhuetas dos nossos gestos de diagnóstico e de terapêutica.

Vago irei, pela estrada. Aos que se decidirem, agora, a acompanhar-me não posso prometer um fácil caminhar; mas juntos talvez possamos atingir, por fim, um daqueles cumes luminosos por onde sopra "o grande vento límpido do mar".
O nosso Hospital. Ele aí está, massa imponente de betão armado; quilómetros de corredores, dezenas de salas abertas ao Sul, luminoso e soalheiro, blocos operatórios rutilantes de assepsia. Visto de noite, algumas vezes, me aparece como um grande navio iluminado que regressa de um feliz cruzeiro de gente rica.

Mas não é. As suas mil e trezentas camas são o limitado espaço físico onde, diáriamente, homens nossos iguais, nossos irmãos, sustentam o difícil diálogo saúde - doença que é algumas vezes, o grandioso diálogo vida - morte.
Embora restrito ao universo do homem enquanto doente, o hospital assume uma dimensão que transborda para além do seu suporte físico, do seu equipamento, do seu pessoal técnico e administrativo, até do seu orçamento. Ele é o lugar onde o homem, ao sentir ameaçada a estabilidade da relação sujeito-objecto-mundo, busca segurança, apoio e reconstrução. O Hospital entra assim, de forma irrecusável, na aventura histórica do devir humano.
Não é apenas um estabelecimento público prestador de serviços resultantes do exercício de uma certa tecnologia, nem somente uma repartição pública gerida por diligentes burocratas ministeriais. Ele, o Hospital, é um grande espaço humano onde se vive o mais rico e o mais difícil dos encontros - o encontro desigual entre médico e doente. Encontro desigual.

De um lado o médico - complexa figura na qual, mesmo na sociedade moderna, se condensam e se confundem elementos sócio-culturais de muito antiga e diversa origem: demiurgo como Prometeu, ele executa as ordens do criador mas um dia, rouba-lhe o Fogo para benefício dos Homens; rei, como Esculápio, ousa ressuscitar um morto, infringindo as regras dos deuses e é fulminado por Zeus; sacerdote distingue com Hipócratas de Cos a vis medicatrix naturae, ou seja, o grande equilíbrio sujeito-objecto-mundo; mágico, como Paracelso, lança as bases da fármaco-química moderna; cientista objectivo, amarra a hereditariedade à dupla ou tripla hélice de Watson e Crick, mas dá-lhe depois liberdade com Bárbara McClintock, prémio Nobel de 1963 pela sua descoberta dos genes saltadores.

Demiurgo, rei, sacerdote, mágico, cientista, o médico carrega aos ombros da sua fragilidade humana esta tremenda carga acumulada por milénios de história. Dificilmente a suporta no dia a dia do seu labor, nestes tempos de vida fácil e irresponsável, em que cada um julga poder despojar-se, sem risco, do seu passado biológico e cultural. Julga poder, mas não pode.
De um lado, o médico.
De outro lado, o homem-doente - estranha situação esta para o Senhor do mundo, o Homem, cúpula aprimorada de uma longa evolução que nos trouxe da profundidade das águas para a terra segura dos continentes e nos libertou da atitude rastejante para que, erectos e firmes, de cabeça erguida e mãos hábeis, pudéssemos um dia, algures nas margens "daquele grande rio Eufrates", partir de alto a baixo a unidade biológica do homem animal dividindo-a em sujeito e objecto; assumindo a consciência do eu oposto ao mundo. Quem pudera viver ou repetir esse instante supremo e fulgurante da hominização simbolizado por Miguel Ângelo naquele dedo que o homem, reclinado, ergue para o dedo criador de Deus, no tecto da Capela Sistina.

Quem pudera viver, ou repetir, esse momento luminoso em que o antropóide se viu a si próprio, assumiu a consciência reflexiva, pôde imaginar-se e pôde memorizar esta imagem, criada pelo seu cérebro, e traduzi-la por símbolos intencionais, agora exteriores ao seu próprio ser físico.
Com que emoção e orgulho, na ante manhã da hominização, o novo homem terá pintado ou gravado na pedra a sua figura, articulando sobre ela um som vocálico simples, tão simples como ainda hoje é em todas as línguas: eu, I, Ich, je, yo, io.....
Eu, homem, Senhor do mundo e de tudo o que nele existe...

A hominização teve, porém o seu preço. Cortada a vinculação absoluta ao mundo natural e às suas leis intrínsecas, o homem, imediatamente após o seu nascimento, tem de cumprir uma ciclópica tarefa: cada homem tem de conhecer, memorizar e interpretar o mundo que o rodeia; o mundo físico, o mundo animal e o mundo dos outros homens. Perdido o paraíso da vida animal, com seus estereótipos e suas regras quase automáticas de comportamento, o homem está agora condenado "a ganhar o pão com o suor do seu rosto". O seu cérebro tem de criar e estruturar uma imagem do mundo e é por esta imagem interior do mundo que o comportamento do homem se irá regular e não já pelos estereótipos do instinto.

Em cada momento então, o maravilhoso conjunto de estruturas receptoras de que o nosso corpo é dotado, capta toda a informação gerada no mundo exterior; não apenas os sons, a luz, os odores, a temperatura, a pressão, mas ainda o sentido de um olhar ou o significado de um sorriso, a beleza de um poema ou a crueldade de um assassinato; e tudo contribui, em cada momento, para a estruturação progressiva do mundo na memória do homem. E em cada momento, também, esse centro radical da individuação, esse eu com que um dia o antropóide se opôs ao mundo natural, tem de manter-se livre, sem vacilações, pronto para a leitura tranquila e segura da relação sujeito-objecto-mundo e por essa leitura pautar o comportamento adequado a cada situação.
Dois perigos, como no velho mito de Cila e Caribdis, ameaçam a segurança do Eu.
De um lado a memória da espécie.

Como que agarrados aos estereótipos comportamentais que o homem sempre está apto a exibir e que mergulham a sua origem na evolução filogenética, permanecem restos memorizados de situações biológicas marcantes da relação animal-mundo que precederam a hominização plena; estes resíduos arcaicos, como lhes chama Jung, obviamente inconscientes no tempo em que foram criados - já que a consciência reflexiva ainda não surgira - inconscientes permaneceriam se a espécie não sofresse o salto qualitativo da hominização. A relação animal-mundo é, como Lorenz tem exaustivamente demonstrado, muito rica em quantidade e muito fina e variada em qualidade. Mas a actividade, agora consciente, do conhecimento humano individual, esta avidez intelectual de saber que marca a inteligência do homem, sepulta, em cada um de nós, todo esse saber da espécie, sepulta-o sob o peso do saber novo do indivíduo, ganho com o suor do seu rosto.

Quando esse saber inconsciente da espécie, porém, aflora ao campo da consciência e perturba a serenidade do equilíbrio da relação sujeito-objecto-mundo; configura-se uma situação de risco; tudo pode resolver-se pela actividade onírica, transformando em sonhos esses resíduos da memória arquetípica da espécie; tudo pode resolver-se numa obra de arte – como demonstrou Azevedo Fernandes na sua inteligente análise do estranho poema "Regresso ao Paraíso" de Teixeira de Pascoais -; pode ainda essa situação de risco pessoal orientar alguns homens para comportamentos instintivos que os fazem chefes, caudilhos ou “condottieri” de outros homens, ou pode, finalmente, iluminar a serena sabedoria dos Mestres, aqueles raros homens que puderem, em suas vidas, assumir a memória da espécie e enriquecê-la e interpretá-la com a totalidade do saber adquirido. Em qualquer caso, tudo permanece no universo da "normalidade".

Mas se, em vez de aflorar, os conteúdos da memória instintiva invadem e ocupam todo o campo da consciência, o eu não mais retoma o equilíbrio - e o Senhor do Mundo tem de confessar-se doente.
Entre Cila e Caribdis...
Do outro lado o perigo está no mundo.
Ao sobrepor-se ao mundo natural, o homem como que assumiu o encargo de o gerir.
A apaixonante história da dispersão dos hominídeos pelos cinco continentes, reconstruída a partir da interpretação dos objectos culturais, ou seja, dos produtos da acção transformadora do homem sobre a natureza (as chamadas obras humanas não perecíveis), esta apaixonante história apresenta-nos o homem como um gestor perdulário, sempre confrontado com a necessidade de inventar novos processos para subsistir. A Terra, esta esfera de matéria incandescente, parcialmente arrefecida, foi pilhada do Árctico ao Antárctico por bandos humanos que deixavam, após a sua tumultuosa passagem, a morte, a deslocação e o deserto. Pouco a pouco, porém, à custa de morticínios sem conta e do uso do maravilhoso instrumento criador que é a sua inteligência, o homem domesticou animais e plantas para seu benefício, inventou instrumentos para sua comodidade, criou até objectos não funcionais para seu deleite e organizou-se socialmente para sua segurança física e psíquica.

As grandes migrações humanas deixaram então de ser pilhagens cegas, governadas quase só pelo mero instinto de conservação e passaram a ser autênticas expedições programadas; motivadas, é certo, pelo peso demográfico, mas orientadas já por uma cultura. Assim foi com os Celtas, dez séculos antes de Cristo; assim foi com as legiões romanas sob o génio político e militar de Júlio César; assim foi com a expansão marítima portuguesa desencadeada por D. Henrique, Mestre Templário, universalista, determinado e audaz.
Gestor perdulário, o homem, embriagado pela vertigem de usar a Terra, terá atingido, nos tempos actuais, os limites do seu milenário conflito com o mundo natural.
O segundo relatório para o Clube de Roma, recentemente publicado, intitulado significativamente "A Humanidade no ponto de Viragem", mede a extensão e a profundidade desta atitude de gestor perdulário do homem e anuncia como ela configura o risco de extinção da espécie humana.
Da má gestão dos recursos naturais resultam quase todas, ou mesmo todas as situações de doença de causa externa - desde o acidente de viação à infecção pelo bacilo de Koch.

A aparente agressividade do mundo natural, que tantas vezes obriga o homem a confessar-se doente, vencido pelo agente microbiano, pela radiação solar ou pela substância química, não é mais do que um epifenómeno resultante do assincronismo da hominização em termos planetários.
Este é o drama e mistério do Homem. Einstein é contemporâneo do chefe tribal hotentote que comunica com os seus súbditos por estalidos. João Paulo II viaja de jacto super-sónico para visitar os papuas, mal saídos do paleolítico superior. Os arranha-céus de S. Paulo estão implantados na mesma nação onde os índios Caduveus e Bororós se limitam à palhota no intervalo das grandes migrações ao longo dos rios Paraná e Paraguai em busca de alimento.

Profundamente divididos por estratos culturais, mais poderosos e significativos do que as decantadas diferenças económicas norte-sul ou ricos e pobres, os habitantes desta Terra têm de prosseguir tenazmente a sua viagem para a Terra prometida. E a terra prometida tão mítica quanto real, mais não é do que a da hominização plena: todos os homens e todos os povos renunciam aos esquemas de confrontação permanente e optam pela cooperação.
A confrontação representa o peso animal, o lastro darwiniano da nossa origem biológica, aquilo que na linguagem bíblica se designa por pecado original. Por força deste peso original o homem mata outros homens, atraiçoa, rouba, fere, insulta, persegue.

A cooperação, base de uma nova ordem mundial, não é fruto da selecção natural, mas antes o resultado de uma acção consciente e deliberada promovida pela inteligência livre dos homens livres: desembaraçado dos comportamentos animais o homo sapiens, verdadeiramente sapiens, viverá num mundo realmente construído à sua imagem de ser inteligente, de ser espiritual, - afinal à imagem e semelhança do Deus criador, consoante o texto da Promessa.
Cila e Caribdis, o passado genéticamente fixado e o presente potencialmente inóspito e agressivo, eis o tecido biológico, cultural e social onde se gera a situação de estar doente. E não apenas a doença psíquica, esse terrível desajuste têmporo-espacial, mas toda a doença física da mais banal infecção à neoplasia mortal.

Quando a Organização Mundial de Saúde define Saúde como "um estado de equilíbrio e completo bem-estar físico, mental e social" torna possível a definição de doença no contexto em que tentei analisá-la. Só que a doença não existe, é uma ficção pedagógica e didáctica; apenas existem as pessoas, doentes: aquelas pessoas que tomaram consciência de que algo estava diferente no equilíbrio sujeito-objecto-mundo e que essa diferença era intolerável para o eu-consciente, reduzia-o, confundia-o, minimizava-o, impelia-o a pedir auxílio. O eu, perdido num mundo que não reconhece e que o não reconhece, sente a ameaça vital.
Por isto chamei desigual à relação médico-doente. Dois homens se defrontam em momento singularmente rico, consciência a consciência, um vocacionado para ajudar, outro carenciado de ajuda. Como é tremenda a responsabilidade médica; como é solerte a tentação de o forte abusar do fraco.
Por isto tenho repetidamente afirmado que qualquer estrutura que preste cuidados de saúde, deve ter na área do atendimento médico das pessoas que se declaram doentes a sua mais importante organização; mais necessária, competente e humanizada quando se trate de atendimento urgente.

O estar doente é, em cada pessoa, um acontecimento biográfico não programado, sempre de génese multifactorial. Estar doente, declarar-se doente, é anunciar uma rotura do sistema complexo que harmoniza o homem com o seu ser físico e com os componentes do eco-sistema a que pertence.
Estar doente não é um ataque ou uma agressão; embora surpreenda o eu, como todo o acontecimento, estar doente é uma situação gerada no tempo e nas circunstâncias e compete ao médico deslindar o seu trajecto sinuoso e tantas vezes obscuro.
O atendimento médico, base essencial de toda a actividade clínica, é, ao mesmo tempo, um acto cultural e um exercício científico. Mas igualmente são actos culturais e exercícios científicos todos os momentos do diagnóstico, a grande intervenção cirúrgica, a passagem por uma Unidade Coronária ou por uma sala de Cuidados Intensivos.

Mil e trezentas pessoas no internamento, quase mil na Urgência e muitas centenas nas consultas externas esperam diariamente neste nosso Hospital de S. João esse encontro cultural e científico que é a entrevista médica e que nada pode substituir mesmo quando pareça uma rotina ou uma inutilidade.
Estas pessoas constituem um universo peculiar que tem, para nos oferecer, uma informação preciosa. Mostram-nos, se estivermos atentos, como amam e odeiam os que vivem junto de nós; neles se reflecte a justiça ou a injustiça da organização social, as virtudes ou defeitos do sistema educativo, as condições de habitação e de salubridade dos agregados populacionais, cidades, vilas ou aldeias, a boa alimentação ou a fome, o alcoolismo, a droga, a violência, a prostituição, a miséria física e moral, a agressividade do tráfego automóvel, algumas vezes as grandes tragédias naturais.

Microcosmos segregado por estas paredes de betão armado, nele fervilha uma intensa vida comunitária marcada por profundas diferenças e surpreendentes contrastes. Observando essa vida e nela compartilhando o médico enriquece diariamente a sua imagem do mundo, tão importante para o acto médico como os conhecimentos científicos ou a destreza técnica.
Por isso afirmei há pouco que o hospital não é, não pode ser, uma repartição pública gerida pelo orçamento do Estado. Um grande Hospital, como este nosso Hospital de S. João, é um universo de pessoas que a si próprias atribuírem um estatuto particular - o estatuto de estarem doentes -, que é uma forma particular de viver; e para o exercício desse estatuto, confirmado e mantido pelo médico, carecem de uma complexa infraestrutura hoteleira e de variado e dispendioso equipamento para apoio dos serviços de enfermagem e das atitudes de diagnóstico e terapêutica. Mas por muito perfeita que seja a infraestrutura hoteleira, actualizado o equipamento, correcta e carinhosa a enfermagem, se faltou o atendimento médico com as características de comunicação humana, a um tempo cultural e científico, o doente regressa ao seu meio, ao seu eco-sistema e lamenta-se: "estive lá quinze dias e não me fizeram nada, foi só pastilhas e injecções e obrigaram-me a engolir um tubo duas vezes". Mesmo que, neste tempo, a sua úlcera duodenal haja sido correctamente tratada no estrito plano científico.

O grande hospital, como este nosso Hospital de S. João, não pode ser uma repartição pública gerida pelo orçamento do Estado.
Ele é uma Instituição, vocacionada para prestar um serviço aos homens e como tal, tem de ser autónoma e inteiramente responsável pelas suas opções. O seu orçamento só pode ser o valor do serviço que presta, valor que tem de ser cobrado directa ou indirectamente a quem recebe.

Os que aqui trabalham vinculam-se a um estatuto de solidariedade humana que não é, exactamente, o estatuto da função pública. No dia em que a relação médico-doente for apenas um capítulo do Estatuto dos funcionários civis do Estado, o homem-doente terá perdido o seu apoio fundamental para a viagem de regresso ao estado de homem são, em equilíbrio consigo próprio e com o mundo que o rodeia.
Aqui ocorre, muitas vezes, o grande encontro do homem com a morte.
A morte é um acontecimento singular, o mais singular de todos os acontecimentos biográficos; só os fuzilamentos e os massacres transformam a morte num sujo e degradado espectáculo colectivo. Cada um de nós, é único e irrepetível desde a fusão do espermatozóide com o óvulo e desenvolve, no tempo, um programa harmonioso que contempla a possibilidade da criação intelectual - livre, imprevisível, diversa, misteriosa. Cada um de nós é uma infraestrutura física - ossos, músculos, fígado, pulmão, encéfalo... - mas é, também, uma inteligência criadora. A morte anula a infraestrutura física e impossibilita novas criações da inteligência. Mas o que a inteligência criou é eterno.

Criações da inteligência são todos os objectos culturais, da roda à catedral gótica, ao laboratório espacial; criações da inteligência são todos os objectos não materiais, como os valores éticos, o bem, a verdade, a justiça; e criação da inteligência é o amor entre todos os homens, base da nova ordem mundial que vai para dois mil anos foi proposta à humanidade. Base do segundo Paraíso, o Paraíso da hominização plena.
A morte de cada um de nós não interrompe este poderoso ciclo ascensional do Espírito.
Só o Holocausto da Humanidade poderia conseguir esse objectivo, mas tal suicídio colectivo e universal carece de sentido biológico e é uma monstruosidade impensável.
Lugar de vida e lugar de morte o Hospital entra assim, diáriamente, na aventura histórica do devir humano.
Que todos nós, neste Hospital de S. João que hoje completa 25 anos, tenhamos sempre presente, no dia a dia das nossas actividades, esta exigência radical: o Homem doente, na sua grandeza ou na sua miséria, é o centro do Hospital e nele pomos todas as nossas complacências.

Porto, 24 de Junho de 1984 
 


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