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A passagem para um novo século não é um salto temporal que produza alterações qualitativas súbitas. Mas, tal como aconteceu no fim do primeiro milénio, pode suscitar uma reflexão mais cuidada e profunda sobre a natureza e o destino do homem, ou seja, sobre a condição humana temporal.
O homem em situação, o homem hoje, não pode ser entendido fora de uma concepção evolutiva e adaptativa, no tempo.
O homem em devir, o homem-amanhã, está contido nas potencialidades e mecanismos do próprio processo evolutivo e adaptativo, está contido no homem-hoje.
Irei desenvolver a reflexão sobre o homem como um ser biológico temporal no interior da concepção archeobiológica proposta noutros trabalhos e que exporei em síntese.
Esta primeira parte permitirá que se chegue a uma compreensão sobre a natureza corporal do homem.

Quanto ao destino, que é inventado pela inteligência humana, irei formular hipóteses; a mais sedutora, para mim é que o homem se destina, no tempo, a tornar-se num ser bioético, no pressuposto de que a Bioética será a grande Utopia que irá unir e apaziguar os seres humanos, em todo o globo, durante o Século XXI e até à consumação dos séculos, ao fim do tempo.
Porque o eixo, ao redor do qual irão girar todos os desafios do próximo Século é a globalização ou mundialização de tudo o que respeita à natureza e ao destino do homem-economia, cultura, educação, saúde.

Tratemos, então, em primeiro lugar, do corpo.

O corpo do homem tem oito milhões de anos. É um acontecimento moderno na longa história da vida e da emergência das espécies.
Especiar é fixar, por aprendizagem genética, as características corporais que garantem a sobrevivência num determinado nicho ecológico. Uma vasta convulsão telúrica que dobrou e rasgou a metade oriental do continente africano, do Egipto a Moçambique, terá criado o ecobiosistema no qual os nossos antepassados há 8 milhões de anos, puderam sobreviver, crescer e multiplicar-se, evoluindo, evoluindo depois incessantemente em resposta adaptativa às variações do nicho ecológico.

O que sabemos e o que podemos deduzir com alguma segurança permite propor esta concepção - as transformações corporais do homem nestes oito milhões de anos são comandadas, basicamente, pela necessidade de criar e desenvolver meios eficazes de comunicação como a principal estratégia de sobrevivência.
De facto, em todas as espécies vivas, vegetais e animais, a sobrevivência individual, como garantia da sobrevivência da espécie, é a mãe de todas as estratégias, corporais e comportamentais.

A eficácia hidrodinâmica do corpo dos golfinhos, o longo pescoço da girafa, o lábio superior do elefante, o sistema muscular da pantera, as asas do louva-a-deus, ou o ADN livre dos pro-cariotas, são estratégias corporais que garantem com eficácia a sobrevivência do indivíduo. Podia citar milhares e milhares de exemplos do mundo animal e do mundo vegetal nos quais a leitura das alterações de adaptação evolutiva do corpo é uma leitura de vitória: mais força, mais velocidade, melhor coordenação, maior sensibilidade à luz, ao som, à temperatura, à pressão, à humidade do ar ou da terra, aos odores, etc, etc.
A esta leitura da evolução adaptativa tenho chamado archeobiologia, sendo certo que a archeobiologia do homo sapiens é a mais difícil mas também a mais apaixonante.

O dado paleontológico mais eloquente quando se comparam esqueletos de hominídeos bípedes africanos de 6, 4, 2 ou l milhão de anos é o do enfraquecimento progressivo do corpo que passa de robustus a gracilis, diria de pesadão, como o do actual orangotango, a gracioso, como o de uma imitação da Barbie, no máximo de 45 quilos.
A perda de peso, de força e velocidade para um bípede erecto, vivendo na savana, sem árvores de grande porte, às quais aliás já não poderia subir, deveriam ter conduzido à extinção desta espécie. Extinção em massa.
Mas, bem ao contrário, a espécie sobreviveu e tornou-se uma espécie triunfante capaz de viver em qualquer eco-sistema e em qualquer ponto do globo terrestre.
A minha explicação, com todas as reservas de ser uma invenção pessoal, é a seguinte.

A posição erecta da cabeça, a rotação em vários planos e uma audição diferenciada direita e esquerda, a par da fusão das imagens do olho direito e esquerdo, terão permitido a recolha, em cada instante do tempo, de uma imagem complexa do mundo, à qual se chama episódio em psicologia cognitiva, mas que poderei chamar panorama para evocar o ecrã panorâmico usado pelos cineastas quando querem que o espectador veja um episódio complexo, num só tempo, sem análise das partes que o compõem; e também para recordar, a cada um de nós, o prazer que sentimos no alto de uma montanha - ou de um arranha-céus - ao contemplar um conjunto de mundo, como conjunto, como puro espaço ocupado que recebemos em nós como um todo e nos dá prazer.
Esta mesma percepção de episódios têm os actuais antropóides e por ela regulam as suas estratégias de defesa e ataque para sobreviverem.
Assim terá feito o Homo erectus durante centenas de milhares de anos.
Tudo o que no episódio percebido e memorizado se movimenta ou se altera constitui um sinal e provoca uma resposta do observador, resposta positiva ou negativa no piano neuro-motor e que gera impressão positiva ou negativa de prazer ou de dor, no plano afectivo.

A memorizarão, diria digitalizada, de uma resposta neuro-motora com a respectiva compensação afectiva, foi organizando o comportamento individual, sempre ordenado, recordo, para a sobrevivência.
A percepção episódica vai também fazer evoluir o acasalamento, que terá passado de um comportamento instintivo, motivado pela olfacção de substâncias odoríferas segregados pelas glândulas da área genital da fêmea, no período ovulatório, para uma escolha visual que transforma o acasalamento de casual e instintivo em social. Tenho para mim que a sociabilização do Homo, que vai ser no futuro imediato e tardio o pano de fundo de toda a evolução adaptativa, tem a sua origem nesta alteração qualitativa do relacionamento sexual de homem e mulher, como macho e fêmea. A narrativa hebraica do processo de hominização marca a intervenção de lavé no aparecimento do homem com a expressão "homem e mulher os criou" como imagem e semelhança do próprio lavé, ele também criador e gerador do futuro.

Apenas para os menos versados na exegese do texto bíblico direi que Adam, na língua hebraica na qual foi vertida a tradição oral do mito da origem dos homens, não é o nome de nenhuma pessoa concreta mas significa a qualidade humana de todos os seres vivos que a possuem - o que hoje chamaríamos humanitude ou humaneness na língua inglesa; Eva também não é o nome de nenhuma pessoa concreta do sexo feminino, mas é um vocábulo cuja raiz significa o que me vê.
Assim, a interpretação mais rigorosa e abrangente do mito hebraico é a que faz radicar a humanitude - a Adam - na relação sexual como relação primariamente visual, logo referida à consciência do corpo próprio e alheio - a expressão "descobriram que estavam nús" não tem qualquer sentido erótico e assinala apenas a formidável descoberta consciente do corpo como representação externa da pessoa.

Para finalizar este entre-parêntesis bíblico lembrarei que estas mesmas fases evolutivas se reconhecem hoje no desenvolvimento da humanitude em cada cria humana como adiante irei referir.
Antes deste inciso bíblico tinha deixado o homem, na savana, já bem equilibrado nos dois pés, começando a construir com as imagens visuais e auditivas a representação do mundo, de um mundo onde não são ainda individualizadas partes mas que é percebido como um episódio global, um grande panorama visuo-auditivo; em linguagem mais actual, muito do que é percebido como gosto dos analistas políticos, diria um cenário.

Este homem é fisicamente fraco, qualquer predador o despedaça e a posição erecta, o bipedalismo, tornou-o, além de fraco, vulnerável.
A sobrevivência irá, agora, depender da mais-valia resultante da visão horizontal combinada com uma integração dos sons diria estereofónica e estereotáxica, ou seja, ao mesmo tempo, espacial e direccional. Estas duas capacidades são complementares, mas tiveram, no tempo, um desenvolvimento próprio, autónomo, de tal modo que, hoje, um invisual pode construir uma imagem sonora do mundo reconhecendo episódios e movimentando-se no interior desse mundo.

O desenvolvimento desta articulação visuo-acústica irá exercer uma grande pressão, por assim dizer, sobre a função sensório-motora exercida pelo sistema cérebro-espinal. Apenas espinal nos animais segmentados vemo-la crescer a partir dos répteis, configurando uma cabeça, com uma capacidade interna progressivamente crescente para abrigar um tecido nervoso também progressivamente crescente em número de células, articuladas em rede para responderem a novas funções.

O difícil equilíbrio do bipedalismo que exigiu uma fina e constante regularão sensório-motora, um orgão próprio que é uma espécie de giroscópio e um pequeno cérebro integrador dos estímulos, o chamado cerebelo; a integração das duas imagens visuais para a estereoscopia e a geração de um circuito audio-motor para que a um som possa seguir-se um movimento intencional - eis os instrumentos de exploração da mais-valia de andar sobre os dois pés, todos eles concentrados progressivamente num só e mesmo órgão que é, foi, o sistema nervoso.

O sistema nervoso vai ser, em alguns milhões de anos, simultaneamente causa e consequência da evolução adaptativa do homem, traduzido pelos qualificativos latinos dos paleontólogos - robustus, ciracilis, erectus, faber, habilis, ergaster, sapiens, sapiens sapiens.
A evolução adaptativa caracterizada por estes qualificativos latinos é, como disse há pouco, essencialmente ordenada para a comunicação.
Os estudos minuciosos da comunicação entre os primatas actuais, observados em liberdade, mostram que a percepção de mudanças no cenário memorizado provoca uma interpretação positiva ou negativa, um gesto motor e um aviso sonoro, guturalizado, que transmite aos restantes membros do grupo social a interpretação, seja positiva ou negativa.
Este aviso sonoro habilita os outros a reproduzirem imediatamente o gesto motor. Assim, por meio desta linguagem sonora, que é já simbólica, um grupo social de orangotangos ou chimpanzés organiza-se para o combate ou empreende a fuga, em resposta a uma mudança no cenário que haja sido interpretada como ameaçadora.

O aperfeiçoamento progressivo desta capacidade de ver-ouvir-gritar-correr vai dar-se no homo em ciclos de sensivelmente 2 milhões de anos e acompanha-se de um aumento progressivo do tamanho do encéfalo avaliado pela capacidade crescente da caixa craneana fossilizada, correlacionada com a datação.
Porquê. Porque o enriquecimento das articulações visuo-audio-motoras exige o aumento do número de células cerebrais e a multiplicação dos feixes de articulação das redes neuronais.

A evolução do som gutural para a articulação silábica, hoje bem conhecida, envolveu modificações no controle audio e visuo-motor dos músculos da língua, da faringe e da laringe, mas estas modificações, que são comandadas por um programa cerebral, foram preparadas pela rica mobilizarão motora dos músculos faciais, que caracterizou o período da comunicação mimética pré-verbal que terá sido, durante dois ou três milhões de anos, o modo do relacionamento interpessoal do faber e do habilis. O sorriso, forma de comunicação mimética largamente utilizada ainda hoje pelo sapiens sapiens actual, mobiliza mais de uma dezena de músculos que se contraem e relaxam de forma coordenada em resposta a um estímulo cerebral que transmite uma intenção de apaziguamento na relação com o outro. Mas o sorriso tem dois milhões de anos e é, desde há dois milhões de anos uma estratégia de sobrevivência em constante aperfeiçoamento, precedendo e condicionando a fala.

Demoraria muito tempo a expor como a elocução da palavra foi uma consequência do sistema básico de articulação audio-motora e depois visuo-motora e explicar porque é que um surdo de nascença não fala mas pode adquirir uma linguagem mimética visuo-motora.
Para o nosso objectivo que é o de perspectivar os desafios do próximo século, bastará dizer que a palavra foi assumida pelo sapiens para comunicar os conteúdos interpretativos extraídos, pela inteligência, da percepção dos cenários, primeiro; depois da mimesis dos actores nesses cenários a partir de uma visão que já não é apenas gestáltica mas se tomou analítica; finalmente, para comunicar ideias abstractas carregadas de um significado próprio.
A palavra que, biologicamente, é uma adaptação evolutiva do grito gutural modulado, apresenta então uma alteração qualitativa e com essa alteração abre o caminho para o homem moderno, o sapien sapiens, o que tem consciência de saber.

A alteração qualitativa, dependente da invenção da palavra a que me estou a referir é a passagem de uma função representativa directa do real exterior, - o nome das coisas - que é uma função substantiva, para uma função simbolizadora, indirecta, dos conteúdos da auto-consciência - a qualidade e o modo das coisas - que é uma função adjectiva e adverbial.
A função simbolizadora do sapiens já presente no Paieolítico Superior, manifestada na cultura megalítica, nos objectos intencionais e nos pictogramas, vai expandir-se incessantemente até aos nossos dias centrada na palavra como representação simbólica e como figuração do conhecimento humano do mundo e dos outros homens.
Com a palavra a representação do mundo e dos outros homens torna-se virtual, rigorosamente virtual, passando a coexistir, ao lado da cultura exterior simbólica real, feita de objectos intencionais, uma cultura exterior simbólica virtual feita de ideias que são pura invenção da inteligência reflexiva do homem.

Este outro mundo não objectual, este outro mundo da figuração das coisas é que é o mundo intrinsecamente humano e é este mundo que poderá ser globalizado. Do Polo Norte ao Polo Sul e em todos os Continentes, as culturas simbólicas reais são profundamente diferentes: aqui há automóveis velozes ali usa-se o dorso dos camelos pachorrentos, aqui cabanas de ramos de árvores, além tocas cavadas no gelo ou arranha-céus de ferro e cimento; homens e mulheres vestem-se, comem e relacionam-se entre si de mil maneiras diferentes.
Mas seja qual for a diversidade das culturas simbólicas reais todos os homens, porque todos têm inteligência reflexiva, podem compreender uma ideia abstracta que transmita, que comunique um conceito virtual como, por exemplo, este: "amai-vos uns aos outros, sede bons uns para com os outros." Todos podem compreendê-la.

Por isso tenho para mim que o único grande desafio do próximo século é o da globalização desta ideia abstracta que não tem suporte na cultura exterior simbólica real, não é produto dos computadores, dos satélites, da televisão, dos raios laser, dos aviões supersónicos, da internet ou do dinheiro.
É uma ideia abstracta, nascida da reflexão da inteligência humana, gerada na auto-consciência e transmitida nesta frase simples, construído com palavras simples: amai-vos uns aos outros; ou seja, relacionai-vos uns com os outros em paz, com espírito de paz.
A paz é possível, é difícil mas é possível.

Os computadores, os satélites, a televisão, os raios laser, os aviões supersónicos, a internet e o dinheiro - para citar apenas alguns instrumentos da cultura exterior simbólica real - ao globalizarem a informação, a comunicação e a convivência entre os seres humanos, criaram o lugar e o tempo próprios para a globalização da paz entre todos os homens.
Este grande objectivo foi desde sempre assumido, pelas religiões por todas as religiões, que são na sua origem natural estruturas de apaziguamento (ponho aqui, entre parêntesis, à maneira da redução fenomenológica, a questão da origem transcendental ou extra-natural de algumas religiões, cujo tratamento exigiria muito mais tempo do que o que posso usar nesta comunicação).
Mas as religiões, todas as religiões, deslumbradas pelo objectivo grandioso da paz universal entre os homens, tiveram pressa de o conseguir e usaram os meios mais desadequados, o pior dos quais foi - e é - a morte do outro homem; foi matar homens em nome da paz entre os homens, negando, assim, a essência da própria religião como estrutura apaziguadora e não estrutura de poder de uns homens sobre outros homens.

Esta questão da pressa, bem evidente na Idade Média cristã e na conquista islâmica do norte de África e da Ibéria, resultou do desconhecimento da verdadeira natureza e operacionalidade da inteligência reflexiva humana e da vinculação radical do espírito ao corpo, da mente ao cérebro.
O homem como que foi retirado da natureza e até pensado como oposto à natureza e construiu-se, em consequência, uma teoria da paz entre os espíritos e não da paz entre as pessoas concretas que nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.

O grande movimento que se perfila para o Século XXI é o da reintegração do homem no mundo natural e do cruzamento dos saberes científicos sobre o fenómeno da vida, incluindo a vida dos seres humanos, com os saberes abstractos, as ideias, gerados pela inteligência reflexiva exercida sobre os conteúdos cognitivos, todos apresentados pelos sentidos à auto-consciência das pessoas.
O desafio do Século XXI é o da criação de uma bioética global para a paz, universal e sustentada, entre os homens.
À pressa, numa só geração?
Não cairemos outra vez no mesmo erro.
Apesar, da capacidade portentosa que os meios informáticos de tratamento e difusão dos conhecimentos colocam hoje ao nosso dispor, há um passo decisivo que é preciso dar para que a Bioética seja uma utopia saudável e salvífica e não uma mera ideologia para, outra vez, promover a destruição e a morte intencional de seres humanos.

Esse passo é o de o comportamento altruísta, o ser bom para os outros, o amar os outros, não se apresentar aos homens como um voto piedoso das almas caridosas, mas como uma estratégia de sobrevivência.
E agora faço uma afirmação muito grave.  Conscientemente muito grave.
E que o suporte biológico para o comportamento altruísta, como estratégia de sobrevivência, esteja geneticamente fixado.
Esta afirmação, embora grave no seu conteúdo significante, não pretende concluir que o homem do futuro será geneticamente obrigado a ser bom para os outros.  Pretende propor que haverá circuitos neuronais, preformados, como tantos outros, capazes de interpretar as mensagens éticas que emanam da natureza e dos outros seres vivos, tanto os presentes como os históricos, e de oferecer, à opção livre das pessoas, comportamentos altruístas como estratégias de sobrevivência.

Tal como, no momento actual, os comportamentos de agressão e de violência são geneticamente fixados como estratégias de sobrevivência e dependem, basicamente, dos níveis de produção de adrenalina, de angiotensina e dos mediadores da contracção muscular, entre outros, haverá, no futuro, outras características biológicas dependentes de programas neuro-bioiógicos, geneticamente fixados, que prepararão o corpo do homem para a geração dos comportamentos altruístas.

A meditação transcendentai, o yoga, a trapa, as monjas de clausura, são experiências da geração de comportamentos altruístas por acção epigenética exercida sobre o corpo actual e os seus programas geneticamente fixados.  Com abolição total do comportamento agressivo e da violência
Também o foi o movimento franciscano de reintegração do corpo do homem no corpo universal da natureza viva e da natureza cósmica.
Um movimento franciscano, neo-franciscano se preferirem, vai ser retomado no século XXI como a essência das estratégias de sobrevivência baseadas nos comportamentos altruístas.
O apóstolo deste grande novo movimento é já conhecido, é um pensador hebraico e tem um nome profético, chama-se David Abraão.  O seu único livro publicado intitula-se "The Spell of the Sensuous". "Sensuous" são os sentidos mas "Spell" é um vocábulo polissémico que, no contexto desta obra, eu me atrevo a traduzir por fascínio ou fascinação, não propriamente dos sentidos mas do sensível. O subtítulo é: A percepção e linguagem num mundo mais do que humano.

Este livro sobre a fascinação do sensível, na minha tradução, é, ao mesmo tempo, poético e rigoroso, místico e científico. Não é fácil de resumir mas eu quero terminar a minha participação com a mensagem que ele contem porque penso - ia a escrever tenho a certeza - que esta mensagem será o grande desafio do Século XXI para o caminho, já então geneticamente facilitado, penso eu, para a paz entre os homens. 
Começa assim:
"Os homens estão sintonizados para o relacionamento. Os olhos, a pele, a língua, os ouvidos, o nariz - tudo são portas pelas quais o nosso corpo recebe a alimentação do não-eu, daquilo que me é exterior. Esta paisagem de vozes indistintas, este corpos com penas, com chifres, as torrentes dos rios - estas formas de respiração são a nossa família, os seres com os quais nós estamos comprometidos e com os quais lutamos, sofremos e celebramos.  Durante a maior parte da existência da nossa espécie os homens negociaram relacionamentos com cada aspecto das envolvências sensíveis, trocando possibilidades com cada forma móvel, com cada superfície texturada ou entidade movente sobre a qual recaiu a nossa atenção. Todos puderam falar, articulando no gesto e no som, assobiado ou suspirado, uma teia móvel de sentidos que sentimos na nossa pele, inalamos pelas nossa narinas ou focamos com os nossos ouvidos e aos quais respondemos - ou com sons ou através de movimentos ou com pequenas mudanças de humor. A cor do céu ou o movimento das ondas - qualquer aspecto do sensível terreno pode atrair-nos para uma relação que é sentida com curiosidade e temperada com perigo. Cada som foi uma voz, cada dificuldade ou engano foi um encontro - com o trovão, com o carvalho, com a libélula.  E de todos estes relacionamentos foram alimentadas as nossas sensibilidades colectivas.

Hoje nós participamos quase exclusivamente com os outros seres humanos e com as nossas próprias tecnologias, as tecnologias que nós fizemos. É uma situação precária tendo em conta a nossa velha reciprocidade com as muitas vozes da paisagem natural. Nós ainda necessitamos daquilo que é alheio a nós tanto como das nossas próprias criações. A premissa simples deste livro é a de que nós só somos humanos em contacto, em convivialidade, com o que é não-humano.
E esta premissa implica que vamos renunciar a todas as tecnologias?  De forma nenhuma.  Mas implica que devemos renovar o nosso conhecimento do mundo sensível no qual as nossas técnicas e tecnologias estão, todas elas, enraizadas. Sem a respiração oxigenante das florestas, sem a força da gravidade e a mágica desordem do fluxo dos dos, nós não conseguimos distanciar-nos das nossas tecnologias, não temos forma de avaliar as nossas limitações nem de evitar ficar preso nelas. Nós precisamos de conhecer as texturas, os ritmos, os sabores do corpo do mundo e de distinguir facilmente estes gostos dos que são invenção nossa. A realidade sensível directa em todo o seu mais-do-que-humano mistério permanece como a única pedra de toque sólida para expedenciar o mundo que está inundado com panoramas, gerados electronicamente e com prazeres engendrados em laboratórios de engenharia - só o contacto regular com uma terra e um céu tangíveis nos pode ensinar e orientar na navegação pelas múltiplas dimensões que hoje chamam por nós”.

Longa foi a citação do prefácio deste livro de David Abraão sobre a fascinação do sensível porque fui eu próprio fascinado pela sua leitura.
Problemas que têm sido centrais na minha reflexão são tratados neste livro com uma profundidade e um rigor verdadeiramente extraordinários.
O problema da ecologia da linguagem e a descoberta do alfabeto na cultura grega a partir da escrita semítica, já operacional 1500 anos antes de Cristo, são tratados de forma original e tornam credível a afirmação de que a passagem dos criptogramas ou enigmas figurados para as escritas fonéticas marca a primeira fase da separação entre o homem e o mundo natural, completada pela representação escrita das ideias abstractas criadas pelo chamado milagre grego; meio século antes de Cristo.

Porque, no princípio, um fenómeno sensível e o seu nome falado eram co-participantes, era como se o nome fosse uma espécie de emanação do fenómeno sensível. Com o pictograma há uma associação directa entre o sinal pintado e a expressão vocal, assim esquecendo ou afastando a coisa real pintada. A fala ou elocução humana é provocada por sinais já criados pelo próprio homem e não pelas coisas sinalizadas.  Assim - e esta é a mudança radical - o vasto mundo, mais vasto do que o mundo da vida humana, não é mais parte da semiótica não é mais parte necessária do sistema de comunicação.

Não nego que a linguagem humana actual é um fenómeno único e que o discurso humano está já muito afastado da linguagem dos golfinhos, por exemplo, da linguagem do rio que corre para o mar ou da floresta varrida pelo vento leste.
Mas quando o homem inventou a linguagem na transição da cultura episódica e mimética para a cultura mítico-orai, usou-a durante milénios para propiciar, honrar e apaziguar os poderes da natureza envolvente.
A natureza toda, não um retalho artificialmente criado e representado pela linguagem abstracta.

A palavra Portugal pode ser entendida por pessoas humanas mas não tem nenhum sentido para o mundo sensível que me envolve e do qual eu sou parte.
O desafio do Séc. XXI é o do aparecimento, nas gerações emergentes, de um novo sentido de pertença a uma só e mesma terra e em relação directa com o fascínio do sensível que dessa terra emana e nos penetra, à maneira do neshamah da narrativa hebraica sobre a criação do mundo e do homem.
O mais importante e fascinante elemento sensível do mundo é o ar que todos os homens, em todo o mundo, recebem por igual quando nascem e no qual permanecem até à morte.  E com o homem muitos animais e todas as plantas.

O homem moderno desinteressou-se do ar e esqueceu-se dele até ao dia em que a poluição brutal em muitas partes do globo o fez relembrar-se do fascínio sensível de respirar, de introduzir no seu corpo uma parte do mundo sensível, de usar a expirarão para o grito modulado e depois para a emissão das palavras; que o fez sentir que o ar foi o veículo para a sua comunicação com os outros homens, foi a coisa natural à qual ele entregou as suas palavras para que chegassem aos ouvidos do outro e revelassem o sentido que com elas e nelas era transportado. E hoje, além da palavra, o homem entrega ao ar sinais que percorrem milhares de quilómetros e são, no remanso das nossas casas, sons, palavras e imagens; num rádio ou num televisor.
O ar é o primeiro suporte da globalização.  Todos os seres humanos o recebem, nele vivem e por ele vivem; todos os seres humanos estão embebidos no ar e pelo ar comunicam entre si.

Tenho para mim que o primeiro passo neste movimento de retorno ao fascínio do sensível natural, proclamado por David Abraão, vai ser o da nova relação dos homens com o ar, singularmente facilitada porque o ar está fora do circuito económico e não tem dono nem preço (embora os Estados usem a expressão de espaço aéreo nacional).
A nova relação com o ar será uma relação de afecto, de prazer, de respeito e de responsabilidade.  Uma relação ética como se de relação entre pessoas se tratasse.
Depois do ar, a água, os animais, as plantas e a terra mineral serão objecto do cuidado dos homens, numa relação interactiva que restituirá a todos os homens o perdido sentido de pertença ao mundo natural.
Este retorno possibilitará uma reflexão profunda sobre a origem biológico-natural do ser humano, confirmará os homens na certeza da sua radical igualdade, na qual não há lugar nem para a violência nem para a morte. "Não há distinção entre judeu e grego", diz S. Paulo na Carta aos Romanos.

O grande desafio do Século XXI é, então, o desafio para uma paz universal e permanente.
Existem os meios, existe a concepção, começa a existir a vontade.
Só precisamos do tempo.
Então que o tempo nos seja favorável.
É o meu voto.

Daniel Serrão
18 de Abril de 1998



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