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Esta é uma reunião de trabalho.
Não é uma sessão solene, embora este encontro das duas instituições, a que me honro de pertencer, com o objectivo de produzirem obra profícua merecesse ser solenizado.
Porque é uma reunião de trabalho não vou fazer um discurso de Estado sobre o tema, nem o saberia fazer. Pretendo, contudo, ultrapassar o nível morno das conversas em família onde é sempre possível escamotear o essencial a favor dos pequenos incidentes do dia a dia, tornados, artificialmente, relevantes.
Agradeço às duas instituições que me tenham convidado. Professor e Director de Serviço no momento actual, vou com 40 anos de vivência hospitalar, iniciada ainda aluno do primeiro ano, quando o velho Zé da Anatomia nos sacudia do Teatro Anatómico e nós íamos acabar a noite ao Banco do Santo António que, mesmo ali em frente, nos atraía com o sortilégio da prática médica em seres humanos vivos e reais.

Nestes quarenta anos, vividos com alguma intensidade, não perdi o sentido da vocação, confirmada nessas idas ao Banco: ser médico é estar ao serviço do homem doente, nem que seja pela calada da noite e mesmo quando esse homem-doente nos aparece sob a figura do alcoolismo crónico imbecilizado ou da prostituta esfomeada e febril.
Como qualquer outra vocação esta, de ser médico e estar ao serviço dos outros, começa por um movimento interior da inteligência, da vontade, da afectividade. Não existe sem este movimento interior, sem este querer ser. Mas se é condição necessária não é, condição suficiente.
Prestar um serviço ao homem doente é a razão última, a justificação essencial destas duas instituições; cada uma no seu domínio próprio de actividade não pode escamotear, silenciar, esquecer ao perverter este objectivo essencial; tão grandioso em si mesmo e tão rico de valor ético, humano, sócio-cultural e até biológico que todo o esforço para o atingir está, desde logo, justificado e tem de constituir a "prioridade das prioridades" de qualquer grupo humano organizado.
Um grupo humano que não consiga promover a saúde dos seus membros e os deixe dizimar ao nascer ou nos primeiros anos de vida, pela tuberculose ou pela malária, pela lepra ou pela schistosomíase, não tem condições de sobrevivência no mero nível biológico. E desaparece.

O alarme e o terror que a síndrome de imuno deficiência adquirida está a provocar em todo o mundo e a ansiedade e esperança com que as pessoas pedem ajuda da medicina, demonstram à evidência, neste nosso tempo de progresso e felicidade, que o homem é um ser frágil cuja saúde carece de vigilância e de apoio.
Agradeço que me tenham convidado para falar sobre "Um Hospital Universitário, hoje". Vou ter ensejo de expor o que tem sido objecto de estudo e meditação, de simples observação ou de empenhada actividade, nestes anos que levo de vida profissional. E não me perturba a serenidade do espírito nem me afecta a independência do juízo crítico, qualquer referência que tenha de fazer a este Hospital Universitário em que trabalho. Não sou candidato nem o serei nunca a lugares de chefia ou direcção e o depoimento que vou prestar é uma homenagem aos Colegas que desde há 25 anos se têm esforçado para colocar o Hospital de S. João ao nível de uma grande unidade de ensino, investigação e assistência e àqueles outros colegas que desde 1825, nesta nossa cidade do Porto, transformaram muitos milhares de jovens vocacionados, em médicos competentes e dedicados.

1. Um hospital universitário hoje é, por definição, uma instituição organizada para o desempenho simultâneo e integrado de três funções: assistência, ensino e investigação.



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