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Devo um agradecimento, que é muito sincero, ao Presidente da COFANOR, porque, mais uma vez, me escolheu para estar convosco nestas Jornadas que são uma referência no nosso panorama cultural. Porque é de cultura que aqui se trata, a científica e a outra, em diálogo que se deseja criativo e futurista. E agradeço igualmente ao Prof. Walter Osswald que, de certo, apreciou e aprovou a escolha.
Estou à vontade nesta palestra final porque tudo o que era rigoroso e importante já foi dito, mostrado e comentado.
Como não sou cientista, deixo o impertinente colesterol em paz para exercer o seu fútil poderio sobre as mentes sensíveis à química e aos números; e com a leveza possível, alguma fantasia e muita convicção vou tentar captar o vosso interesse para uma desenfastiada reflexão sobre o corpo, ele próprio, e sobre o seu lugar no que chamamos auto-estima, self-esteem.

Falemos, então, do corpo – como corpo humano; porque o corpo vegetal e animal, sendo-nos tão útil, direi até indispensável à nossa sobrevivência, é-nos estranho em si próprio, é tão somente objecto da nossa observação exterior. Sempre redutora.
1 – O corpo dos seres humanos é uma entidade biológica organizada com uma longa história adaptativa de milhões de anos – 6 a 9, a gosto dos especialistas de fósseis ósseos. Tenho argumentado, em muitos lugares e oportunidades, que a lógica para o entendimento da evolução adaptativa de todos os corpos, incluindo o corpo dos seres humanos, terá de ser uma archeológica, uma lógica com a subtil capacidade para ler a forma corporal em função do tempo astronómico, descobrindo, nela, a relação significante entre estímulo, estrutura e função. A archeológica constrói uma archeobiologia que é, deverá ser, será, simultaneamente, compreensão do passado, explicação do presente e profecia para o futuro.
Não vou aqui, hoje, repetir-me. Deixai-me só afirmar que a simbiogénese que Lynn Margulis vem procurando comprovar cientificamente na evolução adaptativa do corpo dos unicelulares e dos pluricelulares mais simples é um bom exemplo de investigação archeobiológica.

Recentemente, na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, um cientista atípico, mostrou-se muito seguro de que a simbio-génese é a explicação da evolução dos seres vivos.
No presente temos aí uma entidade biológica organizada que, viva ou morta, é identificada como corpo humano.
O corpo humano morto não levanta problemas difíceis. Estudei alguns na Anatomia do meu curso de Medicina. Autopsiei milhares como patologista e o meu objectivo era apenas científico e biológico natural, tranquilo, sem particulares estados de alma.
Já o corpo de um ser humano vivo, como por exemplo o meu, neste momento, levanta dificílimos problemas de epistemologia, ou seja, de interpretação cognitiva.

Neste momento o meu corpo é, para todos vós, objecto de conhecimento. Em parte coberto e em parte descoberto; ele pode ser conhecido pelos vossos órgãos dos sentidos, avaliado, julgado, classificado, amado, admirado, odiado, ferido, ou até destruído, transformando-se em corpo morto. Que vejo eu quando te vejo? Que vêem todos vós quando me vêem?
A percepção de um corpo humano, outro, exterior, não é muito diferente da percepção de outros objectos exteriores do mundo natural e do mundo cultural. Esta percepção, como todas as outras, criará conteúdos na consciência cognitiva, rapidamente esquecidos, ou não, pela inteligência emocional afectiva e/ou pela inteligência reflexiva.

A percepção do corpo do outro é muitas vezes, uma percepção distraída e inconsequente. Passeando pelas ruas de uma cidade desconhecida de um país cuja língua não compreendo, cruzo corpos humanos, com alguma curiosidade para imaginar o que fazem ou como vivem, mas tudo logo se desvanece, como se desvanecem as paisagens ou as obras de arte amontoadas nos Museus que os guias turísticos nos mandam visitar. A dificuldade não está no corpo visto mas no corpo que vê. Usando o rigor e a economia do verso, Fernando Pessoa interroga-se:
“De quem é o olhar que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo, quem continua vendo enquanto estou pensando?”
Aqui está todo o problema da percepção do corpo próprio, da estranha situação de o corpo ser, ao mesmo tempo, sujeito e objecto de percepção, de conhecimento perceptivo; individual e, para todos os efeitos, secreto.

2 – Tenho de introduzir agora o problema do nome, da palavra que é denominação e, também, denotação.
Inventei uma vez, quando analisava a emergência da palavra nos grupos humanos que apenas comunicavam por mimesis corporal significante, feita de movimentos, de ritmo e de sons guturalizados por uma laringe ainda muito alta, inventei, dizia, que a primeira palavra haveria de ter sido um monossílabo gutural – seria absurdo que fosse um vocábulo polissilábico e seria impossível que o som tivesse modulação dental, labial, lingual, nasal ou do cavum oro-faríngeo, dadas as relações posicionais entre a laringe e o futuro aparelho fonador no pescoço do Homo Neandertaliense ou do Cro-Magnon. E também inventei que essa proto-palavra primordial não teria como finalidade representar um objecto natural, visto a capacidade representativa da mimesis ser bastante e eficiente, mas sim uma ideia abstracta; a primeira de todas as ideias abstracta é a descoberta da capacidade de abstracção revelada na identificação do sujeito que conhece.

Assim, sem temer o ridículo e sabendo bem que iria irritar os especialistas da linguagem, afirmei que o primeiro vocábulo monossilábico e gutural foi expelido por uma laringe ainda tosca, em comparação com a laringe do homem moderno, com a intencionalidade de representar a noção de “sujeito individual oposto ao mundo natural e aos outros seres humanos”. Dezenas de milhares de anos após essa descoberta fulgurante, e seminal e em centenas de linguagens faladas, o sujeito individual, continua a ser identificado por um monossílabo gutural. No português actual é eu, um monossílabo gutural, claro está.

A comunicação sonora oral, riquíssima na mimesis, é agora restringida, pela palavra, à obrigação de transmitir de conteúdos significantes rigorosos que emergem da actividade reflexiva do neo-cortex e este vai conseguir, no tempo, progressivamente, articular e flexionar as palavras e inventar o maravilhoso instrumento que é a linguagem falada, representativa e codificada.
É esta linguagem falada que me permite, agora, apresentar-vos a pergunta radical – o que é que sou eu? Sou um corpo?
Respondo: não sou um corpo, sou uma pessoa.

Descartes não errou, ao contrário do que afirmou Damásio, porque a sua pergunta e constatação radical não se referia aos homens em geral mas a si próprio; e pode ser, com toda a legitimidade, expressa em português, da seguinte forma: penso-me, portanto, sou um eu, sou um próprio, sou uma pessoa. Na meditação cartesiana, o reconhecimento de uma res extensa e de uma res cogitans era um dualismo metodológico e não configurava uma separação, como rotura, entre duas naturezas.
De toda a evidência o pensar-se – que, em Descartes, é a qualidade específica do existir do homem Descartes e, certamente, do existir de todos os homens capazes do auto-reconhecimento – o pensar-se, dizia, não é uma postura reducionista limitada ao que mais tarde haveria de ser a deusa Razão, mas refere-se a toda a auto-cognição, emocional e reflexiva, no profundo sentido do “conhece-te a ti próprio” do pensamento grego pré-cristão.

Pensamento grego este que Clemente, bispo de Roma, na última década do Século primeiro depois de Cristo, iria invocar na sua carta aos fieis da Igreja de Corinto, que era a cidade capital da Grécia ou Acaia dos romanos, para lhes afirmar a importância das mais pequenas partes do corpo humano para a vida do corpo inteiro, usando a célebre frase “todas respiram em conjunto” e, ao fazê-lo se subordinam à conservação do corpo inteiro. Para Werner Jaeger, a quem fui buscar esta erudição, a utilização, por Clemente de Roma, do verbo grego sympnei indica que o autor quis significar que todas as partes do corpo têm um pneuma, ou seja, um espírito comum, que perfunde e anima todo o organismo do corpo. Não há aqui separação entre corpo e espírito, como não havia no nishmat da tradição hebraica, na leitura do biblista António Rocha Couto.
Não creio que Descartes haja sido dualista como também o não foi S. Tomás de Aquino, ainda que falasse de corpo e alma, porque o seu genial conceito de forma salvou-o desse erro, erro que tantos continuam a cometer à sua sombra.
Sou, então, uma pessoa, enriquecida pela sucessão temporal de várias e contínuas apresentações, aos outros, de um corpo visível, desde o zigoto até ao último milésimo de segundo de vida material. Enriquecimento perceptivo e reactivo, memorizado.

A egogénese, como tão saborosamente chama Lain Entralgo ao processo de individuação, completa-se na autognose, na auto-consciência, que é consciência física parcial – nunca vi o meu pâncreas, nem a minha quarta vértebra lombar, nem o meu cérebro que tanto gostava de poder ver para além das cintilações da tomografia por emissão de positrões – e consciência mental também parcial porque só uma parte dos conteúdos de origem emocional e racional aflora à auto-consciência no fluxo vivencial comum.
É na auto-consciência que o eu constrói uma imagem corporal e é na auto-consciência que o eu avalia essa imagem corporal. Estima, na tradução do esteem inglês, é avaliação, sem presunção de o resultado ser positivo ou negativo.

3 – A auto-avaliação, auto-estima se preferirem, é constantemente praticada por cada um de nós e promove intervenções sobre o corpo físico, de acordo com a interpretação afectiva, emocional ou racional dada ao resultado da avaliação e de acordo com os objectivos desejados pela pessoa e com as pressões sociais para impor tipos de corpos.
Ao contrário do que tenho lido a propósito das intervenções de cirurgia estética que procuram mudar os corpos, as intervenções sobre a forma corporal e sobre a imagem do corpo vestido serão tão antigas como a própria ego-génese ou personalização. Aquela espécie de chapéu que prolonga, para o alto, a cabeça da rainha Nefertitis devia dar-lhe uma imagem corporal que a rainha avaliaria muito positivamente, ao espelho.
Os objectivos desejados pela pessoa para o uso que quer fazer do corpo condicionam fortíssimas intervenções sobre a morfologia corporal e sobre a função que, para esse corpo, se deseja. Um corpo para ballet, para artista de circo, para boxeur, por exemplo, entre inúmeros outros exemplos, exige uma intervenção sobre o corpo que depende de uma decisão que é tomada no nível da auto-consciência, ou nível espiritual, como gosto de chamar-lhe.
Nenhuma jovem candidata a bailarina consegue criar o corpo adequado e capaz sem uma decisão mental pessoal e persistente. E nenhuma bailarina consegue criar, em palco, a espiritualidade e o fascínio, sem uma intensa concentração do seu espírito sobre o seu corpo.

Esta maitrise sobre o corpo, que a auto-avaliação da imagem corporal permite é, contudo, muito influenciada pelas pressões sociais que se exprimem através do que, genericamente, podemos chamar de moda e que extravasa as roupas para vestir os corpos. Sendo certo que o traje é um elemento importante da auto-avaliação da imagem corporal própria – as togas dos juízes e professores, as fardas dos que querem ter poder sobre os outros, a indumentária dos toureiros e cavaleiros, acrescentam à imagem corporal uma mais-valia que nem por ser, às vezes, ridícula, é menos eficaz no contexto social.
Diz-se, e parece que com boas razões, que a invenção das Barbies, masculina e feminina, tinha como objectivo influenciar, desde muito cedo, a imagem corporal da juventude, como estratégia para lutar contra a obesidade que é, nos Estados-Unidos e também no Canadá, um grave problema de saúde pública.

4 – A auto-avaliação e a manipulação intencional do corpo decidida pela pessoa, tem, indiscutivelmente, uma importante vertente ética.
Num artigo recentemente publicado em Medical Humanities, uma revista inglesa editada pelo Journal of Medical Ethics, Wainwright e Turner analisam embodiment and vulnerability no quadro de uma reflexão ética.
Louvam-se no pensamento de um sociólogo moderno, Bourdieu, que considera que as nossas práticas sociais, como agentes actuantes, resultam de esquemas e disposições, habituais, habitus, combinados com vários tipos de recursos, capital no sentido mais geral, sendo que as nossas intervenções ocorrem em condições sociais estruturadas, às quais chama campo, ao qual pertencem tanto o habitus como o capital que podem reproduzir ou modificar o campus.
As intervenções do eu sobre o corpo próprio percebido e avaliado estarão, necessariamente integradas neste esquema conceptual de habitus, capacidades e campus.
Mas o corpo não é filosoficamente pacífico logo no plano do habitus.
De facto interrogamo-nos.
O corpo é só a estrutura biológica que eu posso percepcionar?
O corpo é apenas uma construção social para uso externo?

Ou o corpo é essa realidade, teimosamente analisada por Merleau-Ponty, que acontece na percepção individual quando se transforma em imagem, não exclusivamente física, na auto-consciência?
Se calhar as três perspectivas – a biológica e naturalista, a construtivista social e a fenomenológica, têm uma parte de razão e a imagem corporal, para efeitos de auto-avaliação, constrói-se com essas três perspectivas.
E o corpo doente?
O corpo doente como auto-percepção, como illness, ilustra muito bem o que acabo de afirmar.
Tenho repetido, talvez até em intervenções anteriores, nestas Jornadas COFANOR, que o adoecer humano está embebido, totalmente, no nosso presente e no que augurarmos para o nosso futuro.

A epifania do corpo na nossa auto-consciência desencadeia a avaliação, como disse. Mas, as coordenadas desta avaliação, desta estima, são poderosamente biográficas. No esquema de Bourdieu, habitus, capital e campus são parte da biografia de cada um de nós, intervêm mas não cortam a nossa liberdade.
A doença crónica, um pouco incapacitante pode constituir, ou uma rotura biográfica – tenho dores nas articulações e músculos, não posso fazer nada nem sirvo para nada – ou a abertura para uma mudança biográfica, na qual a imagem do corpo com doença crónica é avaliada positivamente. As experiências transformadoras da imagem corporal podem ser exaltantes e enriquecerem toda uma nova biografia. Quem poderia prever para a pintora mexicana Frida Kahlo outro destino que não fosse a rotura biográfica, o desespero e a morte? E os paraplégicos que se realizam numa outra biografia, para o desenvolvimento da qual não é necessário o movimento dos braços e das pernas?

É difícil mas é possível reconstruir uma imagem corporal gratificante, com um novo capital e num campus diferente, onde os recursos disponíveis são bastantes e geram uma avaliação, a estima, que é positiva.
A nostalgia ou a saudade pela imagem corporal que foi a tal epifania luminosa, triunfante e saboreada na auto-consciência, não deve ser nunca transformada em perda da chamada auto-estima como auto-avaliação. Aqui estou eu, meio surdo, a ver mal, operado a um cancro (com bom resultado curativo, devo dizer, para desvalorizar o argumento) mas a avaliação que o meu eu faz da pessoa que sou no corpo de que posso agora dispor, desperta-me alguma nostalgia interior, mas é claramente positiva. Recordo algumas, duras, inflexões na minha biografia e penso que alguns sucessos conseguidos como simples ser humano, como médico e como anátomo-patologista e, ainda, como professor, sempre resultaram de uma avaliação correcta, no tempo próprio e com a capacidade e a preparação necessárias para receber, acolher e transformar os riscos inerentes a toda a mudança biográfica.

Percepcionar o corpo doente não é, necessariamente, causa de auto-avaliação ou auto-estima sempre negativa a menos que se esteja obececado pelo mito do corpo perfeito.
Ora, o corpo perfeito não existe. Nem na percepção, exterior, dos outros, nem na minha auto-percepção corporal e na imagem que sobre ela construo, com muita afectividade, muita emoção e alguma reflexão intelectual e abstracta.
Não quero voltar a Damásio e ao sentimento de si onde propõe a sua hipótese de disposições que não são palavras mas registos abstractos de potencialidades que ocupam (como, não sabemos) um espaço disposicional que acumula conteúdos sempre não conscientes e que existem de uma forma dormente. Quero referir a entrevista recente à revista La Recherche, na qual afirma, e bem, que “o espírito é mobilado pelo corpo e por ele habitado” mas acrescenta que esta noção de encartage não explica a forma como as estruturas neurais se transformam em imagens mentais … É um passo para a solução do problema da consciência” – eu diria da auto-consciência e, nela, da auto-avaliação – “mas não é a solução”.

5 – É ocasião para terminar.
É certo que o capital físico declina com o decorrer do tempo biológico. Mas também é certo que este declínio não é síncrono com o tempo. O jovem que aos 40 anos recebe a informação de elevação do colesterol, dito mau para agravar o efeito semântico, começa a perder capital antes do tempo e viverá à espera do enfarto do miocárdio, em breve, mesmo usando o mais recente dos medicamentos. À sua imagem corporal cola-se uma auto-avaliação negativa e a sua biografia será em muitos aspectos alterada. Se tivesse o colesterol bom aumentado ele ia para a neve; assim, com o mau a aumentar, constrói na sua auto-consciência uma pré-imagem de corpo-morto e não vai, mesmo não tendo feito uma prova de esforço e outras técnicas de avaliação do seu corpo. Não são felizes, vivem dependentes de uns miligramas de colesterol a mais, do mau colesterol, mesmo que o médico lhes afirme que o resultado é igual ao anterior.

Não estou aqui a defender que as pessoas não se tratem quando têm valores bioquímicos ou outros, que ficam fora da margem de variação dita normal. O que quero afirmar é que a pessoa não se pode considerar dependente desses valores e que cabe ao médico assistente, Especialista de Clínica Geral, com o apoio nos cultores de outras especialidades, decidir o que deve ser dito e recomendado à pessoa no quadro ético do consentimento após informação, verdadeira, compreensível e ponderada.
Este procedimento, eticamente correcto, ajudará a pessoa a manter uma boa avaliação do seu corpo pela auto-consciência e a estar em paz com a sua biografia passada, presente e futura.

Daniel Serrão


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